A Sorte Nos Uniu
Short Straw Bride
Dallas Schulze

Ele queria uma noiva perfeita...  E encontrou Eleanor! Luke McLain estava cansado da desorganizao da casa, da comida malfeita e das cortinas imundas. Estava farto de pensar em quem ficaria com o rancho quando ele se fosse. Luke podia imaginar a esposa perfeita, dcil, caseira e carinhosa, e, quando viu Eleanor Williams na igreja num certo domingo, pensou que havia acabado de encontr-la. O que ele no imaginava era que a pequena Eleanor tinha opinio... e algumas idias prprias a respeito do casamento!

Dados da Edio: Edit.Nova Cultural 1997
Publicao original: 1996 Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao e correo: Nina Estado da Obra: Corrigida
CAPTULO I

No h como evitar, Luke. Precisamos de uma esposa. O tom de Daniel McLain era implacvel, conveniente  natureza sria do pronunciamento.
	Deve haver outra maneira.  A expresso de Luke era ainda mais sombria que a do irmo.
	No que eu possa ver.  Daniel serviu uma dose generosa de usque em seu copo e repetiu o gesto no de Luke.  Trabalhamos muito nesse lugar. Se algo acontecer conosco, o rancho ser vendido a algum estranho. E nenhum de ns vai querer que isso acontea.
Luke podia apontar que, nas atuais circunstncias, acabariam realmente vendo o rancho cair em mos estranhas, mas no o fez. A lgica de Daniel podia ser um tanto quanto crua, mas havia uma certa verdade no que dizia.
	Um filho.  disso que precisamos, Luke. Um de ns ter de produzir um herdeiro para assumir nosso lugar quando partirmos.
	Ei, no estamos com o p na cova!  Luke protestou, aborrecido. Aos trinta anos, ainda no se considerava prximo da eternidade. Temos muito tempo para pensarmos em esposas e filhos e em quem assumir nosso lugar quando no estivermos mais aqui.
	Talvez. Mas Heck Sloane era mais jovem que ns e Bill Parley ainda no havia completado trinta e cinco anos. E olhe s para eles agora.
Na verdade, nenhum dos dois poderia realmente olhar para os homens mencionados, pois ambos haviam encontrado a morte nos ltimos seis meses.
	Heck foi um idiota ao aceitar aquele duelo. Com aquele inseparvel Colt de cabo de madreprola, ele s queria mesmo era uma boa desculpa para morrer jovem.
	Bill no tinha nenhum Colt de cabo de madreprola  Daniel apontou com propriedade. Estava no terceiro copo de usque, e j sentia o peso da mo do destino sobre os ombros.
	No, mas tinha o maior e mais indcil cavalo desse lado de Julesburg.  de se espantar que ele no tenha jogado Bill contra uma parede h muitos anos.
	Podia ter acontecido com qualquer um de ns  Daniel insistiu, voltando  garrafa de usque.
	No, a menos que sejamos estpidos o bastante para montar num animal que se nega a aceitar qualquer tipo de comando  Luke protestou, embora com pouca convico.
O fato era que um homem no precisava montar um cavalo selvagem ou enfrentar um pistoleiro habilidoso e frio para morrer, e os dois sabiam disso. At mesmo um animal dcil e domesticado podia pisar num buraco ou assustar-se com uma cobra. Ou ser picado por ela... Um homem sozinho na plancie, sem um cavalo e longe de casa, tinha grandes chances de morrer de sede ou insolao. No precisava nem pensar em algo to dramtico para aceitar a possibilidade do fim de uma vida. O prprio pai, um homem duro como jamais conhecera, ferira a mo num prego e havia morrido uma semana mais tarde, de ttano.
Luke franziu a testa e cravou os olhos na superfcie arranhada da mesa da cozinha. Em silncio, enrolou um cigarro e riscou um fsforo na madeira envelhecida da mesa. Se a me fosse viva, ela o castigaria duramente por ter riscado a superfcie de sua mesa to limpa, e mais uma vez por ter se atrevido a fumar em sua cozinha. Mas ela morrera trs anos atrs, e o aposento outrora impecvel ostentava sinais evidentes de negligncia.
O grande fogo de ferro estava coberto por uma grossa camada de gordura, restos de comida e fuligem. As cortinas que um dia haviam sido brancas e cheirosas hoje eram imundas, e a janela coberta por elas no era lavada h trs anos. O piso de madeira de que a me tanto se orgulhara tambm estava coberto pela mesma camada de sujeira que podia ser vista sobre todas as coisas.
Luke moveu-se e, inquieto, passou o polegar sobre a marca deixada pelo fsforo. O ato de apag-la deixou uma ndoa mais clara e limpa sobre a mesa. Podia quase ver os olhos da me, sentir sua desaprovao. Embora toda a casa coubesse no salo de bailes da casa do pai em Virginia, Lucinda McLain sempre se orgulhara de seu lar, do trabalho que o marido e os filhos haviam investido para constru-lo.
Os McLain podiam ter perdido quase todos os bens materiais na Guerra Entre os Estados, mas no haviam perdido as coisas mais importantes: o orgulho e a determinao. No final da guerra haviam vendido o que restara, abandonado ou empacotado o que no conseguiram vender e mudaram-se para o oeste, perseguindo o sonho de uma nova vida, como metade do pas fizera naquele tempo.
A princpio viveram ao relento, literalmente construindo um lar a partir da terra que os cercava.
Ele e Daniel domaram cavalos selvagens para vender ao exrcito e usaram o dinheiro para comprar gado. Os primeiros anos haviam sido difceis. Os quatro trabalharam do nascer ao por-do-sol, at no poderem mais.
Antes da guerra, Lucinda McLain jamais tivera de sujar as mos em qualquer coisa que ultrapassasse as portas de sua casa, e mesmo l tivera criados para auxili-la. Mas aprendera a usar um martelo e orde-nhar uma vaca. As mos haviam se tornado calejadas e a pele, antes to plida, fora queimada pelo sol abra-sador, mas ela nunca esquecera o fato de ser uma dama, e jamais permitira que os filhos esquecessem que eram cavalheiros. Podiam comer po velho e feijo aguado, mas havia sempre uma toalha de linho sobre a mesa, mesmo que fosse apenas uma tbua amparada sobre duas estacas. Por maior que fosse sua carga de trabalho ao ar livre, fazia questo de assegurar que o marido e os filhos vestissem sempre roupas limpas, mesmo que remendadas.
Luke retirou uma folha de rvore do joelho da cala jeans e tentou lembrar quando ela havia sido lavada pela ltima vez.
	Pensando em mame?  Daniel perguntou, com a habitual perspiccia.
	Esse lugar  to diferente de quando ela ainda vivia...
Daniel seguiu os olhos do irmo pela cozinha, notando a sujeira que cobria todas as superfcies expostas. O resto da casa estava em melhor forma, mas s porque no passavam muito tempo nos outros aposentos.
	Ela nos arrancaria as orelhas  Daniel admitiu com tom culpado, baixando a cabea como se esperasse ouvir a voz severa da me.
	Podemos contratar uma governanta  Luke sugeriu.
	J tentamos duas. A primeira bebeu todo o lcool que tnhamos em casa e quase botou fogo em tudo. A segunda estava mais interessada em encontrar um marido do que em preparar uma refeio.
	Se no estou enganado, voc era o marido em questo. Se fosse um pouco mais lento, ela o teria agarrado.  Luke riu ao recordar a reao apavorada do irmo diante da perseguio obstinada da criada.
	No achou to engraado quando ela se virou para voc  Daniel observou.  Alm do mais, uma governanta no resolver o problema de termos um herdeiro para legar o rancho.
	Gostaria que deixasse de falar como se estivssemos s portas da morte  Luke irritou-se.
	No somos mais crianas, e ter um filho no  como encomendar uma sela nova. Pode levar algum tempo.
	Nove meses, pelo que ouvi dizer.  luke apagou o cigarro num prato com as sobras do caf da manh. Ou seria do jantar da noite anterior?
	Primeiro  necessrio encontrar uma esposa. E depois  preciso se dedicar  criao do beb. Dick Billings e a esposa levaram quase cinco anos para conseguir o primeiro filho.
	Se eu tivesse uma mulher como Almira Billings, no me importaria de passar cinco anos tentando. Alm do mais, toda essa prtica deve ter tido alguma recompensa, j que esto trabalhando no terceiro h seis anos.
	Ento, tudo que temos de fazer  encontrar uma bela garota para voc  Daniel entusiasmou-se.
Luke engasgou-se com o usque.
	Encontrar uma garota para mim? Desde quando estou procurando uma esposa?
	Pensei que houvesse concordado com o que eu disse sobre precisarmos de uma esposa  Daniel devolveu, com olhos cheios de surpresa.
	Se ns precisamos de uma esposa, porque eu tenho de encontr-la?
	Voc  o mais velho. E de se esperar que seja o primeiro a dar um passo to srio.
	No concordo com isso. Voc  o mais novo, e ainda no tem hbitos to arraigados.
	Sou apenas trs anos mais novo. Alm do mais, no quero me casar.
	Tambm no quero me casar  Luke argumentou.
O silncio prolongou-se enquanto os dois consideravam o problema. L fora, um grilo parecia lamentar-se, enquanto o som era tragado pela vastido da terra.
	Podemos fazer um sorteio  Daniel sugeriu.  Quem tirar a menor palha ter de encontrar uma esposa.
	No sei...  Luke hesitou. No era a soluo ideal. Por outro lado, a nica resposta ideal para essa questo era esquec-la, mas sabia que Daniel estava certo. Precisavam de uma esposa. E como nenhum dos dois queria uma esposa, era justo deixar que a sorte decidisse qual deles teria de sacrificar-se no altar matrimonial.
Em silncio, levantou-se e aproximou-se da vassoura que algum deixara apoiada num canto. Uma fina rede de teias de aranha a unia  parede, e o cabo grudou em seus dedos quando a tocou. Franzindo a testa, ergueu-a e quebrou duas palhas do chumao empoeirado. Daniel o viu medir as duas palhas e quebrar uma delas ao meio. No havia dvida sobre quem ficaria com a menor.
	Tem certeza de que quer tentar?  Luke perguntou.
	Sim, tenho certeza.
Sem olhar para as mos, Luke rolou as palhas entre os dedos e fechou a mo.
	Voc primeiro.
Os dois olharam para baixo. As pontas das duas palhas eram visveis sobre o polegar bronzeado. Uma delas era mais alta que a outra, mas no havia como saber qual era realmente a menor alm dos limites da mo que as escondia. Daniel estudou-as atentamente, como se a prpria vida dependesse disso, o que, Luke imaginava, era quase a pura verdade. De repente, adiantou-se um passo e escolheu uma das palhas, justamente a que exibia a menor poro para fora da mo que as segurava.
Houve um momento de silncio, e em seguida Daniel emitiu um longo e aliviado suspiro. Com o rosto inexpressivo, Luke foi abrindo a mo lentamente e olhou para o pequeno pedao de palha que descansava entre seus dedos.
Maldio! Agora teria de encontrar uma esposa!
Eleanor Williams apoiou os cotovelos no parapeito da janela e olhou para a grande lua amarela. Redonda, ela pairava no cu pontilhado de estrelas como uma matrona gorda rodeada por criadas  sua disposio. Mas Eleanor mal reparava na beleza da viso.
Hoje havia sido seu aniversrio. Completara vinte anos de idade e, de acordo com sua prima Anabel, j podia considerar-se uma velha solteirona. O comentrio rspido havia sido a nica referncia  data, e Anabel s o fizera para no perder a oportunidade de ser desagradvel. Infelizmente, nesse caso, sua rispidez era apenas o retrato da realidade. Era mesmo uma velha solteirona, Eleanor admitiu com um suspiro. E provavelmente morreria assim, j que vivia  sombra da prima mais jovem.
Anabel tinha apenas dezesseis anos e j se preparava para tornar-se uma mulher casada antes do prximo aniversrio. E como poderia ser diferente, sendo ela to linda?
Diferente dos cabelos lisos e dourados de Anabel, Eleanor possua cachos que chegavam  cintura e recusavam-se a aceitar qualquer tipo de ordem. Mesmo agora, quando acabara de tran-los para ir dormir, pequenos caracis j haviam conquistado a liberdade e repousavam sobre sua testa. Em vez do tom dourado que Anabel exibia orgulhosa, Eleanor era obrigada a contentar-se com um castanho escuro e sem graa, cor de sujeira, como havia dito sua prima quando, seis anos antes, viera morar com ela e a tia.
Como se no bastassem os cabelos dourados e lisos que a tornavam semelhante a uma boneca delicada, Anabel possua lindos olhos azuis que despertavam a inspirao dos apaixonados mais romnticos. Por outro lado, quem faria poesias para olhos castanhos e comuns como os dela? E Anabel era alta. No muito, como tia Dorinda teria apontado apressada, mas o suficiente para destacar a elegncia de sua figura esguia.
Graas a Deus sua Anabel no era aquela coisa esquisita, ouvira tia Dorinda dizer certa vez, depois de lanar um olhar significativo em sua direo. Com pouco mais de um metro e sessenta e uma figura que no era nem elegante nem esguia, Eleanor no pudera sequer atribuir o comentrio  lngua ferina da tia. Era mesmo uma coisa esquisita, e no havia como fechar os olhos para a realidade.
Corujinha. Era assim que o pai costumava cham-la. Todas as noites ele ia visit-la em seu quarto onde quer que estivessem hospedados e pedia sua opinio a respeito das roupas e do cabelo. Havia sempre um pequeno ajuste a ser feito pelos dedos infantis. Uma gravata torta, uma mecha mais rebelde, um boto frouxo a ser repregado no impecvel tecido branco.
A lembrana a fez sorrir. Somente depois da morte do pai percebera que esses pequenos defeitos eram propositais. Nathan Williams compreendera que a filha precisava sentir-se til e necessria. Se tivessem uma casa de verdade, poderia ter cuidado da arrumao, da limpeza e da cozinha. Mas Nathan era um jogador inveterado, e raramente passavam mais que algumas poucas semanas no mesmo lugar. Como nunca pudera dar a ela uma casa para arrumar, oferecera-se como uma espcie de prmio de consolao.
Sua me havia morrido quando ela tinha seis anos de idade, e durante os oito anos seguintes Eleanor viajara com o pai. Nathan comeara a jogar nos barcos do Mississipi, antes da guerra. Por ocasio do casamento com Emmeline St. Jacques, comprara uma loja em St. Louis e acomodara-se na inteno de ser um comerciante. Eleanor tinha vagas lembranas envolvendo uma sala de teto muito alto, piso de cimento e mercadorias empilhadas junto s paredes.
Mas depois da morte de Emmeline, Nathan no fora capaz de manter-se no mesmo lugar e voltara  antiga profisso. Levara a filha para o oeste e os dois haviam viajado de uma cidade para a outra, passando pouco tempo em cada uma delas, at ele decidir que era hora de levar a sorte e o talento com as' cartas para outro lugar. No havia sido uma formao conveniente, e Eleanor sabia que a maioria das pessoas o criticava por arrastar uma criana por todos os cantos do pas. Mas ela mesma jamais se queixara. No reclamava do cansao provocado pelas longas jornadas, desde que pudesse ficar com o pai.
Seis anos haviam se passado desde que Nathan morrera, em conseqncia de uma bala perdida numa disputa entre dois caubis num saloon, e ela ainda sentia falta dele. Lembrar o sorriso doce e a gargalhada franca do pai ainda faziam brotar lgrimas sofridas em seus olhos. Raramente ouvia risos na casa de tio Zebediah. Quando chegara a essa casa, rf e quase paralisada pela dor da perda, uma das primeiras coisas que havia notado fora a raridade dos sorrisos oferecidos pelos tios.
A princpio imaginara que a tristeza do lugar fosse devida aos sentimentos de perda pela morte de seu pai, mas depois descobrira que Zebediah nunca aprovara o comportamento de Nathan. Para ele, o jogo era um pecado dos mais graves, e o fato de seu pai ter sido morto numa briga de bar era a prova de que Deus sempre pune os pecadores, mesmo que leve mais tempo do que Zeb teria gostado.
Teria ficado ofendida com as coisas que ouvia sobre o pai nessa casa, se no houvesse compreendido que Zebediah e Dorinda desaprovavam quase tudo. Enquanto Nathan estava sempre pronto a descobrir alegria nas mnimas coisas, seu irmo mais novo e a esposa pareciam tentar justamente o contrrio.
Anabel sorria e ria, mas os sorrisos eram ensaiados diante do espelho e, quando ria, geralmente era s custas de algum. Os pais a protegiam de tudo e de todos, e a mimavam tanto que a estragavam alm do reparvel. Anabel s precisava demonstrar interesse por alguma coisa para que eles corressem a atend-la, fosse o presente uma nova fita vermelha para os cabelos dourados ou lies de pintura onde pudesse expressar sua refinada sensibilidade para as coisas mais finas da vida.
Por isso era uma pessoa to egosta.
Anabel era uma garota de dez anos quando Eleanor mudara-se para sua casa, mas j sabia como conseguir tudo o que queria. Ao saber que teria de dividir o amplo e ensolarado quarto com a prima, ela ficara vermelha e havia comeado a gritar e bater os ps.
Aturdida com as recentes mudanas em sua vida, Eleanor havia esperado em vo que o pai ou a me daquela menina mimada e egosta a esbofeteasse para interromper seu acesso histrico. Em vez disso, os olhos azuis de Dorinda encheram-se de lgrimas e ela prometera que a "preciosa da mame" no teria de dividir seu lindo quarto com ningum. Afinal, dissera o marido, sem importar-se com a presena da sobrinha, no sabiam que tipo de comportamento podiam esperar de uma criana criada em saloons. Melhor no correrem o risco de expor a sensibilidade de Ana-bel a ms influncias.
Eleanor podia ter dito que jamais havia posto os ps num saloon e que tinha melhores maneiras que a prima, mas no considerara o esforo vlido. Na verdade, gostara da privacidade oferecida pelo pequeno quarto nos fundos da casa, o quarto da empregada, como Anabel confidenciara com um sorriso debochado na primeira vez em que ficaram sozinhas. Quanto mais conhecia a prima, mais Eleanor gostava do pequeno dormitrio.
Assim que chegara, a tia tratara de preveni-la sobre a necessidade de aprender algumas coisas sobre como viver de maneira apropriada. Criada como fora, sem dvida adquirira maus hbitos que no seriam tolerados na residncia dos Williams. Seis anos mais tarde, Eleanor ainda no sabia a que hbitos ela havia se referido, mas tinha certeza de que aquela famlia estava longe de viver de maneira apropriada. Zebediah e Dorinda eram pessoas mesquinhas e contidas que jamais haviam obtido qualquer prazer na vida.
Eleanor suspirou novamente e apoiou o queixo nas mos. Podia ir embora,  claro, mas no tinha dinheiro nem meios de sobrevivncia. Embora o pai houvesse feito de tudo para proteg-la contra as realidades mais srdidas da vida, havia visto o suficiente para saber quantas dificuldades o mundo podia impor a uma mulher sozinha.
Talvez conseguisse um emprego de professora numa rea afastada. Ou podia se casar com Andrew Webb e tornar-se uma espcie de me substituta para seus quatro filhos pequenos. Podia ter sorte pior. Andrew era agradvel e, por ser proprietrio da maior loja da cidade, considerado um bom partido, especialmente pelas jovens sem grande beleza ou maiores expectativas, como apontara tia Dorinda, ao ser informada sobre o interesse do comerciante por sua sobrinha. No  como se Eleanor pudesse escolher entre muitos, afinal. No como nossa querida Anabel.
Tia Dorinda estava certa. Devia encorajar o interesse do sr. Webb. Mas era que... O pensamento perdeu-se quando uma nuvem cobriu a lua cheia. Uma brisa leve soprou atravs da janela, trazendo com ela um frio que penetrou pelo tecido leve da camisola. Estremecendo, Eleanor levantou-se do ba onde esti-vera sentada e fechou a janela.
No passava de uma tola romntica, disse a si mesma, ao deitar-se na cama estreita e puxar as cobertas at o pescoo. Ainda se agarrava  idia infantil de que um cavaleiro encantado entraria em sua vida galopando num cavalo branco e cairia imediatamente sob o encanto de seu discutvel charme.
J era hora de esquecer essa tolice. Tinha vinte anos! A menos que quisesse confirmar a opinio da prima Anabel e acabar solteirona, tinha de esquecer o belo cavaleiro e casar-se com um homem bom e responsvel, com quem pudesse construir um futuro sobre bases slidas e seguras.
A imagem do rosto magro e plido de Andrew Webb invadiu sua mente, minando sua determinao. No sabia exatamente que tipo de intimidades um casamento exigia, mas, quaisquer que fossem, era difcil pensar em partilh-las com o sr. Webb. Entretanto, sua primeira esposa devia ter sido de opinio diferente, ou no teriam tido quatro filhos antes dela ter cado vtima da tuberculose.
A deciso estava tomada. No dia seguinte, todos iriam  igreja para o ofcio dominical, e ela certamente encontraria o sr. Webb. Quando o visse, trataria de demonstrar que suas atenes eram bem-vindas. Se no estivesse enganada a respeito da intensidade de seus sentimentos, poderia transformar-se na sra. Webb antes do fim do vero.
Eleanor limpou uma lgrima com a ponta do lenol. Era a atitude mais sensata e madura que podia tomar. Se no era o conto de fadas romntico de seus sonhos de criana, certamente seria melhor que passar o resto da vida trabalhando de graa para tia Dorinda.
Fechando os olhos, Eleanor engoliu as lgrimas que ameaavam rolar por seu rosto. Apesar das emoes conflitantes, logo adormeceu. Em sonhos, viu um homem moreno de sorriso radiante, que a fazia montar na garupa de seu cavalo e a levava para um castelo que se erguia imponente no meio... da plancie!

CAPTULO II

A ltima vez em que os irmos McLain foram vistos na igreja havia sido trs anos antes, quando a me fora enterrada ao lado do pai. Portanto, a chegada dos dois naquela bela manh de primavera criou uma onda de comentrios e especulaes em torno do que causara esse sbito ataque de piedade.
O falatrio estava bem adiantado quando a famlia de Eleanor chegou. Zebediah costumava fazer questo de pontualidade, mas esta manh Anabel perdera uma determinada fita para os cabelos, e todos foram forados a lanar-se na busca frentica. Embora o adereo houvesse sido encontrado na caixa sobre sua cmoda, onde costumavam ficar todas as fitas, a culpa pelo atraso acabara recaindo sobre Eleanor, que fora isolada durante todo o trajeto at a igreja numa espcie de casulo silencioso. Melhor assim. Pelo menos podia aproveitar para rever a deciso que havia tomado na noite anterior.
Tentara encontrar alguma falha no plano, mas fora intil. Andrew Webb era um homem respeitvel, generoso, e s uma tola recusaria sua proposta.
Assim, quando o sr. Webb aproximou-se para cumprimentar sua famlia, Eleanor tentou demonstrar que a perspectiva de unir-se a um homem com mos frias e suadas e pai de quatro filhos a enchia com algo mais que pavor.
Mas os sussurros que pairavam na igreja cheia afastaram temporariamente os pensamentos a respeito de Andrew Webb. E claro que, mesmo sem os comentrios abafados, Eleanor teria notado os McLain. Estavam sentados no primeiro banco, lado a lado. Ombros largos sob jaquetas pretas, cabelos negros longos demais para garantir uma certa respeitabilidade... mesmo de costas, atraam todos os olhares femininos.
Embora estivesse presente a todos os ofcios nos ltimos seis anos, de repente era como se a catedral fosse menor, como se os dois irmos preenchessem todos os espaos.
O sermo do reverendo Sean Mulligan no conseguiu cativar a ateno dos ouvintes, e sabia disso porque ela prpria no teria sido capaz de repetir uma palavra do que o religioso dissera. Quando o ofcio chegou ao fim, ficou evidente que todos estavam mais preocupados com coisas mais mundanas e imediatas que os assuntos divinos.
Normalmente as pessoas permaneciam na frente da igreja, trocando cumprimentos e comentando o sermo do padre. Mas nesse domingo havia apenas um assunto entre as paroquianas: o que trouxera os McLain  missa depois de tanto tempo. Apesar dos homens fingirem estar acima de tais especulaes, todos os olhos voltavam-se para o local onde os dois irmos conversavam com o Reverendo Mulligan.
Cora Danvers sugeriu que eles haviam decidido arrepender-se de seus pecados diante de Deus, mas nenhum dos dois parecia arrependido de qualquer coisa. Havia muita confiana na maneira como se moviam, muita arrogncia em cada gesto ou atitude.
Talvez estivessem solitrios, Millie Peters opinou. Afinal, eram rfos, sozinhos no mundo, sem nenhuma famlia. Millie parecia disposta a tom-los sob sua proteo, mas os McLain no pareciam precisar da proteo de ningum.
Nunca vira Luke ou Daniel, mas, como quase todas as pessoas em Black Dog, Eleanor sabia quem eram. Possuam o maior rancho da regio, um rancho que o pai havia comeado e eles continuaram construindo depois de sua morte. Seus empregados garantiam a metade dos negcios da cidade, e sabia que a loja do sr. Webb dependia em grande parte das encomendas do Bar-M-Bar.
Mas no estava pensando em Andrew Webb quando viu os dois irmos conversando com o Reverendo Mul-ligan. Embora houvesse uma grande semelhana entre eles, foi o mais alto dos dois que chamou sua ateno. Parecia perigoso. Queixo forte, nariz reto, cabelos negros roando na gola da jaqueta de corte conservador... Havia algo de indomado nesse homem. E a arma que repousava sobre seu quadril confirmava a impresso. No que fosse o nico homem armado na igreja; afinal, essa ainda era uma terra selvagem, e muitos homens preferiam a segurana de seus revlveres. No era a presena da arma, mas a facilidade com que a portava que a assustava.
Como se sentisse sua ateno, ele virou-se de repente e os olhos encontraram-se por sobre a multido. Estavam muito afastados para que pudesse ver a cor de seus olhos, mas sentiu o impacto daquele olhar at o fundo da alma. Sabia que devia baixar a cabea, que uma mulher de respeito no sustentava o olhar de um homem, especialmente de um desconhecido, mas no conseguia desviar os olhos.
 Pare de encarar como uma danarina de cabar. Pelo menos finja que  uma dama  Dorinda sussurrou em seu ouvido. Eleanor pulou ao sentir o belisco no brao e abaixou a cabea, tentando esconder as lgrimas de dor e vergonha. Pelo canto do olho, viu o sorriso satisfeito de Anabel e teve de conter-se para no esbofetear o rosto rosado e perfeito.O que tenho em mente  uma mulher dcil que no faa muitas exigncias  Luke estava dizendo.
	Vivo ocupado demais com o trabalho no rancho, e no quero uma esposa que espere ateno integral e constante.
Sean Mulligan conhecia Luke e Daniel desde que a famlia se mudara para Black Dog depois da guerra. Havia sido amigo do pai deles, e sempre pensava que Robert McLain ficaria orgulhoso se pudesse ver como os filhos mantinham o rancho mesmo depois de sua morte, realizando seu sonho. Ficara satisfeito ao v-los na igreja essa manh, mas a satisfao transformara-se em desnimo quando Luke havia comeado a revelar seu plano de encontrar uma esposa.
	No quero perder muito tempo  ele dizia agora.  A primavera  uma poca de muito trabalho no rancho.
	Encontrar uma esposa no  como comprar um cavalo, Luke  Sean protestou.
	Comprar um cavalo  muito mais fcil  Daniel opinou com uma careta.  Basta verificar a linhagem, examinar os dentes, lev-lo para uma cavalgada e j temos o suficiente para saber se a compra  um bom negcio. Pena no podermos fazer o mesmo com as mulheres.
	E isso mesmo, no pode escolher uma mulher como se fosse uma mercadoria  o religioso indicou com severidade, limpando as gotas de suor em sua testa. O sol ameno de primavera parecia subitamente abrasador.
	No pode ser to difcil, Sean  Luke comentou com impacincia.  As pessoas se casam o tempo todo.
	Sim, mas geralmente esperam algum tempo at se conhecerem. Namoram, entende? Um homem no pode simplesmente escolher uma esposa como... como...
	Como se escolhesse um cavalo?  Daniel tentou ajudar.
	Exatamente.
	No tenho tempo para namorar, e podemos esperar para nos conhecermos depois do casamento. Desde que ela no tenha o temperamento de um vulco e o rosto de uma bruxa, tenho certeza de que nos daremos bem. Preciso de uma esposa, no de uma grande amiga.
	Mas...  Sean gaguejou, limpando a testa com um leno. Como explicar a impossibilidade do que Luke pretendia?
	Deve haver um punhado de mulheres solteiras nessa cidade  Luke insistiu, examinando a multido sem importar-se com o interesse que conquistava em retorno.
	 verdade  o reverendo admitiu cauteloso.
	Que tal a ruiva no vestido azul?
	Dorcus CHara  o padre respondeu, seguindp a direo de seus olhos. Sentindo que era alvo da ateno do desconhecido, a jovem ergueu a cabea.  No acredito que ela seja o que tem em mente, meu filho. Dorcus  um pouco... agitada.
	Explosiva, voc quer dizer?  Daniel interferiu.
	Bem, sim  Sean suspirou.
	E quanto  pequena de cabelos castanhos? Aquela usando um vestido azul e o chapu horroroso?
	Eleanor Williams.  Os olhos do religioso dobraram de tamanho, tal seu espanto.
	Ela tem algum compromisso?
	No que eu saiba.
	No  de se estranhar  Daniel comentou com uma careta.  E a outra, a jovem de vestido amarelo ao lado dela?
	Aquela  Anabel, prima de Eleanor.
	No gosto dela  Luke protestou.  Talvez porque me faa lembrar aquela mula que tivemos em Virgnia. Ela tentava morder tudo que estivesse ao seu alcance.
Sean conteve a vontade de rir ao imaginar a reao de Anabel. Se soubesse que acabara de ser comparada a uma mula temperamental...
	Por que no me apresenta a algumas possibilidades?  Luke pediu ao amigo de seu pai.
Eleanor percebeu que o Reverendo Mulligan comeava a apresentar os McLain aos paroquianos.
	Esperava encontr-la hoje, srta. Williams.  Andrew Webb surgiu diante de seus olhos, impedindo-a de acompanhar a movimentao do trio.
	Sr. Webb  Eleanor cumprimentou-o, contendo o mpeto de erguer-se na ponta dos ps para localizar os dois irmos. Ou melhor, o mais alto deles. E o mais belo...
	Est encantadora hoje, senhorita, se me permite dizer.  Andrew ficou vermelho com o prprio galanteio.
	Obrigada, sr. Webb.  Sabia que o elogio era mentiroso. O vestido azul que usava havia sido reformado a partir de um velho traje de Anabel, e nem a cor nem o estilo a favoreciam. Sem falar no horrvel chapu que tia Dorinda comprara para ela na semana anterior. A aba curvava-se sob o peso das flores e laos, e ela sentia-se uma espcie de cogumelo gigante e extravagante.
	Sabia que esse chapu ficaria lindo em voc.
	O chapu?  ela repetiu, levando a mo ao terrvel adereo.  Tia Dorinda o comprou em sua loja?
	Sim  ele sorriu satisfeito.  Pensei em voc assim que o vi.
	Pensou?
	Sim, e  bom saber que gostou dele.
	Eu... adorei.  Era o nico chapu que possua, e o estado lamentvel da boina do ano anterior a obrigara a usar o presente de tia Dorinda. Ningum ia  igreja sem cobrir a cabea.
	Sempre achei impressionante como podemos nos sentir prximos de algum com quem partilhamos gostos e preferncias, mesmo as referentes a coisas to pouco importantes como moda e vesturio  Andrew comentou, os olhos claros fixos em seu rosto.
Eleanor fitou-o e tentou pensar numa resposta apropriada. Devia admitir que odiava o chapu em questo? Se o fizesse, estaria enterrando de vez as esperanas de um dia se casar? Felizmente, a chegada do reverendo os interrompeu, livrando-a da obrigao de responder.
	Zeb, quero que conhea alguns amigos meus. Esses so Luke McLain e seu irmo, Daniel. Sr. e sra. Williams.
Andrew Webb foi imediatamente esquecido. Eleanor sentiu o corao bater mais depressa ao ouvir o nome do homem que atrara seu olhar durante todo o ofcio. Luke McLain.
	J nos conhecemos  Zebediah disse, ao apertar as mos dos dois.  s vezes nos encontramos no banco. No os vejo h algum tempo. Como atravessaram o inverno? Perderam muitas cabeas de gado?  Parecia disposto a entregar-se a uma longa discusso sobre os lucros e prejuzos dos rancheiros da regio, mas uma cotovelada da esposa o fez lembrar suas obrigaes.  Oh, desculpem-me! Essa  Dorinda. E minha filha, Anabel.  O orgulho era evidente em sua voz.
	Srta. Williams  Luke sorriu para a jovem, levando Eleanor ao desespero. Sem dvida estava fascinado pela beleza plida de sua prima, como todos os outros homens da regio.
	Senhores  Anabel respondeu com propriedade, sorrindo de maneira a exibir as covinhas perfeitas.   um prazer conhec-los.
	O prazer  todo meu.
Eleanor sentiu-se estranhamente feliz ao constatar que era Daniel quem dava essa resposta  sua prima, e no Luke.
	No os vemos na igreja h muito tempo  Anabel comentou com um sorriso sedutor.
	 verdade  Luke respondeu.
	Espero que tenham a inteno de vir mais vezes.
	Anabel, o sr. McLain vai pensar que est sendo audaciosa.  A voz da me era doce demais para que se pudesse chamar a interferncia de censura.
	S estava pensando na importncia de se cuidar da imortalidade da alma, mame.
	Boa menina  o Reverendo Mulligan elogiou-a.
	Essa jovem tambm  sua "filha? - Luke perguntou, virando-se para Eleanor.
	 filha de meu irmo  Zeb respondeu com tom seco.  Ns a assumimos quando ele morreu, h alguns anos.
Houve um estranho silncio e Eleanor sentiu o rosto vermelho. Zebediah no podia ter sido mais claro a respeito do incmodo que a moa representava em sua casa, e ela de repente sentia vontade de chorar.
	Eleanor, esse  Luke McLain. E seu irmo Daniel  o religioso apresentou.
	 um prazer conhec-la, srta. Williams.
Ela ergueu a cabea ao ouvir a voz de Luke e sentiu-se ainda mais envolvida que antes. Seus olhos eram cinzentos como um lago sob um cu tempestuoso, e pareciam partculas de ao polido, em contraste com a pele bronzeada.
	Sr. McLain.  A resposta sussurrada foi tudo que pde dizer. O corao batia to depressa, que temia gaguejar ao pronunciar as palavras.
	Vive em Black Dog h muito tempo, srta. Williams?  ele perguntou depois de cumprimentar An-drew Webb.
	Seis anos, quatro meses e doze dias.  A resposta rpida e automtica atraiu a ateno de todos. Estivera contando os dias como uma prisioneira que espera o fim da sentena, mas no pretendia revelar tanto, especialmente a Luke McLain.
Anabel riu.
	No devia provocar o sr. McLain, Eleanor. Ora, fala como se no fosse feliz conosco.
	No foi o que quis dizer.  Sabia que teria de ouvir o sermo de tia Dorinda mais tarde, e no queria nem imaginar que tipo de opinio esse homem formaria a seu respeito.
O momento de estranheza foi interrompido pela chegada de Letty Sinclair. Letty era sua melhor amiga, e normalmente a teria recebido com alegria, mas hoje sua presena a incomodava. J estava aborrecida o bastante com a beleza dourada e suave de Anabel, e no precisava do exotismo moreno da amiga para aumentar a sensao de inadequao.
O Reverendo Mulligan fez as apresentaes e Eleanor manteve-se em silncio, certa de que Luke seria arrebatado pelos olhos e cabelos escuros da amiga. Ali tem sangue italiano, escreva o que digo, tia Dorinda havia comentado com tom sombrio, logo que Letty mudara-se para Black Dog. Mas, com ou sem sangue italiano, a invejvel condio financeira de Letty havia assegurado seu lugar na pequena sociedade, e pouco depois seu encanto e generosidade confirmaram essa posio.
Melhor que Luke se encantasse com Letty do que com Anabel. Pensando bem, qualquer uma era melhor que Anabel. Quando as apresentaes foram concludas, Eleanor j podia at visualizar o casamento e ela mesma, uma dama de honra magoada e triste, porm nobre.
	 um prazer conhec-la, srta. Sinclair  Luke dizia com educao, sem demonstrar nenhum interesse especial.
	Sra. Sinclair  Letty corrigiu com um sorriso radiante.  Sou viva h trs anos.
	Deve ter se casado muito jovem  Daniel apontou com evidente admirao.
	Vou interpretar seu comentrio como um elogio, sr. McLain.
	Mas  o que !
Um olhar para Dorinda Williams foi suficiente para perceber que ela no estava nada satisfeita com a presena da jovem viva. A idia de ver a beleza da filha sobrepujada pela de outra mulher era o bastante para enfurec-la, e o charme de Letty era to natural quanto respirar.
Logo o Reverendo Mulligan afastou-se com os dois irmos, e trs amigas de Dorinda aproximaram-se para saber tudo a respeito do que fora dito.
	Os rapazes so encantadores  ela ofereceu.
	O que eles disseram?  Millie Peters perguntou.
	Apenas trocamos alguns cumprimentos  Dorinda respondeu, fingindo no gostar de ser o centro das atenes.
Letty e Eleanor trocaram um olhar divertido.
	Por que o Reverendo Mulligan os trouxe at aqui?  Cora Danvers adiantou-se com a indelicadeza que a caracterizava. Se no fosse esposa do dono de metade do banco da cidade, certamente no teria uma nica amiga.
	Tenho certeza de que os McLain queriam conhecer minha Anabel. No  compreensvel que tenham decidido assumir seus lugares em nossa sociedade? Naturalmente esto interessados em encontrar esposas, e minha Anabel  a jovem mais linda da cidade.  claro que sua Mary poderia competir com ela em termos de beleza... se no houvesse fugido com aquele comerciante no outono passado.
Cora ficou vermelha e Eleanor teve de admirar a habilidade da tia em atingir o ponto mais vulnervel das pessoas. Todos sabiam que Mary havia fugido com um vendedor de corpetes, mas ningum teria se atrevido a mencionar o incidente com tanta franqueza. Como Zebediah possua a outra metade do banco, Dorinda sentia-se segura para atacar Cora Danvers frontalmente.
	Anabel  uma linda menina  Millie Peters ofereceu.  No seria surpreendente se um dos McLain decidisse cortej-la.
	No me surpreenderia nem se os dois a disputassem  Dorinda respondeu, sem nenhuma modstia.
Eleanor viu Anabel sorrir com orgulho e rangeu os dentes. A idia de ver aquela menina mimada e odiosa pendurada no brao de Luke era suficiente para faz-la sentir vontade de furar seus olhos!

CAPTULO I

No h como evitar, Luke. Precisamos de uma esposa. O tom de Daniel McLain era implacvel, conveniente  natureza sria do pronunciamento.
	Deve haver outra maneira.  A expresso de Luke era ainda mais sombria que a do irmo.
	No que eu possa ver.  Daniel serviu uma dose generosa de usque em seu copo e repetiu o gesto no de Luke.  Trabalhamos muito nesse lugar. Se algo acontecer conosco, o rancho ser vendido a algum estranho. E nenhum de ns vai querer que isso acontea.
Luke podia apontar que, nas atuais circunstncias, acabariam realmente vendo o rancho cair em mos estranhas, mas no o fez. A lgica de Daniel podia ser um tanto quanto crua, mas havia uma certa verdade no que dizia.
	Um filho.  disso que precisamos, Luke. Um de ns ter de produzir um herdeiro para assumir nosso lugar quando partirmos.
	Ei, no estamos com o p na cova!  Luke protestou, aborrecido. Aos trinta anos, ainda no se considerava prximo da eternidade. Temos muito tempo para pensarmos em esposas e filhos e em quem assumir nosso lugar quando no estivermos mais aqui.
	Talvez. Mas Heck Sloane era mais jovem que ns e Bill Parley ainda no havia completado trinta e cinco anos. E olhe s para eles agora.
Na verdade, nenhum dos dois poderia realmente olhar para os homens mencionados, pois ambos haviam encontrado a morte nos ltimos seis meses.
	Heck foi um idiota ao aceitar aquele duelo. Com aquele inseparvel Colt de cabo de madreprola, ele s queria mesmo era uma boa desculpa para morrer jovem.
	Bill no tinha nenhum Colt de cabo de madreprola  Daniel apontou com propriedade. Estava no terceiro copo de usque, e j sentia o peso da mo do destino sobre os ombros.
	No, mas tinha o maior e mais indcil cavalo desse lado de Julesburg.  de se espantar que ele no tenha jogado Bill contra uma parede h muitos anos.
	Podia ter acontecido com qualquer um de ns  Daniel insistiu, voltando  garrafa de usque.
	No, a menos que sejamos estpidos o bastante para montar num animal que se nega a aceitar qualquer tipo de comando  Luke protestou, embora com pouca convico.
O fato era que um homem no precisava montar um cavalo selvagem ou enfrentar um pistoleiro habilidoso e frio para morrer, e os dois sabiam disso. At mesmo um animal dcil e domesticado podia pisar num buraco ou assustar-se com uma cobra. Ou ser picado por ela... Um homem sozinho na plancie, sem um cavalo e longe de casa, tinha grandes chances de morrer de sede ou insolao. No precisava nem pensar em algo to dramtico para aceitar a possibilidade do fim de uma vida. O prprio pai, um homem duro como jamais conhecera, ferira a mo num prego e havia morrido uma semana mais tarde, de ttano.
Luke franziu a testa e cravou os olhos na superfcie arranhada da mesa da cozinha. Em silncio, enrolou um cigarro e riscou um fsforo na madeira envelhecida da mesa. Se a me fosse viva, ela o castigaria duramente por ter riscado a superfcie de sua mesa to limpa, e mais uma vez por ter se atrevido a fumar em sua cozinha. Mas ela morrera trs anos atrs, e o aposento outrora impecvel ostentava sinais evidentes de negligncia.
O grande fogo de ferro estava coberto por uma grossa camada de gordura, restos de comida e fuligem. As cortinas que um dia haviam sido brancas e cheirosas hoje eram imundas, e a janela coberta por elas no era lavada h trs anos. O piso de madeira de que a me tanto se orgulhara tambm estava coberto pela mesma camada de sujeira que podia ser vista sobre todas as coisas.
Luke moveu-se e, inquieto, passou o polegar sobre a marca deixada pelo fsforo. O ato de apag-la deixou uma ndoa mais clara e limpa sobre a mesa. Podia quase ver os olhos da me, sentir sua desaprovao. Embora toda a casa coubesse no salo de bailes da casa do pai em Virginia, Lucinda McLain sempre se orgulhara de seu lar, do trabalho que o marido e os filhos haviam investido para constru-lo.
Os McLain podiam ter perdido quase todos os bens materiais na Guerra Entre os Estados, mas no haviam perdido as coisas mais importantes: o orgulho e a determinao. No final da guerra haviam vendido o que restara, abandonado ou empacotado o que no conseguiram vender e mudaram-se para o oeste, perseguindo o sonho de uma nova vida, como metade do pas fizera naquele tempo.
A princpio viveram ao relento, literalmente construindo um lar a partir da terra que os cercava.
Ele e Daniel domaram cavalos selvagens para vender ao exrcito e usaram o dinheiro para comprar gado. Os primeiros anos haviam sido difceis. Os quatro trabalharam do nascer ao por-do-sol, at no poderem mais.
Antes da guerra, Lucinda McLain jamais tivera de sujar as mos em qualquer coisa que ultrapassasse as portas de sua casa, e mesmo l tivera criados para auxili-la. Mas aprendera a usar um martelo e orde-nhar uma vaca. As mos haviam se tornado calejadas e a pele, antes to plida, fora queimada pelo sol abra-sador, mas ela nunca esquecera o fato de ser uma dama, e jamais permitira que os filhos esquecessem que eram cavalheiros. Podiam comer po velho e feijo aguado, mas havia sempre uma toalha de linho sobre a mesa, mesmo que fosse apenas uma tbua amparada sobre duas estacas. Por maior que fosse sua carga de trabalho ao ar livre, fazia questo de assegurar que o marido e os filhos vestissem sempre roupas limpas, mesmo que remendadas.
Luke retirou uma folha de rvore do joelho da cala jeans e tentou lembrar quando ela havia sido lavada pela ltima vez.
	Pensando em mame?  Daniel perguntou, com a habitual perspiccia.
	Esse lugar  to diferente de quando ela ainda vivia...
Daniel seguiu os olhos do irmo pela cozinha, notando a sujeira que cobria todas as superfcies expostas. O resto da casa estava em melhor forma, mas s porque no passavam muito tempo nos outros aposentos.
	Ela nos arrancaria as orelhas  Daniel admitiu com tom culpado, baixando a cabea como se esperasse ouvir a voz severa da me.
	Podemos contratar uma governanta  Luke sugeriu.
	J tentamos duas. A primeira bebeu todo o lcool que tnhamos em casa e quase botou fogo em tudo. A segunda estava mais interessada em encontrar um marido do que em preparar uma refeio.
	Se no estou enganado, voc era o marido em questo. Se fosse um pouco mais lento, ela o teria agarrado.  Luke riu ao recordar a reao apavorada do irmo diante da perseguio obstinada da criada.
	No achou to engraado quando ela se virou para voc  Daniel observou.  Alm do mais, uma governanta no resolver o problema de termos um herdeiro para legar o rancho.
	Gostaria que deixasse de falar como se estivssemos s portas da morte  Luke irritou-se.
	No somos mais crianas, e ter um filho no  como encomendar uma sela nova. Pode levar algum tempo.
	Nove meses, pelo que ouvi dizer.  luke apagou o cigarro num prato com as sobras do caf da manh. Ou seria do jantar da noite anterior?
	Primeiro  necessrio encontrar uma esposa. E depois  preciso se dedicar  criao do beb. Dick Billings e a esposa levaram quase cinco anos para conseguir o primeiro filho.
	Se eu tivesse uma mulher como Almira Billings, no me importaria de passar cinco anos tentando. Alm do mais, toda essa prtica deve ter tido alguma recompensa, j que esto trabalhando no terceiro h seis anos.
	Ento, tudo que temos de fazer  encontrar uma bela garota para voc  Daniel entusiasmou-se.
Luke engasgou-se com o usque.
	Encontrar uma garota para mim? Desde quando estou procurando uma esposa?
	Pensei que houvesse concordado com o que eu disse sobre precisarmos de uma esposa  Daniel devolveu, com olhos cheios de surpresa.
	Se ns precisamos de uma esposa, porque eu tenho de encontr-la?
	Voc  o mais velho. E de se esperar que seja o primeiro a dar um passo to srio.
	No concordo com isso. Voc  o mais novo, e ainda no tem hbitos to arraigados.
	Sou apenas trs anos mais novo. Alm do mais, no quero me casar.
	Tambm no quero me casar  Luke argumentou.
O silncio prolongou-se enquanto os dois consideravam o problema. L fora, um grilo parecia lamentar-se, enquanto o som era tragado pela vastido da terra.
	Podemos fazer um sorteio  Daniel sugeriu.  Quem tirar a menor palha ter de encontrar uma esposa.
	No sei...  Luke hesitou. No era a soluo ideal. Por outro lado, a nica resposta ideal para essa questo era esquec-la, mas sabia que Daniel estava certo. Precisavam de uma esposa. E como nenhum dos dois queria uma esposa, era justo deixar que a sorte decidisse qual deles teria de sacrificar-se no altar matrimonial.
Em silncio, levantou-se e aproximou-se da vassoura que algum deixara apoiada num canto. Uma fina rede de teias de aranha a unia  parede, e o cabo grudou em seus dedos quando a tocou. Franzindo a testa, ergueu-a e quebrou duas palhas do chumao empoeirado. Daniel o viu medir as duas palhas e quebrar uma delas ao meio. No havia dvida sobre quem ficaria com a menor.
	Tem certeza de que quer tentar?  Luke perguntou.
	Sim, tenho certeza.
Sem olhar para as mos, Luke rolou as palhas entre os dedos e fechou a mo.
	Voc primeiro.
Os dois olharam para baixo. As pontas das duas palhas eram visveis sobre o polegar bronzeado. Uma delas era mais alta que a outra, mas no havia como saber qual era realmente a menor alm dos limites da mo que as escondia. Daniel estudou-as atentamente, como se a prpria vida dependesse disso, o que, Luke imaginava, era quase a pura verdade. De repente, adiantou-se um passo e escolheu uma das palhas, justamente a que exibia a menor poro para fora da mo que as segurava.
Houve um momento de silncio, e em seguida Daniel emitiu um longo e aliviado suspiro. Com o rosto inexpressivo, Luke foi abrindo a mo lentamente e olhou para o pequeno pedao de palha que descansava entre seus dedos.
Maldio! Agora teria de encontrar uma esposa!
Eleanor Williams apoiou os cotovelos no parapeito da janela e olhou para a grande lua amarela. Redonda, ela pairava no cu pontilhado de estrelas como uma matrona gorda rodeada por criadas  sua disposio. Mas Eleanor mal reparava na beleza da viso.
Hoje havia sido seu aniversrio. Completara vinte anos de idade e, de acordo com sua prima Anabel, j podia considerar-se uma velha solteirona. O comentrio rspido havia sido a nica referncia  data, e Anabel s o fizera para no perder a oportunidade de ser desagradvel. Infelizmente, nesse caso, sua rispidez era apenas o retrato da realidade. Era mesmo uma velha solteirona, Eleanor admitiu com um suspiro. E provavelmente morreria assim, j que vivia  sombra da prima mais jovem.
Anabel tinha apenas dezesseis anos e j se preparava para tornar-se uma mulher casada antes do prximo aniversrio. E como poderia ser diferente, sendo ela to linda?
Diferente dos cabelos lisos e dourados de Anabel, Eleanor possua cachos que chegavam  cintura e recusavam-se a aceitar qualquer tipo de ordem. Mesmo agora, quando acabara de tran-los para ir dormir, pequenos caracis j haviam conquistado a liberdade e repousavam sobre sua testa. Em vez do tom dourado que Anabel exibia orgulhosa, Eleanor era obrigada a contentar-se com um castanho escuro e sem graa, cor de sujeira, como havia dito sua prima quando, seis anos antes, viera morar com ela e a tia.
Como se no bastassem os cabelos dourados e lisos que a tornavam semelhante a uma boneca delicada, Anabel possua lindos olhos azuis que despertavam a inspirao dos apaixonados mais romnticos. Por outro lado, quem faria poesias para olhos castanhos e comuns como os dela? E Anabel era alta. No muito, como tia Dorinda teria apontado apressada, mas o suficiente para destacar a elegncia de sua figura esguia.
Graas a Deus sua Anabel no era aquela coisa esquisita, ouvira tia Dorinda dizer certa vez, depois de lanar um olhar significativo em sua direo. Com pouco mais de um metro e sessenta e uma figura que no era nem elegante nem esguia, Eleanor no pudera sequer atribuir o comentrio  lngua ferina da tia. Era mesmo uma coisa esquisita, e no havia como fechar os olhos para a realidade.
Corujinha. Era assim que o pai costumava cham-la. Todas as noites ele ia visit-la em seu quarto onde quer que estivessem hospedados e pedia sua opinio a respeito das roupas e do cabelo. Havia sempre um pequeno ajuste a ser feito pelos dedos infantis. Uma gravata torta, uma mecha mais rebelde, um boto frouxo a ser repregado no impecvel tecido branco.
A lembrana a fez sorrir. Somente depois da morte do pai percebera que esses pequenos defeitos eram propositais. Nathan Williams compreendera que a filha precisava sentir-se til e necessria. Se tivessem uma casa de verdade, poderia ter cuidado da arrumao, da limpeza e da cozinha. Mas Nathan era um jogador inveterado, e raramente passavam mais que algumas poucas semanas no mesmo lugar. Como nunca pudera dar a ela uma casa para arrumar, oferecera-se como uma espcie de prmio de consolao.
Sua me havia morrido quando ela tinha seis anos de idade, e durante os oito anos seguintes Eleanor viajara com o pai. Nathan comeara a jogar nos barcos do Mississipi, antes da guerra. Por ocasio do casamento com Emmeline St. Jacques, comprara uma loja em St. Louis e acomodara-se na inteno de ser um comerciante. Eleanor tinha vagas lembranas envolvendo uma sala de teto muito alto, piso de cimento e mercadorias empilhadas junto s paredes.
Mas depois da morte de Emmeline, Nathan no fora capaz de manter-se no mesmo lugar e voltara  antiga profisso. Levara a filha para o oeste e os dois haviam viajado de uma cidade para a outra, passando pouco tempo em cada uma delas, at ele decidir que era hora de levar a sorte e o talento com as' cartas para outro lugar. No havia sido uma formao conveniente, e Eleanor sabia que a maioria das pessoas o criticava por arrastar uma criana por todos os cantos do pas. Mas ela mesma jamais se queixara. No reclamava do cansao provocado pelas longas jornadas, desde que pudesse ficar com o pai.
Seis anos haviam se passado desde que Nathan morrera, em conseqncia de uma bala perdida numa disputa entre dois caubis num saloon, e ela ainda sentia falta dele. Lembrar o sorriso doce e a gargalhada franca do pai ainda faziam brotar lgrimas sofridas em seus olhos. Raramente ouvia risos na casa de tio Zebediah. Quando chegara a essa casa, rf e quase paralisada pela dor da perda, uma das primeiras coisas que havia notado fora a raridade dos sorrisos oferecidos pelos tios.
A princpio imaginara que a tristeza do lugar fosse devida aos sentimentos de perda pela morte de seu pai, mas depois descobrira que Zebediah nunca aprovara o comportamento de Nathan. Para ele, o jogo era um pecado dos mais graves, e o fato de seu pai ter sido morto numa briga de bar era a prova de que Deus sempre pune os pecadores, mesmo que leve mais tempo do que Zeb teria gostado.
Teria ficado ofendida com as coisas que ouvia sobre o pai nessa casa, se no houvesse compreendido que Zebediah e Dorinda desaprovavam quase tudo. Enquanto Nathan estava sempre pronto a descobrir alegria nas mnimas coisas, seu irmo mais novo e a esposa pareciam tentar justamente o contrrio.
Anabel sorria e ria, mas os sorrisos eram ensaiados diante do espelho e, quando ria, geralmente era s custas de algum. Os pais a protegiam de tudo e de todos, e a mimavam tanto que a estragavam alm do reparvel. Anabel s precisava demonstrar interesse por alguma coisa para que eles corressem a atend-la, fosse o presente uma nova fita vermelha para os cabelos dourados ou lies de pintura onde pudesse expressar sua refinada sensibilidade para as coisas mais finas da vida.
Por isso era uma pessoa to egosta.
Anabel era uma garota de dez anos quando Eleanor mudara-se para sua casa, mas j sabia como conseguir tudo o que queria. Ao saber que teria de dividir o amplo e ensolarado quarto com a prima, ela ficara vermelha e havia comeado a gritar e bater os ps.
Aturdida com as recentes mudanas em sua vida, Eleanor havia esperado em vo que o pai ou a me daquela menina mimada e egosta a esbofeteasse para interromper seu acesso histrico. Em vez disso, os olhos azuis de Dorinda encheram-se de lgrimas e ela prometera que a "preciosa da mame" no teria de dividir seu lindo quarto com ningum. Afinal, dissera o marido, sem importar-se com a presena da sobrinha, no sabiam que tipo de comportamento podiam esperar de uma criana criada em saloons. Melhor no correrem o risco de expor a sensibilidade de Ana-bel a ms influncias.
Eleanor podia ter dito que jamais havia posto os ps num saloon e que tinha melhores maneiras que a prima, mas no considerara o esforo vlido. Na verdade, gostara da privacidade oferecida pelo pequeno quarto nos fundos da casa, o quarto da empregada, como Anabel confidenciara com um sorriso debochado na primeira vez em que ficaram sozinhas. Quanto mais conhecia a prima, mais Eleanor gostava do pequeno dormitrio.
Assim que chegara, a tia tratara de preveni-la sobre a necessidade de aprender algumas coisas sobre como viver de maneira apropriada. Criada como fora, sem dvida adquirira maus hbitos que no seriam tolerados na residncia dos Williams. Seis anos mais tarde, Eleanor ainda no sabia a que hbitos ela havia se referido, mas tinha certeza de que aquela famlia estava longe de viver de maneira apropriada. Zebediah e Dorinda eram pessoas mesquinhas e contidas que jamais haviam obtido qualquer prazer na vida.
Eleanor suspirou novamente e apoiou o queixo nas mos. Podia ir embora,  claro, mas no tinha dinheiro nem meios de sobrevivncia. Embora o pai houvesse feito de tudo para proteg-la contra as realidades mais srdidas da vida, havia visto o suficiente para saber quantas dificuldades o mundo podia impor a uma mulher sozinha.
Talvez conseguisse um emprego de professora numa rea afastada. Ou podia se casar com Andrew Webb e tornar-se uma espcie de me substituta para seus quatro filhos pequenos. Podia ter sorte pior. Andrew era agradvel e, por ser proprietrio da maior loja da cidade, considerado um bom partido, especialmente pelas jovens sem grande beleza ou maiores expectativas, como apontara tia Dorinda, ao ser informada sobre o interesse do comerciante por sua sobrinha. No  como se Eleanor pudesse escolher entre muitos, afinal. No como nossa querida Anabel.
Tia Dorinda estava certa. Devia encorajar o interesse do sr. Webb. Mas era que... O pensamento perdeu-se quando uma nuvem cobriu a lua cheia. Uma brisa leve soprou atravs da janela, trazendo com ela um frio que penetrou pelo tecido leve da camisola. Estremecendo, Eleanor levantou-se do ba onde esti-vera sentada e fechou a janela.
No passava de uma tola romntica, disse a si mesma, ao deitar-se na cama estreita e puxar as cobertas at o pescoo. Ainda se agarrava  idia infantil de que um cavaleiro encantado entraria em sua vida galopando num cavalo branco e cairia imediatamente sob o encanto de seu discutvel charme.
J era hora de esquecer essa tolice. Tinha vinte anos! A menos que quisesse confirmar a opinio da prima Anabel e acabar solteirona, tinha de esquecer o belo cavaleiro e casar-se com um homem bom e responsvel, com quem pudesse construir um futuro sobre bases slidas e seguras.
A imagem do rosto magro e plido de Andrew Webb invadiu sua mente, minando sua determinao. No sabia exatamente que tipo de intimidades um casamento exigia, mas, quaisquer que fossem, era difcil pensar em partilh-las com o sr. Webb. Entretanto, sua primeira esposa devia ter sido de opinio diferente, ou no teriam tido quatro filhos antes dela ter cado vtima da tuberculose.
A deciso estava tomada. No dia seguinte, todos iriam  igreja para o ofcio dominical, e ela certamente encontraria o sr. Webb. Quando o visse, trataria de demonstrar que suas atenes eram bem-vindas. Se no estivesse enganada a respeito da intensidade de seus sentimentos, poderia transformar-se na sra. Webb antes do fim do vero.
Eleanor limpou uma lgrima com a ponta do lenol. Era a atitude mais sensata e madura que podia tomar. Se no era o conto de fadas romntico de seus sonhos de criana, certamente seria melhor que passar o resto da vida trabalhando de graa para tia Dorinda.
Fechando os olhos, Eleanor engoliu as lgrimas que ameaavam rolar por seu rosto. Apesar das emoes conflitantes, logo adormeceu. Em sonhos, viu um homem moreno de sorriso radiante, que a fazia montar na garupa de seu cavalo e a levava para um castelo que se erguia imponente no meio... da plancie!

CAPTULO II

A ltima vez em que os irmos McLain foram vistos na igreja havia sido trs anos antes, quando a me fora enterrada ao lado do pai. Portanto, a chegada dos dois naquela bela manh de primavera criou uma onda de comentrios e especulaes em torno do que causara esse sbito ataque de piedade.
O falatrio estava bem adiantado quando a famlia de Eleanor chegou. Zebediah costumava fazer questo de pontualidade, mas esta manh Anabel perdera uma determinada fita para os cabelos, e todos foram forados a lanar-se na busca frentica. Embora o adereo houvesse sido encontrado na caixa sobre sua cmoda, onde costumavam ficar todas as fitas, a culpa pelo atraso acabara recaindo sobre Eleanor, que fora isolada durante todo o trajeto at a igreja numa espcie de casulo silencioso. Melhor assim. Pelo menos podia aproveitar para rever a deciso que havia tomado na noite anterior.
Tentara encontrar alguma falha no plano, mas fora intil. Andrew Webb era um homem respeitvel, generoso, e s uma tola recusaria sua proposta.
Assim, quando o sr. Webb aproximou-se para cumprimentar sua famlia, Eleanor tentou demonstrar que a perspectiva de unir-se a um homem com mos frias e suadas e pai de quatro filhos a enchia com algo mais que pavor.
Mas os sussurros que pairavam na igreja cheia afastaram temporariamente os pensamentos a respeito de Andrew Webb. E claro que, mesmo sem os comentrios abafados, Eleanor teria notado os McLain. Estavam sentados no primeiro banco, lado a lado. Ombros largos sob jaquetas pretas, cabelos negros longos demais para garantir uma certa respeitabilidade... mesmo de costas, atraam todos os olhares femininos.
Embora estivesse presente a todos os ofcios nos ltimos seis anos, de repente era como se a catedral fosse menor, como se os dois irmos preenchessem todos os espaos.
O sermo do reverendo Sean Mulligan no conseguiu cativar a ateno dos ouvintes, e sabia disso porque ela prpria no teria sido capaz de repetir uma palavra do que o religioso dissera. Quando o ofcio chegou ao fim, ficou evidente que todos estavam mais preocupados com coisas mais mundanas e imediatas que os assuntos divinos.
Normalmente as pessoas permaneciam na frente da igreja, trocando cumprimentos e comentando o sermo do padre. Mas nesse domingo havia apenas um assunto entre as paroquianas: o que trouxera os McLain  missa depois de tanto tempo. Apesar dos homens fingirem estar acima de tais especulaes, todos os olhos voltavam-se para o local onde os dois irmos conversavam com o Reverendo Mulligan.
Cora Danvers sugeriu que eles haviam decidido arrepender-se de seus pecados diante de Deus, mas nenhum dos dois parecia arrependido de qualquer coisa. Havia muita confiana na maneira como se moviam, muita arrogncia em cada gesto ou atitude.
Talvez estivessem solitrios, Millie Peters opinou. Afinal, eram rfos, sozinhos no mundo, sem nenhuma famlia. Millie parecia disposta a tom-los sob sua proteo, mas os McLain no pareciam precisar da proteo de ningum.
Nunca vira Luke ou Daniel, mas, como quase todas as pessoas em Black Dog, Eleanor sabia quem eram. Possuam o maior rancho da regio, um rancho que o pai havia comeado e eles continuaram construindo depois de sua morte. Seus empregados garantiam a metade dos negcios da cidade, e sabia que a loja do sr. Webb dependia em grande parte das encomendas do Bar-M-Bar.
Mas no estava pensando em Andrew Webb quando viu os dois irmos conversando com o Reverendo Mul-ligan. Embora houvesse uma grande semelhana entre eles, foi o mais alto dos dois que chamou sua ateno. Parecia perigoso. Queixo forte, nariz reto, cabelos negros roando na gola da jaqueta de corte conservador... Havia algo de indomado nesse homem. E a arma que repousava sobre seu quadril confirmava a impresso. No que fosse o nico homem armado na igreja; afinal, essa ainda era uma terra selvagem, e muitos homens preferiam a segurana de seus revlveres. No era a presena da arma, mas a facilidade com que a portava que a assustava.
Como se sentisse sua ateno, ele virou-se de repente e os olhos encontraram-se por sobre a multido. Estavam muito afastados para que pudesse ver a cor de seus olhos, mas sentiu o impacto daquele olhar at o fundo da alma. Sabia que devia baixar a cabea, que uma mulher de respeito no sustentava o olhar de um homem, especialmente de um desconhecido, mas no conseguia desviar os olhos.
 Pare de encarar como uma danarina de cabar. Pelo menos finja que  uma dama  Dorinda sussurrou em seu ouvido. Eleanor pulou ao sentir o belisco no brao e abaixou a cabea, tentando esconder as lgrimas de dor e vergonha. Pelo canto do olho, viu o sorriso satisfeito de Anabel e teve de conter-se para no esbofetear o rosto rosado e perfeito.O que tenho em mente  uma mulher dcil que no faa muitas exigncias  Luke estava dizendo.
	Vivo ocupado demais com o trabalho no rancho, e no quero uma esposa que espere ateno integral e constante.
Sean Mulligan conhecia Luke e Daniel desde que a famlia se mudara para Black Dog depois da guerra. Havia sido amigo do pai deles, e sempre pensava que Robert McLain ficaria orgulhoso se pudesse ver como os filhos mantinham o rancho mesmo depois de sua morte, realizando seu sonho. Ficara satisfeito ao v-los na igreja essa manh, mas a satisfao transformara-se em desnimo quando Luke havia comeado a revelar seu plano de encontrar uma esposa.
	No quero perder muito tempo  ele dizia agora.  A primavera  uma poca de muito trabalho no rancho.
	Encontrar uma esposa no  como comprar um cavalo, Luke  Sean protestou.
	Comprar um cavalo  muito mais fcil  Daniel opinou com uma careta.  Basta verificar a linhagem, examinar os dentes, lev-lo para uma cavalgada e j temos o suficiente para saber se a compra  um bom negcio. Pena no podermos fazer o mesmo com as mulheres.
	E isso mesmo, no pode escolher uma mulher como se fosse uma mercadoria  o religioso indicou com severidade, limpando as gotas de suor em sua testa. O sol ameno de primavera parecia subitamente abrasador.
	No pode ser to difcil, Sean  Luke comentou com impacincia.  As pessoas se casam o tempo todo.
	Sim, mas geralmente esperam algum tempo at se conhecerem. Namoram, entende? Um homem no pode simplesmente escolher uma esposa como... como...
	Como se escolhesse um cavalo?  Daniel tentou ajudar.
	Exatamente.
	No tenho tempo para namorar, e podemos esperar para nos conhecermos depois do casamento. Desde que ela no tenha o temperamento de um vulco e o rosto de uma bruxa, tenho certeza de que nos daremos bem. Preciso de uma esposa, no de uma grande amiga.
	Mas...  Sean gaguejou, limpando a testa com um leno. Como explicar a impossibilidade do que Luke pretendia?
	Deve haver um punhado de mulheres solteiras nessa cidade  Luke insistiu, examinando a multido sem importar-se com o interesse que conquistava em retorno.
	 verdade  o reverendo admitiu cauteloso.
	Que tal a ruiva no vestido azul?
	Dorcus CHara  o padre respondeu, seguindp a direo de seus olhos. Sentindo que era alvo da ateno do desconhecido, a jovem ergueu a cabea.  No acredito que ela seja o que tem em mente, meu filho. Dorcus  um pouco... agitada.
	Explosiva, voc quer dizer?  Daniel interferiu.
	Bem, sim  Sean suspirou.
	E quanto  pequena de cabelos castanhos? Aquela usando um vestido azul e o chapu horroroso?
	Eleanor Williams.  Os olhos do religioso dobraram de tamanho, tal seu espanto.
	Ela tem algum compromisso?
	No que eu saiba.
	No  de se estranhar  Daniel comentou com uma careta.  E a outra, a jovem de vestido amarelo ao lado dela?
	Aquela  Anabel, prima de Eleanor.
	No gosto dela  Luke protestou.  Talvez porque me faa lembrar aquela mula que tivemos em Virgnia. Ela tentava morder tudo que estivesse ao seu alcance.
Sean conteve a vontade de rir ao imaginar a reao de Anabel. Se soubesse que acabara de ser comparada a uma mula temperamental...
	Por que no me apresenta a algumas possibilidades?  Luke pediu ao amigo de seu pai.
Eleanor percebeu que o Reverendo Mulligan comeava a apresentar os McLain aos paroquianos.
	Esperava encontr-la hoje, srta. Williams.  Andrew Webb surgiu diante de seus olhos, impedindo-a de acompanhar a movimentao do trio.
	Sr. Webb  Eleanor cumprimentou-o, contendo o mpeto de erguer-se na ponta dos ps para localizar os dois irmos. Ou melhor, o mais alto deles. E o mais belo...
	Est encantadora hoje, senhorita, se me permite dizer.  Andrew ficou vermelho com o prprio galanteio.
	Obrigada, sr. Webb.  Sabia que o elogio era mentiroso. O vestido azul que usava havia sido reformado a partir de um velho traje de Anabel, e nem a cor nem o estilo a favoreciam. Sem falar no horrvel chapu que tia Dorinda comprara para ela na semana anterior. A aba curvava-se sob o peso das flores e laos, e ela sentia-se uma espcie de cogumelo gigante e extravagante.
	Sabia que esse chapu ficaria lindo em voc.
	O chapu?  ela repetiu, levando a mo ao terrvel adereo.  Tia Dorinda o comprou em sua loja?
	Sim  ele sorriu satisfeito.  Pensei em voc assim que o vi.
	Pensou?
	Sim, e  bom saber que gostou dele.
	Eu... adorei.  Era o nico chapu que possua, e o estado lamentvel da boina do ano anterior a obrigara a usar o presente de tia Dorinda. Ningum ia  igreja sem cobrir a cabea.
	Sempre achei impressionante como podemos nos sentir prximos de algum com quem partilhamos gostos e preferncias, mesmo as referentes a coisas to pouco importantes como moda e vesturio  Andrew comentou, os olhos claros fixos em seu rosto.
Eleanor fitou-o e tentou pensar numa resposta apropriada. Devia admitir que odiava o chapu em questo? Se o fizesse, estaria enterrando de vez as esperanas de um dia se casar? Felizmente, a chegada do reverendo os interrompeu, livrando-a da obrigao de responder.
	Zeb, quero que conhea alguns amigos meus. Esses so Luke McLain e seu irmo, Daniel. Sr. e sra. Williams.
Andrew Webb foi imediatamente esquecido. Eleanor sentiu o corao bater mais depressa ao ouvir o nome do homem que atrara seu olhar durante todo o ofcio. Luke McLain.
	J nos conhecemos  Zebediah disse, ao apertar as mos dos dois.  s vezes nos encontramos no banco. No os vejo h algum tempo. Como atravessaram o inverno? Perderam muitas cabeas de gado?  Parecia disposto a entregar-se a uma longa discusso sobre os lucros e prejuzos dos rancheiros da regio, mas uma cotovelada da esposa o fez lembrar suas obrigaes.  Oh, desculpem-me! Essa  Dorinda. E minha filha, Anabel.  O orgulho era evidente em sua voz.
	Srta. Williams  Luke sorriu para a jovem, levando Eleanor ao desespero. Sem dvida estava fascinado pela beleza plida de sua prima, como todos os outros homens da regio.
	Senhores  Anabel respondeu com propriedade, sorrindo de maneira a exibir as covinhas perfeitas.   um prazer conhec-los.
	O prazer  todo meu.
Eleanor sentiu-se estranhamente feliz ao constatar que era Daniel quem dava essa resposta  sua prima, e no Luke.
	No os vemos na igreja h muito tempo  Anabel comentou com um sorriso sedutor.
	 verdade  Luke respondeu.
	Espero que tenham a inteno de vir mais vezes.
	Anabel, o sr. McLain vai pensar que est sendo audaciosa.  A voz da me era doce demais para que se pudesse chamar a interferncia de censura.
	S estava pensando na importncia de se cuidar da imortalidade da alma, mame.
	Boa menina  o Reverendo Mulligan elogiou-a.
	Essa jovem tambm  sua "filha? - Luke perguntou, virando-se para Eleanor.
	 filha de meu irmo  Zeb respondeu com tom seco.  Ns a assumimos quando ele morreu, h alguns anos.
Houve um estranho silncio e Eleanor sentiu o rosto vermelho. Zebediah no podia ter sido mais claro a respeito do incmodo que a moa representava em sua casa, e ela de repente sentia vontade de chorar.
	Eleanor, esse  Luke McLain. E seu irmo Daniel  o religioso apresentou.
	 um prazer conhec-la, srta. Williams.
Ela ergueu a cabea ao ouvir a voz de Luke e sentiu-se ainda mais envolvida que antes. Seus olhos eram cinzentos como um lago sob um cu tempestuoso, e pareciam partculas de ao polido, em contraste com a pele bronzeada.
	Sr. McLain.  A resposta sussurrada foi tudo que pde dizer. O corao batia to depressa, que temia gaguejar ao pronunciar as palavras.
	Vive em Black Dog h muito tempo, srta. Williams?  ele perguntou depois de cumprimentar An-drew Webb.
	Seis anos, quatro meses e doze dias.  A resposta rpida e automtica atraiu a ateno de todos. Estivera contando os dias como uma prisioneira que espera o fim da sentena, mas no pretendia revelar tanto, especialmente a Luke McLain.
Anabel riu.
	No devia provocar o sr. McLain, Eleanor. Ora, fala como se no fosse feliz conosco.
	No foi o que quis dizer.  Sabia que teria de ouvir o sermo de tia Dorinda mais tarde, e no queria nem imaginar que tipo de opinio esse homem formaria a seu respeito.
O momento de estranheza foi interrompido pela chegada de Letty Sinclair. Letty era sua melhor amiga, e normalmente a teria recebido com alegria, mas hoje sua presena a incomodava. J estava aborrecida o bastante com a beleza dourada e suave de Anabel, e no precisava do exotismo moreno da amiga para aumentar a sensao de inadequao.
O Reverendo Mulligan fez as apresentaes e Eleanor manteve-se em silncio, certa de que Luke seria arrebatado pelos olhos e cabelos escuros da amiga. Ali tem sangue italiano, escreva o que digo, tia Dorinda havia comentado com tom sombrio, logo que Letty mudara-se para Black Dog. Mas, com ou sem sangue italiano, a invejvel condio financeira de Letty havia assegurado seu lugar na pequena sociedade, e pouco depois seu encanto e generosidade confirmaram essa posio.
Melhor que Luke se encantasse com Letty do que com Anabel. Pensando bem, qualquer uma era melhor que Anabel. Quando as apresentaes foram concludas, Eleanor j podia at visualizar o casamento e ela mesma, uma dama de honra magoada e triste, porm nobre.
	 um prazer conhec-la, srta. Sinclair  Luke dizia com educao, sem demonstrar nenhum interesse especial.
	Sra. Sinclair  Letty corrigiu com um sorriso radiante.  Sou viva h trs anos.
	Deve ter se casado muito jovem  Daniel apontou com evidente admirao.
	Vou interpretar seu comentrio como um elogio, sr. McLain.
	Mas  o que !
Um olhar para Dorinda Williams foi suficiente para perceber que ela no estava nada satisfeita com a presena da jovem viva. A idia de ver a beleza da filha sobrepujada pela de outra mulher era o bastante para enfurec-la, e o charme de Letty era to natural quanto respirar.
Logo o Reverendo Mulligan afastou-se com os dois irmos, e trs amigas de Dorinda aproximaram-se para saber tudo a respeito do que fora dito.
	Os rapazes so encantadores  ela ofereceu.
	O que eles disseram?  Millie Peters perguntou.
	Apenas trocamos alguns cumprimentos  Dorinda respondeu, fingindo no gostar de ser o centro das atenes.
Letty e Eleanor trocaram um olhar divertido.
	Por que o Reverendo Mulligan os trouxe at aqui?  Cora Danvers adiantou-se com a indelicadeza que a caracterizava. Se no fosse esposa do dono de metade do banco da cidade, certamente no teria uma nica amiga.
	Tenho certeza de que os McLain queriam conhecer minha Anabel. No  compreensvel que tenham decidido assumir seus lugares em nossa sociedade? Naturalmente esto interessados em encontrar esposas, e minha Anabel  a jovem mais linda da cidade.  claro que sua Mary poderia competir com ela em termos de beleza... se no houvesse fugido com aquele comerciante no outono passado.
Cora ficou vermelha e Eleanor teve de admirar a habilidade da tia em atingir o ponto mais vulnervel das pessoas. Todos sabiam que Mary havia fugido com um vendedor de corpetes, mas ningum teria se atrevido a mencionar o incidente com tanta franqueza. Como Zebediah possua a outra metade do banco, Dorinda sentia-se segura para atacar Cora Danvers frontalmente.
	Anabel  uma linda menina  Millie Peters ofereceu.  No seria surpreendente se um dos McLain decidisse cortej-la.
	No me surpreenderia nem se os dois a disputassem  Dorinda respondeu, sem nenhuma modstia.
Eleanor viu Anabel sorrir com orgulho e rangeu os dentes. A idia de ver aquela menina mimada e odiosa pendurada no brao de Luke era suficiente para faz-la sentir vontade de furar seus olhos!

CAPTULO V

Duas semanas se passaram antes que Luke tivesse tempo para voltar  cidade. Durante esses dias, reafirmara a deciso de se casar e consolidara a lista de atributos. Procurava uma garota no muito velha nem muito jovem, que no fosse um castigo para os olhos, mas que tambm no fosse bela a ponto de passar horas diante do espelho, apreciando a prpria beleza. Uma mulher que no tivesse medo do trabalho duro, que possusse temperamento ameno, que fose respeitvel e no muito magra.
No estava procurando nada absurdo. Em troca, dis-punha-se a garantir o conforto e a segurana de sua esposa. No bebia muito, pelo menos no com freqncia, e no tinha o hbito de praguejar diante de uma dama. Sua mulher jamais passaria fome, e poderia at vestir-se relativamente bem e morar com muito conforto.
Pensando nos argumentos favorveis, Luke sentiu-se invadido por uma sbita onda de confiana. No havia motivo algum para Eleanor Williams recusar sua proposta. A menos que j estivesse envolvida com outro homem,  claro. Mas Sean Mulligan afirmara que ela no estava sendo cortejada, e se Andrew Webb ainda, no expressara suas intenes, bvias aos olhos do mundo, alis, o azar era dele.
Satisfeito com o prprio raciocnio, Luke cravou os calcanhares nos flancos do cavalo e acelerou o galope. Havia trabalho a ser feito, e no podia perder mais tempo. Quanto mais cedo fizesse o pedido e obtivesse uma resposta, mais depressa poderia voltar a cuidar da prpria vida.
Eleanor estava marcando a barra de um vestido para Anabel, quando algum bateu na porta.
	Quem pode ser?  Dorinda resmungou irritada.
	Talvez seja algum a servio do banco  Zeb Williams sugeriu, erguendo os olhos do papel que estudava com ateno.
	Num domingo  tarde?  a esposa protestou.
	Nem todos guardam o dia do Senhor como deveriam. No se preocupe, querida. Se for algum assunto relativo ao trabalho, dispensarei o visitante num piscar de olhos.
	Espero que sim. Imagine, tratar de negcios num domingo!  Ao ver o marido deixar a sala, Dorinda serviu-se de mais um chocolate da caixa aberta a seu lado, antes de voltar ao livro que deixara sobre os joelhos.
	Deve ser algum procurando por mim  Anabel sugeriu.  Rose Ellen Miller prometeu trazer o livro de moda que a tia dela mandou de Nova York. Deve ser maravilhoso poder ver alguns vestidos realmente elegantes, no lugar das coisas horrveis que temos aqui.
	Sabe que fica linda em qualquer vestido, preciosa.
	O que sei  que seria motivo de riso em Boston, e at mesmo em San Francisco.  Anabel dera incio  campanha por um vestido novo, e no desistiria enquanto sua vontade no fosse feita.
	No sabia que tinha planos de visitar esses lugares  Eleanor falou com a boca cheia de alfinetes. Nenhuma das duas conseguiu entender o que dizia, mas ambas perceberam o sarcasmo em sua maneira de falar e lanaram olhares ressentidos em sua direo.
	 o sr. McLain  anabel sussurrou de repente.
Eleanor no precisava da ajuda da prima para identificar o proprietrio da voz profunda que soava no hall. Os dedos trmulos j no conseguiam prender os alfinetes nos lugares certos. Sabia que os cabelos estavam desalinhados, que o vestido cor-de-rosa a tornava ainda mais plida, e que a posio em que se encontrava, de joelhos aos ps da prima, era exatamente a que ele julgava ser de seu merecimento.
Um momento antes do tio entrar na sala com o convidado, Eleanor cuspiu os alfinetes na palma da mo. Pelo menos no o cumprimentaria com a aparncia de quem engolira um porco espinho. Dorinda no tinha a mesma sorte. Acabara de enfiar um enorme pedao de chocolate na boca, e suas opes eram engoli-lo inteiro ou mastig-lo rapidamente como um carroceiro sem qualquer educao.
	O sr. McLain disse ter algo a discutir comigo  Zebediah anunciou.
Dorinda sorriu, tomando o cuidado de manter os lbios comprimidos. O silncio teria parecido estranho, se Anabel no se apressasse a interromp-lo.
	Notamos que no compareceu  igreja nessas duas ltimas semanas, sr. McLain.
	No pude ir ao ofcio  ele respondeu com frieza.  Srta. Eleanor.
Vermelha, ela abaixou a cabea antes de responder ao cumprimento.
	Sr. McLain.
No instante em que os dois homens desapareceram no escritrio, Dorinda abriu a boca para respirar e terminar de mastigar o chocolate derretido.
	Sobre o que ele pode querer falar com papai?  Anabel especulou.
	No tenho idia  Dorinda respondeu, irritada por ter sido surpreendida em to desfavorvel momento. Fechando a caixa de chocolates, empurrou-a para a frente como se de repente a odiasse.
	Viu como ele olhou para mim?  Anabel gabou-se.  Acha que notou minha beleza?
	No devia dizer essas coisas. A modstia  uma das maiores virtudes de uma mulher.
	Mas eu sou linda, mame! Todos dizem isso. No seria falsa modstia fingir que no tenho conscincia de minha beleza? Alm do mais, como foi o Senhor que me fez to bela, estou apenas louvando Sua obra quando reconheo meus atributos.
Se Eleanor no estivesse ocupada tentando sufocar uma gargalhada, teria sentido pena da pobre tia. A expresso atnita em seu rosto indicava que, dessa vez, nem ela poderia ignorar a impressionante arrogncia da filha. Anabel parecia no notar o silncio chocado que provocara.
	Apresse-se, Eleanor  ela disparou.  Aposto que o sr. McLain est pedindo permisso para me cortejar:, e no posso acompanh-lo num passeio com a barra do vestido arrastando no cho.
A probabilidade de suas palavras puseram um ponto final na vontade de rir. No suportaria, se tivesse de ver Luke cortejando Anabel. Se isso acontecesse, pediria Andrew Webb em casamento!
	Ai!  Anabel gritou ao ter o tornozelo espetado por utm alfinete.
	Desculpe  Eleanor murmurou, sem levantar a cabea.
	Fez de propsito  a jovem arrogante acusou, puxaitido a saia com violncia e ignorando o grito de dor d<e Eleanor, cujo dedo havia sido atingido por um alfinete.  Espetou-me porque est com cimes.
Ermbora no houvesse realmente atacado a prima com o alfinete, no podia negar a acusao sobre estar com cimes. Limpando uma gota de sangue do dedo, lamentou no ter provocado um ferimento mais grave em Anabel.
Escolhendo o silncio como ttica de defesa, recolheu os alfinetes e levantou-se, ignorando o olhar furioso da prima enquanto guardava os instrumentos de costura numa cesta de vime.
	Mame  Anabel queixou-se com voz chorosa.  Eleanor espetou-me de propsito.
	Cuidarei disso mais tarde, preciosa  Dorinda prometeu distrada.  Por que no vai vestir uma roupa mais bonita? Assim que papai e o sr. McLain terminarem de conversar, convidaremos o sr. McLain a tomar ch conosco. No vai querer receb-lo usando um vestido com a barra alfinetada.
Anabel saiu da sala apressada. Eleanor pensou em trocar de roupa, mas sabia que faria papel de tola se tentasse ofuscar a beleza de Anabel. Alm do mais, no tinha nada melhor para vestir.
Contendo o tremor dos lbios, Eleanor sentou-se no canto mais incmodo do sof e dedicou-se ao bordado. Anabel devia estar certa; Luke viera pedir permisso para cortej-la e, por mais doloroso que fosse, teria de aceitar a realidade.
Anabel retornou em seguida exibindo um lindo vestido cor-de-rosa com toques de renda nos punhos e na gola. Dorinda no poupou elogios, dizendo que ela parecia um anjo, e por mais que a odiasse, Eleanor tinha de reconhecer que sua beleza era insupervel.
No era de se estranhar que Luke McLain estivesse fascinado por ela. Como um homem poderia ver alm de toda aquela beleza e enxergar sua verdadeira essncia.
As trs mulheres esperavam com diferentes graus de impacincia. Dorinda fingia ler seu livro. Eleanor parecia atenta ao bordado. E Anabel posava graciosa no banco do piano, alisando o tecido do vestido sem fingir qualquer outro interesse alm dela mesma.
Menos de meia hora mais tarde todas ouviram a porta do escritrio se abrir. Dorinda fechou o livro. Eleanor espetou o dedo na agulha. Anabel limitou-se a sorrir e olhar para a entrada da sala.
	O que o sr. McLain queria, papai?  ela perguntou, misturando um toque sutil de esperana  confiana feminina.
Zebediah no respondeu de imediato. Em vez disso, limpou a garganta e desviou os olhos da filha. Depois de fitar a esposa rapidamente, encarou a sobrinha com um misto de desgosto e incredulidade.
	O sr. McLain gostaria de falar com voc, Eleanor.
	Comigo?  Sua voz ergueu-se num guincho surpreso.
	Sim. Pode ir conversar com ele no escritrio, mas no feche a porta.
	Sim, tio Zeb.
Um olhar rpido para Anabel mostrou o rosto plido e a boca aberta numa expresso surpresa. Pela primeira vez parecia ter perdido seu encanto natural, e Eleanor sentiu vontade de rir, ao constatar que ela tinha o ar de uma truta. Sabendo que seriam necessrios apenas alguns segundos antes que Anabel se recuperasse e exigisse uma explicao, Eleanor tratou de sair apressada.
Do lado de fora do escritrio do tio, parou e ajeitou o vestido. Respirando fundo, forou o que esperava ser um sorriso sereno e entrou, deixando a porta entrea-berta para no aborrecer o tio.
Luke estava parado na frente da estante, a cabea inclinada numa tentativa de ler os dorsos dos livros enfleirados. Ele virou-se ao ouvi-la entrar e Eleanor no pde controlar o rubor que tingiu seu rosto.
	Srta. Williams.
	Sr. McLain. Tio Zeb disse que deseja falar comigo?
	De fato. Por que no nos sentamos?
Haviam acabado de acomodar-se, quando um grito agudo ecoou na sala de estar.
	No vou aceitar isso! Nunca!
A voz de Anabel erguia-se num ataque de raiva, e alcanou o ponto mximo em mais um grito estridente, que foi interrompido pelo som de uma bofetada. Elea-nor arregalou os olhos numa reao chocada. Durante os seis anos que vivera ali, jamais vira algum erguer a mo para Anabel, por mais descontrolado que fosse seu comportamento.
	Minha prima tem pavor de... ratos  disse, notando o olhar curioso do visitante.
Luke ergueu uma sobrancelha, mas no disse nada. Algo em sua expresso dava a entender que no acreditava no que acabara de ouvir.
	Bem, eu... gostaria de conversar com voc, srta. Williams.  Agora que o momento chegava, gostaria de estar em qualquer lugar bem longe dessa casa. Tudo parecera to simples! Faria sua proposta, ela aceitaria, porque no havia razo para recusar, acertariam uma data e o assunto estaria solucionado.
	Sim, sr. McLain?
	Minha me morreu h trs anos  ele comeou.
	Sim, eu sei. Deve sentir muita falta dela.
	 verdade. O fato  que meu irmo e eu vivemos sozinhos, e com todo aquele trabalho do rancho, no temos tempo para cuidar da casa. Cozinhar, limpar, arrumar, essas coisas.
	Entendo.  Estaria tentando contrat-la como sua empregada?
	Alm de tudo isso, sinto que devemos pensar no futuro. Quando um homem trabalha duro para construir alguma coisa,  indispensvel que pense no futuro e em tudo que deve fazer para garantir a continuidade de sua obra.
	 verdade, sr. McLain.  Ele ia mesmo convid-la a trabalhar em seu rancho! Sentia-se dividida entre a euforia e a incerteza. No poderia aceitar um convite desses sem atrair sobre si os olhares de toda a cidade.
	Quando a vi na igreja, achei que era exatamente o que tinha em mente.  Luke comeava a sentir-se mais relaxado.  Sei que tudo isso  muito repentino e que no nos conhecemos bem, mas teremos muito tempo para nos conhecermos depois.
Depois do qu? Eleanor tinha a sensao de ter perdido uma parte importante da conversa. Depois de contrat-la? E que diferena fazia se conheciam-se, ou no? Contratar uma governanta no requer um relacionamento ntimo!
	No queria apressar as coisas, mas a primavera  uma poca de muito trabalho no rancho, e no queria adiar essa deciso at o vero ou outono. Sendo uma jovem sensvel, achei que no se importaria se eu tomasse um atalho.
	Atalho? Afinal, de que diabos estava falando?
	Seu tio j me deu permisso, o que significa que esse aspecto foi resolvido.
Tio Zeb havia dado permisso para que fosse trabalhar no rancho de dois homens solteiros?
	Ele disse que a deciso final seria sua.
Ele a encarou e Eleanor sentiu-se inclinada a concordar com qualquer coisa. Mas, se fosse viver no rancho dos McLain, sua reputao estaria arruinada antes que ultrapassasse os limites da cidade. Tio Zebediah devia estar mesmo ansioso por livrar-se dela, ou no atiraria ao vento sua to preciosa compostura.
	Sr. McLain, no sei ao certo sobre o que devo decidir  ela confessou com honestidade.
	Estou fazendo um pedido de casamento, srta. Williams.
Silncio. Eleanor o encarava com olhos arregalados, a boca entreaberta em reao ao choque. Os soluos de Anabel podiam ser ouvidos de onde estavam.
	Casamento? Quer se casar comigo?
	Foi o que acabei de dizer.
Ia recusar o pedido. Podia ver o espanto em seus olhos, e ser rejeitado era o castigo que merecia por ter se atirado com tanta sede ao pote. Assim que voltasse ao rancho, encontraria Daniel e o esmurraria para que aprendesse a no ter idias to imbecis. Socaria aquele nariz e...
	Sim.
	O que disse?  ele piscou.
	Estou aceitando o pedido. Ser uma honra ser sua esposa, sr. McLain.
	Seria?  ele hesitou.
	Sim, mas se est arrependido de sua proposta...
	Oh, no!  Agora que concretizara a estpida idia de seu irmo, tinha mais certeza ainda de que estava prestes a cometer uma loucura. Mas fizera o pedido, ela o aceitara, e o assunto estava encerrado.
E agora, qual seria o prximo passo? Devia beij-la? Era uma possibilidade bem atraente, mas pela maneira como Eleanor torcia os dedos e apertava os lbios, tinha a impresso de que ela sairia correndo, se tentasse toc-la.
E agora? Eleanor gostaria de saber o que aconteceria em seguida. Iria beij-la? A idia provocou um tremor que a sacudiu dos ps  cabea.
	Estou honrado, srta. Williams  Luke falou depois de alguns segundos, incapaz de suportar o silncio prolongado.
	A honra  toda minha, sr. McLain.
	Agora temos de conversar com seus tios para acertar a data e mais alguns detalhes.
Dividida entre o alvio e a decepo provocados pela certeza de que no seria beijada, Eleanor afirmou com a cabea e levantou-se para segui-lo, aturdida com os ltimos acontecimentos. Era incrvel, espantoso, mas ia realmente se casar com Luke McLain!
Zebediah e Dorinda sugeriram que voltassem ao escritrio. Os olhos da tia refletiam tamanha incredulidade, que Eleanor sentiu vontade de rir. Anabel no estava em parte alguma. Devia ter se recolhido com uma toalha molhada sobre a testa, para tentar aceitar a realidade de que a prima desprezada, o patinho feio da famlia, no s se casaria antes dela, como se uniria a um homem por quem ela se interessara.
	Imagino que estejam querendo marcar uma data  Zebediah adiantou-se. Havia oferecido os votos de felicidades num tom to amargo que era evidente o quanto a situao o aborrecia.
	Acho que podemos ajeitar tudo para o fim do vero  Dorinda suspirou relutante.
	Esperava realizar tudo dentro de duas semanas a partir do prximo sbado  Luke protestou.
	Duas semanas? Impossvel!
	No sei por qu. A menos que o padre no esteja disponvel... A cria da primavera j deve ter nascido at l. Acho que a poca seria perfeita para um casamento.
	E evidente que nunca se casou, sr. McLain  Dorinda retorquiu com mau humor.  Um matrimnio exige algum tempo para ser preparado. Existem providncias a serem tomadas.
	Que tipo de providncias?
	Como tudo isso foi muito repentino, acho que devemos oferecer uma pequena festa para anunciar o noivado e apresent-los.
	Apresentar-nos a quem? Todas as pessoas dessa cidade se conhecem, sra. Williams!
	Apresent-los como um casal, sr. McLain. E preciso que as pessoas se acostumem  idia de que voc e Eleanor esto... relacionando-se. Depois poderemos anunciar o noivado. Enviaremos os convites, e Eleanor vai precisar de um vestido de noiva. Essas coisas podem no parecer importantes para um homem, sr. McLain, mas um corao feminino sonha com os detalhes de um casamento. Tenho certeza de que no vai negar a Eleanor a oportunidade de viver todas as tradies a que ela tem direito.
Luke engoliu o desejo de discutir. Se essas coisas eram to importantes para uma mulher, ento no havia outra alternativa seno aceit-las. Mas a idia de passar o vero visitando a cidade a cada dois ou trs dias, comparecendo a todas as festas e compromissos que Dorinda Williams tinha em mente... Sentia vontade de sair correndo.
	Duas semanas me parece um prazo razovel  Eleanor anunciou. Trs pares de olhos voltaram-se para ela com diferentes graus de surpresa, como se s ento houvessem notado sua presena.
	No seja ridcula, Eleanor  Dorinda censurou-a.  No tem idia do trabalho envolvido num casamento apropriado.
	No consigo pensar em nada que no possa ser feito em duas semanas.
Dorinda notou como a sobrinha erguia o queixo e soube que no conseguiria demov-la de seus propsitos. Como uma garota to quieta podia ser to teimosa? Havia feito de tudo para dom-la, e algumas vezes acreditara ter conseguido. Mas ento algo acontecia, ela erguia o queixo daquela maneira e sabia que nada a faria mudar de idia.
Eleanor ignorou o n no estmago e sustentou o olhar furioso da tia. Se Luke queria casar-se em duas seInanas, sua vontade seria feita. Afinal, no estava saindo de um lar feliz e cheio de amor, e duas semanas no seriam suficientes para que ele mudasse de idia e decidisse trocar o casamento por uma governanta. Luke sorriu para a noiva, certo de que fizera uma escolha acertada. Ainda nem estavam casados, e ela j se mostrava ansiosa para agrad-lo.
	No sei se ser possvel  Dorinda tentou.
	Tenho certeza de que conseguiremos  Eleanor afirmou com tom quieto, embora implacvel.
	Um casamento apressado provocar falatrio. As pessoas imaginaro se no h uma boa razo para estarem com tanta pressa.  O olhar de Dorinda indicava que ela mesma abrigava esse tipo de suspeita, como se os dois pudessem ter se conhecido h mais tempo do que tinha conscincia.
	No se atrevero a falar mais que uma vez  Luke avisou.  No permitirei.  A ameaa fria e velada foi suficiente para silenci-la.
Marcaram a data para duas semanas a contar do prximo sbado. Luke partiu em seguida e, como sua noiva, Eleanor recebeu autorizao para acompanh-lo at a varanda sem superviso.
	No sei se poderei voltar  cidade antes do casamento  Luke avisou quando j se preparava para montar.
	Entendo. Sei que tem muito trabalho no rancho, e tambm estarei ocupada com os preparativos.
	Tem certeza de que quer ser minha esposa?
	Sim, a menos que... a menos que tenha mudado de idia.
	Oh, no!
	Nesse caso, prometo me esforar para ser uma boa esposa, sr. McLain.
	No vai precisar se esforar muito  ele sorriu.  E  melhor comear a me chamar de Luke.
	Seu nome  Lucas?
	Sim, mas a nica pessoa que me chamava assim era minha me, e assim mesmo quando estava me castigando ou censurando.
	Vou tentar lembrar disso. Talvez possa usar esse pequeno truque para faz-lo perceber quando estiver aborrecida com alguma coisa.
O sorriso tmido e bem humorado o surpreendeu, bem como sua reao a ele. Teve vontade de tom-la nos braos e beij-la, mas sabia que ela fugiria assustada, e por isso se conteve. Por outro lado, como resistir a um olhar to doce e cheio de promessas maravilhosas?
	Acha que h alguma objeo a um beijo entre os futuros esposos?
Eleanor tentou responder, mas a voz havia desaparecido. A mo dele estava sobre seu rosto, quente e firme, e o corpo todo reagia ao toque de maneira intensa, assustadora. Sabia que devia recusar-se a beij-lo, mas j era tarde demais. Luke inclinava-se lentamente, roubando-lhe a capacidade de raciocnio.
Os lbios encontraram-se e o mundo parou de girar  sua volta. Temendo cair, Eleanor pousou a mo sobre o peito do noivo em busca de equilbrio, e imediatamente sentiu as batidas aceleradas de seu corao.
Luke sentiu o toque suave como uma lngua de fogo atravs da camisa. Por um momento esqueceu que estavam numa varanda familiar, em plena luz do dia e ao alcance dos olhos de toda a cidade, e que a garota em seus braos era inocente como uma criana. Quase sem perceber, apertou-a com mais fora e aprofundou beijo.
Eleanor retraiu-se imediatamente numa reao chocada. Sabia que poderia convenc-la a aceitar o beijo mais audacioso sem grande esforo, mas tinha o dever de respeitar a mulher com quem se casaria em breve
Relutante, soltou-a e ps o chapu. S mais duas semanas, e ento...
 Vejo voc na igreja.
Eleanor no respondeu. No conseguiria, por mais que tentasse.
Luke despediu-se com um aceno rpido, montou e partiu a galope, como se fugisse de algum perigo iminente. Aturdida, ficou onde estava e o acompanhou com os olhos at v-lo desaparecer, e s ento sentiu a pulsao voltar ao normal.
Ia se casar. E com Luke McLain. Mal podia esperar para contar tudo a Letty!

CAPITULO VI

Duas semanas mais tarde, Eleanor parou diante do espelho e pensou em pular a janela e fugir. Era o dia do seu casamento, mas o rosto refletido pelo espelho parecia prestes a encarar a guilhotina.
Oh, Deus, o que a fizera concordar com isso? Queria sair dessa casa, e as duas ltimas semanas no haviam contribudo em nada para faz-la mudar de idia, mas casar-se com um estranho... Vira Luke McLain poucas vezes, o suficiente para qualific-lo como um conhecido, mas da a aceit-lo como marido... Por outro lado, quando se lembrava daquele beijo, sentia que no seria difcil passar o resto da vida a seu lado. Mas devia haver mais coisas num casamento do que beijos.
As batidas secas na porta a assustaram. Sem esperar por uma resposta, Anabel entrou no quarto e parou, os olhos cheios de ressentimento. Usava um vestido branco da mais fina seda, e vrias camadas de cetim azul celeste adornavam o drapeado em torno da cintura, caindo em pontas at a altura do joelho, para s ento serem atados s suas costas, formando um lindo lao. Rendas delicadas marcavam a regio em torno dos punhos e da gola, e fitas cintilantes acompanhavam toda a volta da barra. Anabel era a personificao da beleza.
Luke s ter de olhar para ela para perceber o terrvel engano que cometeu.
O fato dele ter tido diversas oportunidades para apreciar a beleza de Anabel e ainda assim t-la pedido em casamento no significava nada para Eleanor. No precisava olhar-se no espelho para saber que a prima a ofuscaria em seu prprio casamento.
	Est plida como um fantasma  Anabel comentou. Sem fechar a porta, foi sentar-se na cama estreita e estudou-a com malcia nos olhos azuis.  Sei por que ele a pediu em casamento.
	Sabe?  Eleanor devolveu, virando-se para o espelho e fingindo um grande interesse na tarefa de escovar os cabelos.
	Porque voc  sem graa.
	 mesmo?
	s vezes um homem prefere se casar com uma mulher como voc porque, assim, pode deix-la em casa sem se preocupar, sem pensar na possibilidade da esposa atrair atenes indesejadas. Luke sabe que no far exigncias, porque ser eternamente grata por ele ter se casado com voc. S estou dizendo as coisas para que no fique a pensando sobre o fato de no ser uma noiva muito bonita. Luke...
	Luke  um homem de muita sorte, e tenho certeza de que ele sabe disso.  As palavras de Letty a precederam. Quando passou pela porta e entrou no quarto, seus olhos cintilavam de raiva.  E voc  uma menina mimada e insuportvel que teria sido beneficiada por algumas boas surras quando era criana. Infelizmente,  tarde demais para tentar corrigi-la.
	Como se atreve a falar comigo desse jeito?  Anabel perguntou furiosa.
	No perca tempo com suas cenas ridculas. Se comear a gritar, serei obrigada a esvaziar a bacia do lavatrio sobre sua cabea.
Eleanor engoliu uma gargalhada ao ver a incredulidade chocada no rosto da prima. Em todos os seus dezesseis anos de vida, ningum jamais a tratara dessa maneira.
	No pode...
	Experimente  Letty desafiou-a com firmeza.  Sugiro que controle sua natural tendncia  malcia, pelo menos por hoje. Se fizer alguma coisa para aborrecer Eleanor no dia de seu casamento, serei obrigada a conversar com sua me sobre uma certa cena que testemunhei entre voc e Johnny Rutherford.
Anabel abriu a boca, o rosto vermelho como um tomate. Fascinada, Eleanor a viu abaixar a cabea e sair sem dizer nada, lanando um olhar de dio na direo de Letty antes de passar pela porta. Assim que ela desapareceu, Letty tratou de fechar a porta.
	Essa menina  uma constante ameaa  sanidade das pessoas de bem  disse.
	Voc realmente a viu com Johnny Rutherford?
O pai de Johnny possua um dos trs saloons que
disputavam a freguesia na rua principal de Black Dog. Tia Dorinda andava fazendo uma forte campanha para fech-los, e se soubesse que a prpria filha estivera associando-se ao filho de Harvey Hutherford...
	No  Letty respondeu com um sorriso divertido.
	Mas surpreendi uma troca de olhares entre eles, e decidi arriscar. Acho que acertei no alvo. Ela me olhou como se quisesse me matar! Duvido que essa garota insuportvel volte a perturb-la, pelo menos por hoje
	concluiu satisfeita.  E voc no parece ter ouvido uma palavra do que eu disse. O que houve?
	Oh, Letty! Estou simplesmente horrvel! Talvez Anabel tenha razo. Luke deve estar se casando comigo porque sou sem graa e...
	No diga bobagens!  Letty tomou a escova de suas mos e comeou a pente-la.  Voc no  sem
graa. No tem a beleza de sua prima,  verdade, mas tambm tem seus encantos. E possui um tipo de beleza que  duradoura. Quando Anabel tiver trinta anos, estar parecida com uma caixa de chocolates deixada ao sol. Voc continuar fresca como a primavera, apesar da passagem do tempo.
	Voc  uma grande amiga, Letty. Oh, Deus, o que estou fazendo? Por que aceitei me casar com um homem que mal conheo?
	As mulheres se casam com desconhecidos desde o incio dos tempos  ela lembrou, prendendo os cachos rebeldes num penteado elegante.  Prefiro v-la casada com Luke McLain a saber que passar o resto de seus dias com aquele horrvel Andrew Webb, como pretendia fazer. Prefere se casar com ele?
	No  Eleanor respondeu sem pensar. Desde que aceitara a proposta de Luke, nunca mais voltara a pensar em Andrew.  E que... ele me assusta.
	Joseph tambm me deixava apavorada. Quase desmaiei antes de poder dizer o sim.
	Mas voc o amava!
	Sim, mas isso no significa que no tenha sentido medo.  natural uma mulher assustar-se diante do casamento. Estamos nos entregando aos cuidados de um homem, esperando que ela seja gentil e cuide do nosso sustento, e sabendo que no poderemos fazer nada se ele for menos do que esperamos.
	Se est tentando me tranqilizar, escolheu o caminho errado.
	S quero que entenda que seus temores so naturais. Acho que o sr. McLain ser um bom marido, e sou egosta o bastante para admitir que gosto da idia de estar se casando antes de Anabel, e muito bem. Isso vai colocar aquela menina insuportvel em seu devido lugar por algum tempo.
	No posso me casar s para enfurecer Anabel. 
	No, mas pode divertir-se com isso. Sua tia conversou com voc a respeito dos deveres maritais?
Eleanor ficou vermelha e baixou os olhos. No se sentia confortvel discutindo assunto to ntimo nem mesmo com a melhor amiga.
	Ela disse que meu marido desejaria fazer algumas coisas, e que eu teria de aprender a suport-las com os olhos fechados, rezando para que acabassem logo admitiu num sussurro. 
	Meu Deus  Letty balanou a cabea.  Aposto que foi seu tio quem teve de aprender a suportar certas coisas com os olhos fechados.
Eleanor riu, imaginando o tio sendo arrastado pelos cabelos para o leito conjugai.
	Assim  melhor  Letty sorriu.  Venha sentar-se na cama, a meu lado, e falaremos com franqueza sobre essas coisas que acontecem entre marido e mulher.
Eleanor ouviu com ateno, dividida entre a curiosidade e o temor. No sabia se queria saber como era a vida entre um homem e uma mulher casados, especialmente quando nem sabia se conseguiria realmente se casar.
Eleanor olhou para a aliana em seu dedo. Nova e brilhante, ela parecia estranhamente pesada, como se ainda no houvesse encontrado seu lugar.
	 muito grande?  A pergunta de Luke a assustou e ela virou a cabea em sua direo.
	Grande?
	A aliana.
	Oh, no! Ela  perfeita.
	Posso diminui-la, se quiser.
	No se preocupe. Acho que estou apenas um pouco nervosa.
	Eu tambm  ele riu, notando seu olhar surpreso. 	 a primeira vez que me caso.
Eleanor retribuiu o sorriso e sentiu a tenso diminuir. No acreditava que ele estivesse nervoso, mas o considerava gentil por fingir. Gomo Luke voltara a concentrar-se na estrada, ela permitiu-se mergulhar nos prprios pensamentos.
Meu marido. Repetir as palavras mentalmente no tornava a situao mais real, nem a aliana em seu dedo, nem o fato de estar seguindo para sua nova casa. Repetira os votos diante do altar e ouvira o homem a seu lado fazer o mesmo, aceitara as congratulaes dos convidados, trocara o vestido de noiva por outro mais confortvel e deixara a casa dos tios para sempre, e ainda no conseguia acreditar no passo que acabara de dar.
 Estamos chegando  Luke avisou, rompendo o silncio que cara sobre eles.  O rancho fica logo alm daquela inclinao.
Olhou para Eleanor, e como ela observava a direo que acabara de apontar, aproveitou para observ-la com alguma tranqilidade. O sol estava quase se pondo, mas a luz ainda era suficiente para que pudesse ver a curva suave das faces e os lbios carnudos e tentadores. Aquela boca ocupava seus pensamentos de maneira insistente e preocupante. Tivera duas semanas para pensar nisso, duas semanas para lembrar o sabor dos lbios sob os dele.
Considerando que havia sido apenas um beijo, a ocorrncia merecera considerao excessiva. E a considerao provocava uma antecipao to grande que comeava a sentir medo. Mal podia esperar para beij-la novamente. Sem falar em todas as coisas que se seguiriam...
A casa situava-se numa espcie de ninho onde a plancie descia subtamente, transformando-se numa depresso. Havia uma pequena nascente que nunca havia secado durante os anos em que os McLain viveram ali. E havia currais e galpes, e toda a parafernlia necessria  manuteno de um rancho.
Luke deixou a carroa aos cuidados de um empregado, que apresentou como Joe. Depois apanhou o ba de roupas que ela trouxera e segurou seu brao, guian-do-a atravs do terreno acidentado at a varanda.
Daniel ficara para passar a noite na cidade e traria o restante de seus pertences no dia seguinte.
Luke abriu a porta, acendeu uma lamparina e voltou para ergu-la nos braos, carregando-a at a sala  maneira dos recm-casados. Sabia que ele estava apenas seguindo a tradio, mas, mesmo assim, Eleanor no conseguiu impedir uma reao intensa e imediata. O corao batia apressado, e a respirao ofegante traa as emoes que a invadiam.
Quando o marido a colocou no cho, Ellie ajeitou o chapu sem perceber o olhar contrariado que atraa com o gesto. Luke imaginou se ela ficaria sentida, se algum acidente pusesse um fim no terrvel adereo. Talvez conseguisse pensar em alguma coisa para o futuro...
Ao v-la olhando em volta, arrependeu-se por no ter se esforado mais, talvez contratado algum para fazer a limpeza e pr um pouco de ordem no lugar. Ele e Daniel haviam tentado limpar a sujeira mais grossa, mas de repente tomava conscincia da fina camada de poeira que cobria todas as superfcies, do piso de madeira que no voltara a ver uma vassoura ou um escovo desde a partida da ltima governanta, meses antes.
	Daniel e eu no temos muito jeito para as tarefas domsticas  disse, usando a ponta da bota para empurrar cinzas de cigarro para baixo do sof enquanto Eleanor examinava a sala.
	No faz mal. Conheo todo o trabalho que h para ser feito dentro de uma casa, incluindo como remover cinzas do tapete.
Ela olhou para o lugar onde as cinzas haviam estado antes de serem empurradas para baixo do sof e encarou-o. Os dois riram, e parte da tenso pareceu evaporar.
Luke levou-a para conhecer o resto da casa, mas Eleanor no prestava muita ateno aos cmodos em-poeirados e escuros. No conseguia deixar de pensar na noite que teriam pela frente. Sua noite de npcias.
	Daniel j levou suas coisas para o alojamento  Luke explicou, ao abrir a porta de um dos trs quartos.  Ele imaginou que deveramos ficar sozinhos por algum tempo.
	Ele no precisava incomodar-se  EUie protestou, certa de que a ltima coisa que desejava era ficar sozinha com o marido.  Essa  a casa dele.
	Acho que ele pretende voltar para c dentro de algumas semanas. Como no temos tempo para uma viagem de lua-de-mel, Daniel decidiu nos oferecer a segunda melhor opo.
	Foi muita gentileza, mas no  necessrio.  Por um momento pensou em sugerir que voltassem  cidade e convidassem o cunhado a voltar, mas em seguida percebeu que seria ridculo.
	Este ser o nosso quarto  Luke anunciou, empurrando a porta no fundo do corredor.
Nosso quarto. Eleanor engoliu o n que se formara em sua garganta e forou-se a passar pela soleira. Luke trouxera o ba e agora o acomodava aos ps da cama. Uma cama. E no muito grande. Engolindo novamente, desviou os olhos da assustadora pea de moblia.
Esse quarto, como todos os outros aposentos, mostrava sinais de negligncia. A poeira acumulava-se sobre todas as superfcies, o cho clamava por uma boa camada de cera e as cortinas precisavam ser lavadas. Havia trabalho mais que suficiente para mant-la ocupada.
Os olhos foram atrados de volta  cama e ela no pde conter um arrepio. Por um momento desejou que Luke a houvesse contratado como governanta, em vez de t-la pedido em casamento. Pensara naquele beijo durante as duas ltimas semanas, mas um beijo roubado na varanda de seu tio era uma coisa, partilhar uma cama era outra bem diferente.
Luke aproximou-se e ela deu dois passos para trs, tentando evitar qualquer contato acidental. Letty tivera a delicadeza de preparar um lanche para o casal. Notara que a amiga no conseguira comer nada no almoo oferecido pelos tios, e sabia que a ltima refeio decente que fizera havia sido no dia anterior, na hora do almoo. Agora devia sentir fome, mas mal conseguia pensar em provar os pedaos de frango frito e as batatas cozidas enviadas pela grande amiga.
Se tambm estava nervoso, Luke no demonstrava. Comia com apetite, devorando os pedaos de frango e as batatas cobertas pelo delicioso molho especial de Letty. Enquanto ele comia, Eleanor aproveitava para examinar a cozinha, que parecia ter sofrido mais que o resto da casa com a falta de cuidados. Agora entendia porque Luke decidira se casar. O lugar estava caindo sobre sua cabea!
A refeio chegou ao fim, e Eleanor sentiu-se novamente tensa. Assim que guardasse as sobras e limpasse os pratos, no haveria mais nada a separ-la da realidade que a esperava l em cima, no quarto.
 Por que no vai subindo?  Luke sugeriu.  Vou fumar um cigarro e depois irei encontr-la.
Eleanor afirmou com a cabea e deixou a cozinha em silncio, levando uma lamparina para iluminar a escada. O marido queria que tivesse tempo para mudar de roupa e preparar-se com alguma privacidade, o que era louvvel de sua parte. Se fosse realmente gentil, talvez permitisse que abrisse uma janela e sasse daquela casa voando.
A imagem do prprio corpo estendido sobre o terreiro no meio da noite era to absurda que ela sorriu. Mas o sorriso transformou-se numa careta, quando ela abriu a porta e deparou-se com a cama que estaria dividindo com o marido dentro de alguns minutos. Duas pessoas dormindo naquela cama seria realmente... ntimo.
Tentando acalmar-se, Eleanor abriu o ba e tirou tudo de que precisava para arrumar-se. Terminaria de ajeitar suas coisas no dia seguinte, quando soubesse onde acomod-las, assim que Daniel chegasse com o restante de seus pertences. E quando suas mos no estivessem tremendo tanto.
Estava terminando de trocar de roupas quando um pensamento assustador invadiu sua mente. Luke no podia esperar v-la sem suas roupas! Letty no dissera nada a esse respeito, mas ningum jamais a vira nua desde que era um beb.
Com o corao aos saltos, terminou de vestir a ca-misola e cobriu-a com o roupo, abtoando-o at o pescoo. Depois soltou os cabelos, escovou-os e prendeu-os novamente com uma fita azul.
E ento esperou.
Apesar das palavras reconfortantes de Letty, no pde conter um arrepio de apreenso quando ouviu os passos se aproximando pelo corredor. Luke logo estaria entrando. Essa era sua noite de npcias, e era pouco provvel que pretendesse pass-la sozinho.

CAPTULO VII

Quando entrou no quarto, Luke teve a impresso de que ela era uma virgem prestes a ser oferecida em sacrifcio, atirada na cratera de um vulco ou na arena dos lees.
J estava meio excitado apenas com a idia de t-la em sua cama, mas era bvio que teria de fazer um esforo considervel s para convenc-la a deitar-se naquela cama. Respirando fundo e munindo-se de pacincia, fechou a porta e viu que ela arregalava os olhos ainda mais.
Deixara o chapu l embaixo depois de lavar-se com a gua da bomba, no terreiro. A gua gelada no fizera muito para aplacar sua fome, mas o simples gesto de levar a mo  cabea a fez pular. Havia sido bobagem imaginar que a esposa no estaria nervosa.
	No vou surr-la  brincou, tentando amenizar a tenso.
Foi intil. Ao ver que o marido comeava a despir o casaco negro que usara para o casamento, ela desviou os olhos apressada.
	Sabia que dividiramos uma cama, Eleanor?
Sim, mas... bem, eu imaginei... no tinha certeza...
A voz dela era to baixa, que Luke teve de esforar-se para ouvi-la. Os olhos no conseguiam desprender-se do cho.
	Imaginou o qu?  O tom do marido a fez criar coragem para levantar a cabea.  Em que estava pensando, Eleanor?
	Bem, pensei que talvez no estivesse interessado num casamento de verdade, afinal. Precisava de uma governanta, e sabia que meu tio jamais permitiria que eu viesse trabalhar na casa de dois homens solteiros, e por isso decidiu me pedir em casamento. No  isso?
	No  Luke respondeu, depois de alguns segundos de surpresa.  Queria um casamento verdadeiro em todos os sentimentos. E esperava que quisesse ter filhos, tambm.
	Oh, eu quero!
	Pois bem, para se ter filhos,  necessrio que o casamento seja consumado  Luke explicou com calma.
	Eu sei  ela respondeu, abaixando a cabea para esconder o rubor que tingia seu rosto.
	Tem medo de mim?
	No.  Gostava da maneira como ela erguia o queixo ao responder, como se o orgulho houvesse sido ameaado. Mas os olhos desviaram-se assim que encontraram os dele, e Eleanor perdeu o ar imponente.  S gostaria de um pouco mais de tempo antes de... antes de nos tornarmos... ntimos.
O primeiro impulso de Luke foi concordar com o que ela pedia. Apesar do desejo que pulsava em seu corpo, no tinha a menor inteno de comear um casamento forando a esposa a aceit-lo em sua cama. Mas ele hesitou, os olhos fixos em sua cabea baixa. Quando a beijara na varanda da casa de seu tio, ela havia respondido com um ardor to inesperado que quase no conseguira montar para voltar ao rancho.
Sentira paixo naquele beijo, e queria experiment-la novamente. Mesmo que no admitisse, era evidente que ela tinha medo do que podia acontecer. Podia dar a ela o tempo que havia pedido e us-lo para demonstrar que no havia nada a temer. Talvez funcionasse. Por outro lado, seus temores podiam crescer.
	Quando era um garotinho, ca de uma rvore e quebrei o brao  ele disse devagar, como se falasse por acaso.  No foi uma fratura muito grave, mas minha me no quis trat-la sozinha e correr o risco de me deixar incapacitado, por isso levou-me ao mdico. Demoramos muito para chegar l, e tive tempo de sobra para pensar no que o mdico faria e em como doeria. Quando chegamos ao consultrio, estava to assustado que comecei a gritar no momento em que ele abriu a porta.
Eleanor o encarava com os olhos cheios de piedade.
	Doeu muito?
	No  ele sorriu.  A espera e a ansiedade foram muito pior que qualquer coisa que ele tenha feito. Quase me matei de medo por nada.
Ela piscou ao compreender o significado do que ouvia.
	Est dizendo que... as obrigaes conjugais no so piores que um brao quebrado?  perguntou fi
nalmente, confusa e ainda mais apreensiva.
Luke quase gemeu, ao constatar os resultados de sua tentativa.
	Estou dizendo que prolongar a ansiedade e a preocupao acaba tornando a espera pior que a realidade.
	Ento est sugerindo que acabemos com isso de uma vez?
	No foi exatamente isso que quis dizer, mas  algo bem parecido.
Eleanor pensou na possibilidade. Ainda estava nervosa, mas quanto mais ele permanecia ali parado, sem saltar sobre ela como um lobo voraz, mais o medo cedia. Era difcil agarrar-se ao temor, quando ele no havia feito nada para amedront-la. E Letty dissera que, com o homem certo, no havia nada a temer. Se pelo menos tivesse certeza de que Luke era o homem certo...
De repente se deu conta do absurdo da situao. Ele era seu marido, o que o tornava o homem certo aos olhos da lei e de Deus. Talvez estivesse certo, e a espera s tornaria o medo ainda maior.
	Est bem.  As palavras saltaram de seus lbios como se pudesse desistir delas, caso demorasse a dize-las.  Se acha que  melhor assim.
No era exatamente uma demonstrao de entusiasmo, mas j era mais do que havia esperado a princpio. Luke respirou fundo e considerou a melhor maneira de prosseguir desse momento em diante. O sangue pulsando em suas veias exigia que fosse direto ao ponto. Era estranho como a desejava. Conhecera mulheres mais bonitas, que tremiam de antecipao diante da idia de serem levadas para sua cama, mas havia algo nessa garota de grandes olhos castanhos que fazia seu sangue ferver.
Melhor assim. O trabalho de produzir um herdeiro seria um prazer, em vez de uma obrigao. E tornaria a misso agradvel para ela, tambm, decidiu com arrogncia, assim que conseguisse convenc-la de que no a derrubaria na cama para possu-la, como um animal selvagem.
	Sua tia conversou com voc sobre o que acontece entre um homem e uma mulher?  Enquanto falava, ia chegando mais perto dela.
Eleanor tremia, mas no tentou afastar-se nem mesmo quando ele soltou a fita que prendia seus cabelos.
	Sim  respondeu, apesar do arrepio que percorreu sua espinha quando os dedos tocaram sua pele.
	O que foi que ela disse?  Luke alisou uma mecha e deixou-a cair em torno de seus dedos, sentindo a maciez dos fios longos e encaracolados.
	Ela disse que uma mulher tem de cumprir seus deveres conjugais e que eu teria de aprender a suportar... que devia fechar os olhos e rezar.
		Acha que farei algo to horrvel que ter de fechar os olhos e rezar para suportar?
	Eu... no sei. Minha amiga Letty disse que o mais provvel era que meu tio Zeb houvesse aprendido a suportar.
A gargalhada de Luke a tranqilizou. O que estava prestes a acontecer no podia ser to terrvel, ou ele no estaria rindo.
	O que mais Letty disse?  Seu tom era casual, como se discutissem o tempo saboreando um punhado de biscoitos. To casual, que Eleanor levou algum tempo para perceber que ele estava soltando os pequenos botes de seu roupo. A essa altura estavam quase todos desabotoados, e parecia tolice protestar.
	Letty disse que... poderia doer um pouco... na primeira vez. Mas depois disso, podia ser at agradvel.  O rosto parecia uma fogueira quanto terminou de falar. Marido ou no, no estava acostumada a discutir essas coisas com um homem.
	E voc acreditou nela?
	Sim... no... no tenho certeza.
	Acreditaria em mim se eu dissesse a mesma coisa?  Os dedos dele deslizaram por seu rosto, erguendo-o de maneira a poder fit-lo.
Eleanor reuniu toda a coragem necessria para encar-lo.
	Eu tentaria.	
A honestidade cautelosa o fez sorrir, mas o sorriso desapareceu quando ela umedeceu os lbios com a ponta da lngua. Jamais havia visto algo to sedutor em toda sua vida.
	Tente de verdade  ele murmurou, inclinando-se para beij-la.
A boca era exatamente como se lembrava, suave e doce, saborosa como a mais suculenta das frutas. A princpio ela mostrou-se tensa, mas depois de alguns segundos relaxou e permitiu que o beijo se aprofundasse.
De incio apenas aceitou a intimidade, permanecendo rgida como uma rvore. Mas Luke era paciente. Se precisasse esperar toda a noite para conseguir uma resposta, ento passaria a noite inteira tentando.
Mas no teria de esperar tanto tempo. Primeiro sentiu a mudana em seus batimentos cardacos, e em seguida notou que ela comeava a mover os lbios, como que ensaiando uma resposta para o beijo.
Eleanor estava to absorvida pelas sensaes maravilhosas provocadas pelo beijo, que nem percebeu os dedos habilidosos escorregando dos ombros pelos braos, despindo seu roupo. A mo repousou sobre seu quadril, pesada e quente, fazendo-a perceber que uma camada de proteo se fora.
Eleanor moveu-se inquieta, mas antes que pudesse murmurar um protesto, se era isso que pretendia, a mo deixou seu quadril e seguiu numa lenta viagem por suas costas. Quase morreu de susto ao sentir os dedos roando um de seus seios uma, duas vezes, antes de se apoderarem dele como se tivessem todos os direitos sobre seu corpo. Numa reao sbita, afastou os lbios dos dele e segurou o pulso largo.
	O que foi? Machuquei voc?
Os olhos grandes e assustados o encararam. Ela engoliu em seco e negou com a cabea, sentindo que o marido voltava a toc-la de maneira ntima. O toque suave sobre seu seio a fez estremecer.
	Se quer que eu pare, tudo que tem a fazer  dizer.
Eleanor abriu a boca para pedir que parasse, mas nesse momento ele tomou um mamilo entre seus dedos e friccionou-o com delicadeza. O ar escapou de seus pulmes, provocando um som que era quase um gemido. Queria que ele parasse. Era evidente que queria. Mas era to difcil pensar enquanto esse homem a acariciava! Ainda o segurava pelo pulso e, sem perceber, puxou-o para mais perto.
Mais tarde lembraria de ter pensado coisas estranhas enquanto ele a acariciava. Queria que parasse mas no conseguia coordenar as idias. Sabia que estava pecando. Uma sensao to intensa e deliciosa s podia ser pecaminosa. O bom senso ameaou recuperar seu lugar, quando uma dor aguda a trouxe de volta  realidade, mas instantes depois a dor foi substituda pelo prazer e a loucura venceu a sanidade.
Luke sempre soubera que havia paixo na mulher que escolhera para viver a seu lado, mas estava surpreso com a profundidade de suas respostas. Sempre se orgulhara de ser capaz de controlar-se e levar uma mulher ao ponto mximo do prazer, mas os movimentos espontneos e inocentes de Eleanor ameaavam essa capacidade.
E ela nem notava a luta que o marido travava com o prprio corpo. Estava tomada pelas sensaes, girando numa rbita prpria que no admitia controle ou lgica. A tenso acumulava-se dentro dela, partindo do ponto onde os corpos se uniam e espalhando-se por todo o corpo. O n foi se tornando mais e mais apertado, at que a tenso alcanou um patamar insuportvel. Ela encolheu-se, subitamente apavorada com o poder do que experimentava.
Luke murmurou algo incompreensvel em seu ouvido, certamente palavras doces para tranqiliz-la. Ento a mo escorregou por entre seus corpos e uma estranha carcia a fez explodir em centenas de fagulhas coloridas. Ouviu o marido gemer, um som estranho que lembrava o grunhido de um animal ferido, e depois sentiu que ele estremecia sobre seu corpo, invadindo-a com uma umidade quente que a fez chegar ainda mais alto em seu xtase.
Algum tempo se passou antes que Luke tivesse forpara erguer-se. Eleanor arrepiou-se ao sentir o ar Lio onde antes estivera o corpo do marido, mas ele deitou-se a seu lado e puxou a colcha sobre ambos, abra-cando-a e aninhando-a de encontro ao corpo musculoso. Luke fechou os olhos, a boca distendida num sorriso satisfeito. No era sempre que um homem tinha motivo para sentir-se feliz por ter tirado a palha mais curta.

CAPTULO VIII

Eleanor acordou com o som de algum se movendo. Assustada, levantou-se de um salto, pensando ter dormido demais, certa de que tia Dorinda viera acord-la. Mas, em vez do rosto duro da tia, deparou-se com as costas fortes de um homem nu. Luke. Seu marido.
	Bom dia  ele a cumprimentou com voz rouca e sonolenta.
	Bom dia.
	Dormiu bem?
	Sim, muito bem.
	Parece mesmo tima.  Os olhos expressavam verdadeira admirao masculina.  Pensando bem, parece mais que tima.
Com um gemido horrorizado, Eleanor puxou as cobertas at o queixo para esconder o peito nu. Tinha a impresso de que o rosto era uma fornalha, e a risada debochada do marido no foi exatamente um consolo. Sabia que era tolice sentir-se envergonhada depois das liberdades que havia permitido na noite anterior. Mas agora o sol estava nascendo, e o que parecia aceitvel na escurido da noite tornava-se completamente pecaminoso  luz do dia.
Luke teve pena de seu constrangimento e recolheu seu roupo do cho. Enquanto ela o vestia, virou-se e tratou de cobrir-se com as roupas que deixara espalhadas pelo cho. Levaria algum tempo para que a esposa perdesse a timidez, mas saberia esperar. Era um homem paciente, e a pacincia tinha suas recompensas, decidiu, lembrando a noite anterior.
Havia terminado de vestir-se quando Eleanor levantou-se e foi escovar os cabelos diante do toucador. A excitao foi imediata, mas obrigou-se a conter-se. Tinha um rancho para administrar, e no podia faz-lo da cama. Alm do mais, a julgar pela maneira como ela o evitava, s um milagre a levaria de volta  cama.
Eleanor sentia os olhos de Luke em suas costas enquanto escovava os cabelos, mas no tinha coragem de encar-lo. A lembrana do comportamento abandonado da noite anterior ainda a envergonhava, e no sabia o que fazer para aliviar a tenso que a dominava.
	Prepararei o caf num minuto  disse, agarrando a idia como uma tbua de salvao.
	No precisa se preocupar com isso por hoje. Comerei um pedao de po com carne antes de sair, e isso dever me manter satisfeito at a hora do almoo.
	Nesse caso, servirei o almoo ao meio-dia.
Era exatamente o que esperava ouvi-la dizer, mas Luke hesitou, sentindo uma emoo muito parecida com culpa. Eleanor parecia to jovem  luz do dia! Jovem e frgil. Ao pedi-la em casamento, pensara em atender s prprias necessidades, mas em nenhum momento preocupara-se com as necessidades da futura esposa.
Duvidava que muitas mulheres sonhassem acordar no dia seguinte ao casamento e preparar um almoo para meia dzia de caubis. Sem mencionar a faxina acumulada h trs anos. Talvez devesse t-la convidado para uma viagem de lua-de-mel, possivelmente alguns dias em Denver, e certamente devia ter contratado algum para limpar a casa antes de traz-la para seu novo lar.
Luke balanou a cabea. Era tarde demais, pelo menos para a limpeza. E poderiam ir a Denver depois, quando o trabalho do rancho estivesse mais adiantado. Alm do mais, tinham um casamento baseado em aspectos prticos, e Eleanor no podia estar esperando gestos romnticos.
	Quando o almoo estiver pronto, toque o sino ao lado da porta da cozinha  ele avisou.
	Est bem.
Ela virou-se para fit-lo com aqueles grandes olhos azuis, como se no soubesse exatamente o que fazer. De sua parte, Luke tambm estava perdido. Casara-se na certeza de que sabia o que esperar e como agir, mas agora que tinha uma esposa, descobria-se confuso.
	Faa o que quiser com a casa  disse.  Ajeite suas coisas onde e como achar melhor. E mude o que desejar. Pensando bem, no tente mexer em nada muito pesado. Se precisar de ajuda e eu no estiver por perto, chame um dos empregados.
	Est bem.
Luke hesitou, pensando que devia haver algo a dizer, mas no conseguia imaginar o que era.
	At mais tarde  despediu-se, saindo sem esperar
por uma resposta. Tinha certeza de que estava esque
cendo alguma coisa. Essa histria de casamento exi
giria algum tempo de adaptao.
Eleanor o viu partir e disse a si mesma que era bobagem sentir-se ferida porque ele no a beijara. Haviam se casado por razes prticas, e no tinha motivos para esperar gestos romnticos. Mas depois da noite anterior... Balanando a cabea, censurou-se por ser to ingnua. Tinha muito a fazer para se dar ao luxo de perder tempo sonhando.
Na noite anterior Eleanor no conseguira ver muito da nova casa. A mente havia estado em outras coisas, e a nica certeza que tinha era de que o lugar precisava de uma boa limpeza. A luz do dia, era bvio que uma boa limpeza era pouco. No havia uma nica superfcie limpa em todos os cmodos que visitara.
Mais uma vez perguntou-se por que Luke no contratara uma governanta, em vez de casar-se, mas a recordao da noite anterior tingiu seu rosto de vermelho. Talvez ele estivesse interessado em mais coisas que uma casa limpa. Havia dito que queria ter filhos, e esse era um servio que uma governanta no poderia prestar.
Pensar numa criana a fez sorrir. Talvez j estivesse grvida. O sorriso tornou-se mais amplo e um enorme entusiasmo a invadiu. Por isso decidira correr o risco de aceitar esse casamento. Talvez houvesse herdado mais do pai do que imaginava. Como ele, apostara alto se casando com um desconhecido, mas, ao contrrio dele, tinha certeza de que podia contar com a prpria determinao, no s com a sorte. Sentia-se capaz de fazer o prprio destino.
Olhando em volta, viu um lindo futuro alm das paredes escuras e engorduradas, um futuro que ela e o marido construiriam juntos, nesta mesma casa, na terra onde ele trabalhava. Pela primeira vez na vida estava realmente instalada num lugar que podia chamar de seu. No era mais uma hspede indesejada na casa dos tios, nem estava de passagem em mais um dos interminveis quartos de hotel. Agora tinha uma casa, um lugar onde lanar razes. Estava realizando o maior de todos os seus sonhos.
0 sorriso desapareceu quando ela lembrou que um marido que a amasse tambm fazia parte do sonho. Mas o amor podia crescer, e casamentos slidos haviam sido construdos a partir de menos do que tinha com Luke. Pelo menos era o que esperava. Ele a desejava. Por mais inocente que fosse, tinha certeza disso. E se desse a ele um lar confortvel e, Deus permitisse, filhos, quem poderia dizer que o amor no brotaria de tais coisas? 
A esperana acompanhou-a at a hora do almoo. Passara a manh limpando a cozinha, esfregando trs anos de gordura acumulada em todas as superfcies. Seria necessrio mais que uma nica manh para pr o lugar realmente em ordem, mas conseguira um bom trabalho.
Pelo menos, a despensa estava bem estocada. O marido e o cunhado haviam negligenciado a limpeza, mas no esqueceram de comer. O estado da cozinha atestava o fato de que algum estiver a cozinhando.
No meio da faxina, havia parado para pr uma panela de guisado no fogo e, feito isso, entregara-se  monumental tarefa de esfregar o cho. Ao meio-dia a cozinha estava quase em condies aceitveis, o guisado ficara pronto e havia uma fornada de biscoitos pronta para ser assada.
Depois de pr os biscoitos no forno, saiu para tocar o sino e avisar que refeio seria servida. Quando todos terminassem de se lavaria fornada estaria assada, quente e crocante.
Os dedos tremiam um pouco, quando tirou o avental e tentou ajeitar os cabelos, lutando contra os eternos caracis rebeldes que caam sobre sua testa. Seria o primeiro teste como esposa... bem, talvez no o primeiro, pensou com um violento rubor. Mas seria o primeiro teste em pblico, e queria que tudo desse certo.
Eleanor estava preparando caf quando ouviu o ranger da porta anunciando a chegada dos rapazes. Poucos segundos foram necessrios para que percebesse que no teria de preocupar-se com a possibilidade dos biscoitos esfriarem enquanto se lavavam, pois a idia de usar gua e sabo antes das refeies no fazia parte da rotina dos pees. Entraram em sua cozinha limpa portando toda a poeira e suor acumulados sobre seus corpos ao longo de uma manh de trabalho. Luke e Daniel foram os ltimos a entrar, e uma onda de alvio a invadiu, quando notou que pelo menos eles haviam lavado as mos e o rosto, embora no se preocupassem em limpar os ps. Em poucos segundos o cho voltou a ter a aparncia antiga.
	O cheiro  delicioso, senhora  um rapaz alto e magro elogiou, exibindo um sorriso desdentado.
	Esse  Gris Balkin  Luke apresentou, ao sentar-se  cabeceira da mesa.  Slim White, Short Dan-vers e Joe Small.
Eleanor sorriu e retribuiu os cumprimentos de todos os empregados, que inclinavam a cabea antes de sentarem-se em seus lugares. Em seguida retirou os biscoitos do forno e colocou-os numa grande terrina de cermica.
Ao aproximar-se novamente da mesa, Eleanor teve a impresso de que ia cair de susto. Deixara a tigela de guisado no centro da mesa e colocara uma grande concha ao lado dela, mas os homens pareciam preferir mtodos mais diretos. Shorty, ou Gris, no sabia ao certo, mergulhava sua terrina na tigela e lambia os dedos cheios de molho antes de comear a comer.
Esperou que algum dissesse alguma coisa sobre suas maneiras abominveis, mas, em vez disso, todos os outros o imitaram, espalhando molho e pedaos de carne sobre a mesa enquanto se serviam. Tentando disfarar o desgosto, Eleanor aproximou-se e deixou a vasilha de biscoitos ao lado do guisado.
	Biscoitos!  um dos homens gritou. O fato de estar com a boca cheia no diminua seu entusiasmo.
Vrias mos voaram sobre a iguaria, disputando at a ltima migalha numa verdadeira demonstrao de selvageria.
	Ei, est quente!  um deles gritou, jogando o biscoito para cima a fim de esfri-lo.  Isso est mais quente que uma garota de cabar!
	Gris!  Luke censurou, olhando na direo da esposa.
Lembrando que havia uma dama presente, Gris ficou vermelho e abaixou a cabea.
	Perdoe-me, sra. McLain.
Eleanor ofereceu um sorriso fraco para indicar que o perdoava pela linguagem inadequada. Se achava que a conscincia de sua presena teria alguma influncia positiva sobre os modos dos caubis, estava enganada. Um deles lambeu a tigela para aproveitar at a ltima gota de molho do guisado e mergulhou-a novamente na terrina maior para servir-se de mais uma poro.
Pela maneira como comiam, imaginou se no teria sido melhor assar um porco e jog-lo no meio da mesa para que o devorassem como lobos.
Nenhum deles lembrou-se de fazer uma prece antes da refeio, mas tambm no faria muito sentido pedir a Deus que abenoasse a cena que estava testemunhando. Mos voavam sobre a mesa, talheres batiam contra terrinas e pedaos de carne eram devorados com verdadeira selvageria.
Engoliam xcaras e mais xcaras de caf e falavam de boca cheia, comendo com uma velocidade que poderia ser lisonjeira, se no suspeitasse que teriam feito o mesmo com solas de sapatos fervidas.
O marido e o cunhado comportavam-se com um pouco mais de civilidade. Pelo menos no enfiavam a comida na boca com os dedos. Mas ento Daniel limpou a boca na manga da camisa e o alvio transformou-se em irritao. No podia fazer nada alm de observar, enquanto os biscoitos e o guisado desapareciam diante de seus olhos.
Jamais havia presenciado algo parecido, e se havia algo de positivo na situao era que todos desapareceram to depressa quanto haviam surgido, despedindo-se com rpidos acenos de cabea, sem ao menos lembrar de agradecer pela refeio. Luke foi o ltimo a levantar-se.
	O almoo estava excelente, Eleanor.
	Obrigada.
	Est se adaptando bem?
	Sim.  Pelo menos at agora.
Queria dizer alguma coisa sobre a cena que acabara de testemunhar, mas no encontrava as palavras. H pouco tempo sentira-se to esperanosa com relao ao futuro, e de repente olhava para ele e lembrava que ainda era um estranho, apesar das intimidades da noite anterior.
	Levarei suas coisas para o quarto esta noite. A menos que precise delas antes disso,  claro.
	No, posso esperar at a noite.
Luke hesitou, como se procurasse algo para dizer. Quando pensara em se casar, havia imaginado que s teria de trazer a esposa para casa, instal-la e deix-la em seu canto, sem se preocupar com mais nada. Mas quase perdera um dedo esta manh por estar pensando na mulher, em vez de prestar ateno  corda que cortava.
Agora que a via novamente, no conseguia identificar o que havia nessa mulher que o fizera distrair-se de suas obrigaes durante boa parte da manh. No Podia dizer que fosse sua beleza, porque no era exatamente bonita. Mas havia algo de fascinante naqueles cabelos rebeldes e nos grandes olhos castanhos.
Lembrar como esses mesmos olhos haviam escureo de paixo na noite anterior deixou-o excitado, e de repente pensou em esquecer o trabalho e ir para a cama levando a esposa.
	Se no precisa de nada, voltarei ao trabalho  disse apressado. Se no sasse logo da cozinha, no seria capaz de resistir ao impulso de beij-la.
	No preciso de nada, obrigada.
Luke saiu, dizendo a si mesmo que s precisaria de algum tempo para habituar-se  nova vida. Afinal, nunca fora casado!
Sem dvida, o casamento exigiria algum tempo de adaptao, Eleanor decidiu, desviando os olhos da porta por onde o marido acabara de sair, para examinar o desastre em que se transformara sua cozinha limpa. O cho estava coberto de poeira, barro e outras substncias que preferia no identificar, e a mesa era uma confuso de louas sujas e fragmentos de comida.
Pretendia comer depois dos homens, mas perdera o apetite. Melhor comear a limpar toda essa sujeira de uma vez. Tempo. S precisava dar tempo ao tempo. No ouvira dizer que as mulheres haviam levado uma influncia positiva aos campos de guerra? Os homens do Bar-M-Bar estavam longe desse tipo de influncia h muito tempo.
Eleanor passou a tarde da mesma maneira que havia passado a manh, limpando e cozinhando, embora com menor entusiasmo.
Quando terminou de servir o jantar, estava to cansada que no se importaria se os rapazes comessem com os ps. A cena do almoo repetiu-se, e logo depois os pees dirigiram-se ao alojamento. Daniel e Luke foram ao escritrio cuidar de alguns papis e ela ficou sozinha com a baguna da cozinha. Aborrecida, limpou tudo o mais depressa que pde e aqueceu gua para ir lavar-se no quarto.
Luke havia acabado de acender um cigarro, quando ouviu os passos da esposa na escada. Estaria indo para a cama? Usaria a mesma camisola? Adoraria despi-la novamente, deslizar as mos sob o tecido e encontrar a maciez daquela...
. Maldio!  A exclamao escapou de sua garganta, quando o fsforo esquecido queimou seu dedo.
	Notei que anda meio distrado  Daniel riu.
	Podia ter me avisado  Luke reclamou, soprando os dedos para aliviar a dor.
	Podia  ele concordou com um sorriso divertido.  Mas conclu que acabaria percebendo sozinho.
Luke ouviu os passos de Eleanor no quarto, bem em cima do escritrio, e teve de fazer um grande esforo para concentrar-se no trabalho.
	Ela trabalhou bastante.  Era evidente que Daniel sabia o que distraa seu irmo.  Esse lugar j parece bem melhor.
	 verdade. No havia realmente prestado ateno  casa porque, depois da noite anterior, deixara de preocupar-se com os talentos domsticos da esposa. Mas agora que Daniel tocara no assunto, percebia que a camada de poeira que antes cobria todas as superfcies desaparecera.
	E ela cozinha muito bem  Daniel elogiou.
	Tem razo. Foram os melhores biscoitos que j comi  Luke admitiu com orgulho.
As tbuas do piso rangeram sobre sua cabea e Luke voltou a pensar na mulher que se movia em seu quarto. Estaria despindo-se? Talvez j estivesse pronta para deitar-se, escovando os cabelos longos e encaracolados diante do toucador.
Daniel inclinou-se para retirar o cigarro de seus dedos e ele pulou assustado.
	Vai acabar quemando-se novamente, e no conseguir nem segurar uma corda!
Luke ficou vermelho, constrangido por ter sido pego divagando mais uma vez. Droga, por que no conseguia tir-la da cabea?
	Os rapazes combinaram um jogo de pquer esta noite. Vai participar?
	No  Luke respondeu sem hesitar.
Daniel despediu-se com um sorriso malicioso e dirigiu-se ao alojamento. Sozinho, Luke preparou outro cigarro e fumou-o com calma, provando para si mesmo que ainda tinha total controle da situao. Depois, apagou as lamparinas e subiu a escada com passos lentos, ignorando a excitao que o impelia a correr.
Eleanor estava inclinada sobre a cama para puxar as cobertas quando ele entrou, mas endireitou-se e encarou-o com expresso indecifrvel. A camisola era a mesma da noite anterior, mas o roupo permanecia estendido aos ps da cama.
Pretendia estar deitada e profundamente adormecida, ou pelo menos fingindo dormir, quando o marido se recolhesse. Estava exausta depois de todo o trabalho que realizara, e ainda no tinha certeza de haver tomado uma deciso acertada ao aceit-lo em sua vida. E essa incerteza era ainda mais inquietante depois das intimidades da noite anterior.
Mas Luke subira mais cedo do que esperava, e agora o encarava imaginando o que diria, e como reagiria ao ouvi-lo. Ainda no se conheciam e, a julgar pelo tempo que passavam conversando, levariam muito tempo para tornarem-se realmente ntimos.
Mas Luke no parecia disposto a conversar. Sem dizer nada, aproximou-se dela enquanto desabotoava a camisa. Eleanor sentiu um arrepio ao v-lo despir a pea e jog-la no cho, revelando o peito forte e amplo. Lembrou como havia sido sentir aqueles msculos contra os seios e um tremor a sacudiu.
Respirando fundo, tentou encontrar a voz, embora ainda no soubesse o que dizer. Luke ergueu a mo e puxou a fita que prendia seus cabelos, libertando-os com o gesto. Eleanor abriu a boca para protestar, mas os lbios apoderaram-se dos dela e todos os pensamentos lgicos e sensatos desapareceram de sua mente. Como se tivessem vontade prpria, os dedos enterraram-se nos cabelos negros e sedosos, enquanto ela retribua o beijo apaixonado.
Presa nesse abrao apertado, sentiu que a incerteza desaparecia como uma nuvem de fumaa soprada pelo vento. Algo to doce e delicioso no podia ser fruto de um engano!
Luke a fez deitar-se sobre a cama e o peso de seu corpo a fez esquecer tudo, para entregar-se sem reservas ou temores.
CAPITULO IX

	Eles comem como um bando de selvagens, Letty.
	Os homens so selvagens.
A resposta calma da amiga arrancou uma gargalhada de Eleanor, mas em seguida ela suspirou desanimada.
	No sei o que fazer. Li sobre a influncia civili-zadora que uma mulher pode exercer sobre os homens, mas at agora navi nenhuma evidncia disso.
	S est aqui h duas semanas, Ellie. E eles tiveram trs anos para voltarem ao comportamento que consideram mais natural. Vai precisar de tempo e persistncia para faz-los mudar de hbitos.
As duas estavam sentadas na sala de estar recentemente limpa da casa dos McLain. Letty viera fazer uma visita. Depois de duas semanas em companhia exclusivamente masculina, Eleanor teria ficado grata com a visita de qualquer mulher, mas estava especialmente feliz por ver a grande amiga. Depois de servir mais ch do bule que havia sido presente de casamento de Letty, voltou a acomodar-se na cadeira e suspirou.
	Pensei que minha presena aqui j seria suficiente para faz-los lembrar as boas maneiras. Mas ontem um dos homens agarrou um pedao de carne da travessa e jogou-o em seu prato. Fiquei surpreso por ele no ter rosnado enquanto comia.
	Ter de ser firme com eles, Ellie. Sutileza no funciona com os homens. A menos que sejam atingidos na cabea por alguma coisa, o mais provvel  que nem percebam o que desejamos que vejam.
	No posso censur-los como se fossem crianas.
	Por que no? Pelo que sei, os homens freqentemente agem como crianas. Talvez seja benfico trat-los  altura.
	Talvez, mas no serei eu a tentar.
	Ento, pea a Luke para conversar com os empregados.
	Luke?
	Seu marido, lembra-se?
	Sim, eu sei quem  Luke.
	Pensei que podia ter esquecido.
	 claro que no.  Eleanor bebeu um pouco de ch, usando a ao para esconder os olhos do exame atento da amiga. Esquecer Luke? Seria mais fcil esquecer o prprio nome.  No pogso pedir a ele para conversar com os rapazes.
	Por que no?
	Simplesmente no posso.  Notando o olhar persistente da amiga, suspirou e decidiu que era melhor explicar-se, ou ela no a deixaria em paz.  No o conheo o bastante para isso. S estamos casados h duas semanas, e no me sinto  vontade para fazer exigncias.
Letty pensou um pouco no que acabara de ouvir e balanou a cabea.
	Acho que est enganada, Ellie. Quanto mais tempo esperar para comear a fazer exigncias, mais difcil ser faz-las. No estou sugerindo que se transforme numa megera autoritria e desagradvel, mas tambm no precisa ser um capacho.
	No sou um capacho!
	J discutiu com Luke?
	No, ns...
	Ento  um capacho.
	Mas s estamos casados h duas semanas  Eleanor protestou.
	J passou da hora de terem uma boa discusso. Ou pelo menos um desentendimento. Passou tanto tempo com sua tia, que aprendeu a engolir o que pensa para no se prejudicar.
	No posso provocar uma briga com Luke por nada.
	H sempre algo sobre o que discutir com um homem.
Letty falava com a voz da experincia e Eleanor sorriu, apesar da confuso que a dominava.
Um silncio confortvel caiu sobre elas. Eleanor saboreava o ch e sentia-se relaxada pela primeira vez em duas semanas. Havia um punhado de costuras esperando para serem realizadas e em pouco tempo teria de comear a preparar o jantar... para alimentar os animais, como se habituara a pensar. Mas, por enquanto, no pensaria em nada seno aproveitar o momento.
	E quanto ao irmo dele?  Letty perguntou de repente.
	Daniel? O que tem ele?
	Como ele ? Quero dizer, considera seu cunhado agradvel?
	Bem, sim... Por que pergunta?
	Estava s pensando...
	Letty, est interessada nele!
	No seja ridcula  ela respondeu apressada, o rosto vermelho desmentindo a afirmao.  S queria conversar, mais nada.
	Mas ele  atraente  Eleanor persistiu, ignorando os dbeis protestos da amiga.  Oh, Letty, seria maravilhoso se voc se casasse com Daniel. Seramos irms pelo casamento!
	Casar com ele? Eu nem o conheo!
	Podemos cuidar disso. Assim que a conhecer, Daniel ficar apaixonado.
	J fomos apresentados e ele no demonstrou o menor sinal de interesse. Mal me cumprimentou no casamento  Letty observou com certa contrariedade.
	Havia tanta confuso naquele casamento, que duvido que ele pudesse apontar a noiva.
Eleanor teve de conter-se para no esfregar as mos com entusiasmo. Desde que havia conhecido Letty, era a primeira vez que ela se mostrava interessada por algum do sexo oposto, apesar de todos os rapazes que haviam tentado conquist-la. O fato de ter sido justamente Daniel a atrair sua ateno era perfeito.
	Podia nos convidar para jantar  sugeriu.  Isso daria a Daniel uma chance de conhec-la.
	Esquea!  Letty negou com veemncia, deixando a xcara sobre a mesa.  No vou traar planos para perseguir o sujeito. Alm do mais, est tirando concluses precipitadas. Ainda no disse que o considero atraente.
	Mas tambm no disse o contrrio.  Eleanor recusava-se a desistir. Tudo que precisava fazer era aproximar os dois e confiar no bom senso de Daniel. Ele certamente perceberia que bela esposa Letty daria.
	No sei o que est planejando, mas no conte comigo  Letty avisou, ao ver o brilho nos olhos da amiga. Com movimentos agitados, levantou-se e colocou o chapu e as luvas.   hora de ir para casa.
Ela pareceu aliviada quando Eleanor no insistiu no assunto sobre a adequao de Daniel como marido em potencial. Letty perguntou se Luke e ela compareceriam s comemoraes do Quatro de Julho, certamente o feriado mais celebrado da cidade, e Eleanor disse que no sabia, mas perguntaria ao marido.
 No se esquea de insistir. No seria to divertido sem voc.  Letty despediu-se com um beijo no rosto da amiga.  E no esquea que uma boa discusso de vez em quando pode fazer maravilhas por um casamento.  sempre divertido fazer as pazes  ela concluiu com um sorriso malicioso.
Eleanor ficou na varanda, vendo a amiga afastar-se em sua pequena e elegante carruagem, e s entrou quando ela desapareceu alm da primeira curva da estrada. Pensou na sugesto sobre ser mais exigente, mas descartou-a quase que imediatamente. Letty no entendia. Apesar de j ter sido casada e possuir mais experincia, sua histria era diferente. Letty amava o marido, e era amada por ele. A situao que vivia com Luke no tinha nada a ver com amor.
Pedir a Luke para conversar com os empregados? Como poderia? Com exceo do tempo que passavam juntos na cama, tinha a sensao de que nem o conhecia! Fora do quarto, trocavam apenas umas poucas frases ao longo do dia, e tambm no conversavam muito dentro dele, admitiu, lembrando o que faziam com certo constrangimento.
Por melhor que fossem os momentos de paixo, no eram suficientes para satisfazer aquela parte dela que insistia em esperar muito mais de um casamento. Era como se o marido s reconhecesse sua existncia na cama! No que fosse rude, mas queria mais que educao do homem com quem havia se casado. Queria...
Queria que a amasse.
Por mais que repetisse para si mesma que essa idia era romntica e tola, que um casamento no precisa de amor para dar certo, no conseguia desistir do sonho de ser amada pelo marido como a me havia sido amada pelo pai.
Eleanor fez uma careta ao lembrar a sugesto de Letty sobre provocar uma discusso com o marido. Por alguma razo, era incapaz de acreditar que essa fosse a melhor maneira de conquistar o amor de um homem. Evidentemente, teria de pensar em alguma outra coisa.
Enquanto isso, tinha de preparar o jantar e ainda pensar numa forma de persuadir os homens a comerem como gente civilizada. Se pelo menos soubesse como a tal influncia civilizadora das mulheres podia funcionar! Deus sabia que precisaria de uma dose dupla para pr essa casa em ordem.
Se Luke suspeitasse de que Eleanor estava menos que satisfeita com o casamento, ficaria surpreso. De sua parte, a situao era muito melhor do que imaginara. Quando relacionara os atributos que esperava encontrar numa esposa, no sonhara satisfazer todos os itens da lista, e de repente surpreendia-se com uma mulher simplesmente completa.
A poeira desaparecera de sua casa. As refeies eram sempre deliciosas e servidas na hora certa, tanto que precisava esforar-se para sair da mesa e voltar ao trabalho, depois de comer. Suas roupas estavam limpas e costuradas, a casa transformava-se novamente num lar e, como se no bastasse, suas noites eram tudo com que um homem podia sonhar.
Fizera uma boa escolha, decidiu, olhando para a sala limpa e bem arrumada.
	Esse lugar voltou a ser o que era antes  Daniel comentou, os pensamentos girando em torno do mesmo assunto.
	 verdade.  Luke notou que a cinza do cigarro estava prestes a cair e tentou alcanar o cinzeiro, mas o movimento provocou o pequeno desastre. Ao ver a cinza sobre o tapete recentemente limpo, espalhou-a com a ponta da bota e tratou de manter-se mais prximo do cinzeiro.
Eleanor j havia subido, o que significava que no poderia v-lo sujando o tapete que acabara de limpar. E mesmo que pudesse, sabia que ela no criaria uma cena. Jamais conhecera uma mulher mais dcil em toda sua vida. Pensou ter ouvido um barulho l em cima, mas Daniel falou, antes que ele pudesse ter certeza:
	Ela faz a melhor torta que j provei.  O cinzeiro estava muito longe, por isso bateu a cinza do cigarro numa fruteira repleta de frutas de cera.
	Sim, Eleanor sabe cozinhar.
	Conseguiu tudo que queria.
	 verdade.
	No est arrependido?
	De maneira nenhuma.  Imaginou se Eleanor j teria se deitado. A idia de ir juntar-se a ela era mais interessante que fumar mais um cigarro com o irmo. Mais uma vez, pensou ter ouvido alguma coisa, mas Daniel voltou a falar.
	Jamais pensei que o invejaria por ter tirado a palha mais curta quando decidimos que um de ns teria de se casar.
Teria dito mais alguma coisa, mas dessa dez os dois ouviram o mesmo som. Uma exclamao assustada, seguida de um suave farfalhar provocado por movimentos no saguo. Luke aproximou-se da porta com passos rpidos, mas s conseguiu ver os tornozelos de Eleanor, que desapareceu no alto da escada em meio a uma nuvem de algodo branco.
O som da batida da porta do quarto ecoou por toda a casa.
Calmo, Luke voltou  sala e apagou o cigarro.
	No contou a ela sobre termos tirado a sorte na palha mais curta?  Daniel perguntou.
	Achei que no era necessrio.
	As mulheres costumam ter reaes peculiares.
	Eleanor pode estar um pouco aborrecida, mas  uma mulher sensata. Conversarei com ela e certamente resolveremos tudo  Luke decidiu, com ares de autoridade.
	Se quiser, h uma cama sobrando no alojamento.
	Ela no  o tipo de mulher que joga um homem para fora do prprio quarto.
Daniel lanou um olhar de dvida para o irmo, antes de abaixar-se e apanhar o chapu do sof, onde o deixara ao entrar. Ajeitando-o sobre a cabea, comentou:
	J disse isso antes, mas direi novamente. Ainda est para nascer a mulher que no criar uma cena mais cedo ou mais tarde, dadas certas circunstncias.
	Minha mulher  diferente  Luke afirmou confiante.
	De qualquer maneira, lembre-se de que o alojamento no est lotado  Daniel repetiu, batendo no ombro do irmo antes de sair.
Luke esperou at ouvir o som da porta se fechado, e s ento dirigiu-se  escada. Se Eleanor decidisse criar uma cena, preferia no ter testemunhas. No que acreditasse nisso. Mas, ao escalar os degraus, lembrou que no havia passado muito tempo com a esposa, exceto na cama,  claro. Talvez no a conhecesse to bem quanto imaginava.
Tocou a maaneta e respirou, aliviado, ao sentir que ela cedia sem oferecer resistncia. Havia contado com a possibilidade de encontrar a porta fechada. Eleanor devia estar aborrecida. Talvez at derrubasse algumas lgrimas, mas era uma mulher sensata e acabaria ouvindo a voz da razo. Luke empurrou a porta e entrou no quarto, preparado para encontrar uma esposa chorosa.
Mas o que...  Rpido, desviou a cabea do livro arremessado em sua direo e ouviu quando ele se chocou contra a parede. Espantado, olhou para Eleanor e esqueceu todos os argumentos sobre ter se casado com uma mulher de bom senso e temperamento dcil. Sua esposa doce e sensata estava em p do outro lado da cama, a fria em seus olhos contrastando com a feminilidade do roupo sobre a camisola. Talvez se recusasse a ouvi-lo, afinal, Luke decidiu, fechando a porta sem fazer barulho.

CAPITULO X

	Seu rato sujo e fedorento!  Mais um livro encontrou a parede.
No havia uma nica lgrima em seus olhos, Luke notou ao desviar do mssil. Mas se um olhar pudesse matar, j teria cado sem vida aos ps dessa mulher. Como sabia que no poderia derrub-lo apenas com os olhos, Eleanor estava disposta a tentar mtodos mais diretos.
Uma escova de cabelos e um pente de cabo de prata foram atirados em sua direo-com a velocidade e a pontaria de um atirador bem preparado, e Luke encolheu-se quando a escova encontrou seu ombro esquerdo.
	Voc  o mais repugnante e nojento arremedo de ser humano que tive o prazer de conhecer em toda minha vida  ela disse, estendendo a mo na direo da bacia do lavatrio.
	Eleanor...
A bacia passou perto de sua cabea e arrebentou-se contra a parede, respingando a camisa de Luke com uma mistura de gua e estilhaos de porcelana.
	Pare com isso agora mesmo  ele disse. Mas o tom firme surtiu efeito menor que o esperado, pois ele foi obrigado a abaixar-se para escapar da jarra que antes repousara sobre a bacia. O som da porcelana se quebrando parecia alimentar sua fria assassina.
	Estaria mais satisfeita com um marido leproso e aleijado  ela disparou, agarrando o espelho que fazia conjunto com a escova e o pente.
	No atire isso  ele ordenou. O espelho passou a poucos centmetros de sua cabea.  Maldio, mulher, pare de jogar as coisas e me deixe explicar!
	No h nada a explicar  Eleanor retorquiu, arremessando mais um livro contra o marido.
	No sabe o que ouviu  Luke protestou, des-viando-se do livro a tempo de evitar o choque.
	Posso ter sido estpida o bastante para me casar com voc, mas isso no quer dizer que tambm seja surda!  Sem munio, tirou um chinelo e jogou-o em sua direo, ao perceber que se aproximava.  Ouvi bem o que Daniel disse. Casou-se comigo porque tirou a palha mais curta e foi obrigado a encontrar uma esposa. Casou-se comigo porque perdeu!
	No foi bem assim...
	Fique longe de mim  ela exigiu, brandindo o segundo p do chinelo e encarando-o de maneira ameaadora.
Luke mantinha-se atento ao calado. Sua esposa j demonstrara uma pontaria espantosa, e era melhor no facilitar.
	Acalme-se e pare de agir como uma... uma... uma mulher!
	Agir como uma mulher  melhor que agir como um jumento.
	Largue esse chinelo.
Luke aproximou-se mais um passo e ela ergueu o brao de forma ameaadora.
	Fique longe de mim.
	Se no largar esse chinelo imediatamente, juro que a colocarei sobre meus joelhos!  Nunca havia levantado a mo para agredir uma mulher em toda sua vida, mas estava comeando a pensar que poderia fazer uma exceo para a esposa.
	No se atreveria!  ela devolveu, mais furiosa que assustada. O calado permanecia pronto para ser arremessado.
	Se insistir em agir como criana, serei forado a trat-la como tal.
	Melhor ser criana que canalha!
	J chega  Luke decidiu, dando mais um passo na direo da esposa.
O chinelo encontrou sua testa, provocando um misto de susto e dor. A pequena bruxa tivera a ousadia de agredi-lo, apesar de todos os avisos. Luke tocou a rea atingida e sentiu que os dedos encontravam uma substncia mida e pegajosa. Sangue. O salto do chinelo havia cortado a pele.
Furioso, ergueu os olhos para a esposa e viu que ela estava plida, como se s ento se desse conta do absurdo que acabara de cometer. Com um grito apavorado, virou-se para tentar escapar da besta que despertara.
Luke a alcanou antes que houvesse descido dois degraus e jogou-a sobre a cama. Eleanor lutava como uma gata selvagem, as pernas desferindo chutes violentos na inteno de atingi-lo. Conseguiu acertar alguns golpes, mas no causou dano maior que alguns arranhes nos prprios ps que, descalos, foram feridos pelo couro das botas que ele calava. Tentou usar as mos para cont-los, mas a fora de Luke era muitas vezes maior que a dela. Em pouco tempo, viu-se debruada sobre os joelhos do marido, as pernas presas entre as dele, o peso de um dos braos sobre seus ombros.
	No se...  a ameaa inacabada transformou-se num grito assustado, quando a mo calejada encontrou seu traseiro. O tecido da camisola no oferecia proteo suficiente contra os golpes.
Luke preparou-se para mais um tapa, mas de repente ela comeou a sacudir os ombros num aparente acesso de choro. A culpa o fez parar. Deus, o que estava fazendo? No perdia a calma dessa maneira h muito tempo, tanto que nem podia lembrar a ltima vez. E l estava ele, agredindo a prpria esposa! Reduzira a pobrezinha a uma criana chorando e assustada, e olhar para os ombros sacudidos pelos soluos o fez sentir-se mais baixo que uma serpente.
 Eleanor.  Ele soltou-a e tentou ajud-la a levantar-se.
No instante em que sentiu-se livre do brao que a mantinha imvel, Eleanor virou-se como uma cobra e cravou os dentes na primeira poro de carne que encontrou. A coxa de Luke.
No fosse pela proteo da cala jeans, sabia que ela teria arrancado sangue, tal o ardor que experimentava.
Depois do grito de dor e surpresa, Luke levantou-se de um salto. Como Eleanor ainda estava sobre seus joelhos, o movimento a jogou no cho.
Durante alguns segundos encararam-se em silncio, os olhos de Luke quase negros, os de Eleanor brilhando com um misto de raiva e medo. A culpa que sentira antes por t-la agredido havia se transformado em arrependimento por ter parado, e perceber que estava amedrontada o enchia de uma satisfao primitiva, quase selvagem.
Em silncio, inclinou-se para ajud-la a erguer-se, mas Eleanor jogou o corpo para trs e tratou de erguer-se sozinha. Em seguida, lanou-se na direo da porta, mas a mo forte do marido em seu brao a fez parar. Quando se deu conta, estava novamente sobre , a cama, onde ele a jogara.
Dessa vez Luke sentia-se menos hesitante quanto a usar a fora fsica. A luta foi breve, e o desfecho, o esperado desde o incio. Em questo de segundos imobilizou-a com o peso do prprio corpo.
Ofegante e agitada, Eleanor parecia uma cerca de arame farpado, e provocava tantos ferimentos quanto os ns pontiagudos. Os cabelos haviam se soltado durante a briga, e agora caam sobre seu rosto, impedindo-a de enxergar. Ela soprava, tentando tir-los da frente dos olhos.
Notando seu dilema, Luke usou uma das mos para prender seus braos acima da cabea e, com a outra, afastou os caracis rebeldes de seu rosto.
	Agora vai me ouvir  disse com firmeza.
	Voc me bateu!
	S porque mereceu  ele respondeu, ignorando a nova onda de culpa.  Quase arrancou um pedao da minha perna com os dentes!
	Pena no ter sido sua cabea!
	Est agindo como uma criana. No sei nem por que ficou to furiosa!
	Tiraram a sorte com as palhas para decidir qual dos dois teria de se casar?
	Sim.  No fazia sentido negar.
	E voc tirou a palha mais curta, e por isso teve de se casar comigo?
	Eu no tive de me casar com voc. Apenas tinha de me casar com algum.  Se achava que essa informao serviria para acalm-la, estava completamente enganado.
	Casou-se comigo porque perdeu!
	No foi bem assim. Est colocando a coisa num nvel pessoal, Eleanor. Ns imaginamos que um dos dois teria de se casar, e ento...
	Por qu?
	Por que o qu?  Com o corpo colado ao dela, comeava a enfrentar dificuldades para concentrar-se no assunto. Se antes inflamara-se com o confronto f. I sico, agora comeava a pensar em maneiras bem diferentes e muito mais agradveis de gastar a energia I acumulada.
	Por que um de vocs tinha de se casar?  Era I evidente que Eleanor no enfrentava os mesmos problemas de concentrao.
	Bem, por causa da casa. Ela precisava de um toque feminino.
	Ela precisava de gua e sabo! Parecia que um I bando de ces raivosos havia estado aqui.
Luke no concordava com o exagero da colocao, I mas ela estava furiosa, e por isso decidiu no contrari-la. Com os olhos brilhando daquela maneira e o I corpo contorcendo-se sob o dele, estava disposto a concordar com qualquer coisa que ela dissesse.
	Sabamos que o lugar precisava de uma mulher I  disse, forando-se a prestar ateno na conversa.
	Por que no contrataram uma governanta?
	Pensamos nisso. Mas enfrentamos problemas com I as ltimas duas que contratamos, e uma esposa pareceu muito melhor  admitiu, sem perceber o engano I que cometia.
	Ora, seu...
	Afinal, qual  o problema com voc?  Luke perguntou furioso, sentindo que ela tentava agredi-lo novamente.
	Tire as mos de mim!
	Vai parar de tentar me matar?
	No!
De onde havia tirado a idia de que ela possua um temperamento dcil? Havia visto coiotes mais calmos, menos perigosos. Podia sentir todos os hematomas e ferimentos que ela conseguira provocar at agora.
No sei por que est to brava  tentou novamente, sem esconder a irritao.  Afinal, no nos casamos por amor.
Eleanor estava tentando libertar os braos da mo que os imobilizava acima de sua cabea mas, ao ouvi-lo, parou de repente. Por alguns instantes limitou-se a encar-lo em silncio, os olhos indecifrveis. Em seguida fechou-os, escondendo quaisquer emoes que pudessem vir  tona.
	 verdade, no nos casamos por amor  ela murmurou, demonstrando o primeiro sinal de bom senso desde que Luke entrara no quarto.
	Ento, por que est to furiosa?
Em vez de responder, ela formulou outra questo.
	Por que no contrataram uma governanta?
	Porque uma governanta no me daria um filho  ele respondeu, disposto a ser honesto a qualquer preo.  Eu disse que queria ter filhos, e para isso  necessrio uma esposa.
Luke gostaria de poder ler alguma coisa em sua expresso, mas Eleanor mantinha os olhos fechados e o rosto impassvel. Furiosa ou no, .era bom senti-a sob seu corpo e, quase sem perceber, ele moveu-se de maneira a acomodar a crescente excitao naquela espcie de ninho macio e feminino.
Desejava essa mulher como jamais havia desejado nenhuma outra. Maldio, no sabia nem por que estavam brigando! Que diferena fazia a razo pela qual tornara-se sua esposa? Estavam casados, e era isso que importava.
Sentindo a rigidez do marido e sua sbita mudana de disposio, Eleanor assumiu uma atitude de defesa, como um coelho que pressente a aproximao do caador. Os olhos encontraram os dele e ela viu o desejo que os iluminava.
	No  disse com firmeza, virando a cabea ao sentir que ele se inclinava para beij-la. Privado de sua boca, Luke contentou-se com a curva sedutora do pescoo ao alcance de seus lbios.
	Voc  minha esposa.
O toque dos lbios foi suficiente para acend-la. De repente, o corpo reagia como um instrumento afinado, sob as mos do mestre, mas preferia morrer a ceder nesse momento.
	Vai ter de me obrigar  disse, forando um tom
frio  voz.
Luke ergueu a cabea para fit-la nos olhos, onde viu uma imensa determinao. Podia realmente for-la a cumprir seus deveres conjugais, e sabia que seria capaz at de provocar uma resposta satisfatria sem usar da fora bruta, mas nunca impusera-se a nenhuma outra mulher em sua vida, e sentia desprezo pelos homens que usavam esse expediente, fosse com esposas ou amantes.
Respirando fundo, soltou-a e levantou-se antes que perdesse o controle. Se ela voltasse a toc-lo, mesmo que para agredi-lo, ro responderia pelos prprios atos.
Mas Eleanor no voltou a atac-lo. Levantando-se, tratou de ajeitar a camisola em torno das pernas nuas, o peito arfante alimentando suas fantasias.
	Avise-me quando esse ataque de birra houver acabado  Luke disse com voz rouca antes de sair e bater a porta.	
A caminho do terreiro, lembrou de apanhar o chapu na sala e enterrou-o na cabea, pensando em aceitar a sugesto de Daniel e ir dormir com os pees no alojamento. No... Preferia morrer a deixar que todos os caubis do rancho soubessem que sua mulher o atirara para fora da cama.
O celeiro estava aquecido, e o cheiro familiar dos animais o confortou. Reconhecendo o som de seus passos, um cavalo ps a cabea para fora da baia e re-linchou como que para cumpriment-lo. Pelo menos meu cavalo fica feliz por me ver, Luke pensou de mau humor, parando para afagar a cabea do animal.
Ainda no conseguia acreditar na exploso tempe-ramental de Eleanor. E pensar que se sentira capaz de apostar o prprio rancho na inexistncia desse temperamento! Daniel estava certo quando dizia que ainda estava para nascer uma mulher que no criasse cenas.
No era nenhum estpido, e podia compreender que uma mulher ficasse aborrecida ao saber que se casara porque o marido havia tirado a palha mais curta, mas estavam casados, e era isso que importava. Uma mulher podia no entender as coisas dessa maneira, e compreendia o aborrecimento de Eleanor. Se ela houvesse chorado, teria se mostrado mais que disposto a secar suas lgrimas.
Mas em vez de chorar ela tentara mat-lo! E teria conseguido, se fosse mais lento.
Eleanor... sua doce e meiga noiva.
Ainda no conseguia acreditar no que presenciara.
 Ela podia ter me matado!  disse para si mesmo.  Como podia adivinhar que ela era explosiva como um barril de plvora? Mulheres! Devia ter ficado solteiro!
No devia ter se casado com Luke McLain. Vivia melhor na casa dos tios, e pelo menos eles no haviam tirado a sorte na palha para decidir quem ficaria com ela, como se fosse um pacote indesejvel que algum tinha de carregar.
Um soluo a sacudiu. No estava sendo honesta. Tio Zebediah e tia Dorinda nunca haviam feito segredo sobre a contrariedade de terem sido forados a aceit-la. Resumindo, trocara uma casa onde ningum a queria por outra, onde o marido s a aceitara por ter perdido um jogo infantil e estpido.
Engolindo para conter o fluxo de lgrimas, Eleanor deitou-se de costas e olhou para o teto. O peito doa com uma mistura de mgoa e ressentimento. Afinal, o que havia de errado com ela? Teria cometido algum pecado imperdovel para ser punida dessa maneira cruel, forada sempre a viver onde no era querida ou desejada?
Mas Luke no havia dito que no a queria. Sentando-se na cama, tentou lembrar o que ele dissera.
Eu no tive de me casar com voc. Apenas tinha de me casar com algum.
Ento, depois de ter tirado a palha mais curta, ainda havia tido a oportunidade de escolher uma esposa. E a escolhera.
Eleanor levantou-se e atravessou o quarto para ir buscar um leno limpo. Secou o rosto, limpou o nariz e foi sentar-se numa velha cadeira de balano ao lado da janela.
Luke casara-se com ela por escolha prpria.
A idia aliviou parte da tenso em seu peito. Quaisquer que houvessem sido os motivos para se casar, no se casara com ela por ter tirado a palha mais curta. E como o prprio Luke apontara, no haviam se casado por amor.
Apesar da dor provocada pela lembrana, tinha de admitir que essa era a verdade. Luke nunca havia dito que a amava. E se havia sido tola o bastante para apaixonar-se por ele, o que ainda no admitira, no podia culp-lo pelos prprios sentimentos.
O problema era que entrara nesse casamento com estrelas nos olhos. Tentara convencer-se de que estava sendo prtica, mas havia sido uma criana romntica, e sempre sonhara com finais felizes. As duas ltimas semanas deviam ter matado isso nela. Luke j no deixara bem claro que queria uma esposa para cozinhar, limpar e arrumar?
Bem, para algumas outras coisas, tambm, ela lembrou, olhando para a cama vazia. No podia queixar-se do aspecto fsico de seu casamento, e sabia que o marido tambm no tinha do que reclamar.
Uma palha mais curta! Eleanor encolheu-se ao pensar nisso. Era tudo to distante de suas fantasias romnticas! Mas estavam casados, e s lhe restava fazer o melhor que pudesse da realidade que vivia. Agora que se acalmara o suficiente para pensar com clareza, tinha de admitir que as coisas podiam ser piores.
At agora, Luke havia sido um marido gentil... e at apaixonado, em alguns momentos. Pensar nisso provocava um calor que se espalhava por todo seu corpo, levando-a a desejar coisas que no devia querer. Para defender-se dos prprios impulsos, pensou no abuso fsico que sofrer pouco antes e deixou-se dominar novamente pela raiva.
E claro que ele havia sido provocado, e ainda podia lembrar o ferimento em sua testa. Talvez no devesse ter atirado aquele sapato. Mas ele merecera, no? Sim, e merecia coisa pior! S lamentava no ter provocado estragos maiores. Luke jamais devia ter decidido algo to importante com base num jogo de palhas.
Sem dvida chegara a parabenizar-se por ter conseguido uma noiva dcil, que no causaria problemas e o encheria de filhos, exatamente como desejava. Durante as duas ltimas semanas, comportara-se de maneira a confirmar essa suposio.
 Se agir como um capacho, no poder reclamar quando as pessoas passarem a trat-la como tal  murmurou para si mesma. Levantando-se, levou a mo ao traseiro dolorido e ergueu o queixo de um jeito que teria irritado tia Dorinda.
No podia mudar o passado. Estava casada, e o casamento com Luke McLain era certamente melhor que a vida que levava na casa de tio Zebediah. Francamente, era melhor at do que estar casada com Andrew Webb, cuidando de seus quatro filhos.
No. Mesmo com toda a raiva que ainda a incendiava, no podia dizer que lamentava ter se casado com Luke. Mas j era hora de fazer algumas mudanas, coisas mais importantes que simplesmente limpar e arrumar a casa. Luke havia conseguido uma esposa e, com a ajuda de Deus, tambm teria os filhos que queria, mas teria de compreender que no era a mulher dcil e obediente que imaginava.
Pensando bem, depois do recente encontro entre os dois, era bem provvel que ele j houvesse compreendido essa realidade. Eleanor sorriu e foi se deitar, sentindo-se melhor do que havia pensado ser possvel uma hora antes.

CAPITULO XI

Luke no sabia o que esperar de Eleanor quando a visse na mesa do caf da manh. Mas como uma pilha de feno no era exatamente uma cama confortvel, tivera tempo de sobra para pensar nas possibilidades ao longo da noite.
A imagem favorita havia sido a da reconciliao. Entraria na cozinha e encontraria a refeio matinal pronta, esperando por ele; montes de biscoitos dourados, bacon, batatas assadas e Eleanor posicionada para preparar ovos mexidos no ponto em que os apreciava. Aqueles grandes olhos castanhos estariam cheios de ternura e arrependimento, vermelhos depois das lgrimas de tristeza e solido, e o sorriso trmulo seria a maneira silenciosa de implorar por seu perdo.
Talvez no a perdoasse de imediato, decidiu, tocando o galo em sua testa. Mas eventualmente a desculparia e ento fariam as pazes. Um sorriso encurvou seus lbios, quando imaginou como seria essa reconciliao. Quando era garoto, ouvira o pai dizer que a reconciliao era a melhor parte de uma briga. Na poca no o compreendera, mas agora certamente o entendia.
Talvez Eleanor se oferecesse para beijar cada ferimento que infringira, pensou, deixando a imaginao vagar. Podia comear com o corte na testa e prosseguir at a mordida na coxa. A imagem acrescentou urna nova dor s j existentes.
O feno farfalhou sob seu peso, quando se moveu em busca de uma posio mais confortvel. Droga! No entendia por que a reconciliao tinha de esperar at o amanhecer. Eram casados, afinal! Tinha certos direitos, e um deles era dormir em sua cama. Se Eleanor no queria dividi-la, ela que fosse dormir no celeiro.
A indignao o fez sentar-se, pronto para voltar  casa e informar sua deciso  esposa. Estava pondo-se em p quando viu os olhos castanhos de Eleanor, cin-tilando com um misto de raiva e dor. Luke sentou-se novamente e constatou que a indignao transformava-se em culpa. Talvez a deixasse pensar um pouco, afinal.
S esperava que a exploso houvesse se esgotado ao amanhecer. Se no, talvez fosse inteligente insistir para que ela provasse toda e qualquer comida antes de servi-lo. Zangada como estava, no duvidava que tivesse a idia de acrescentar arsnico  receita de biscoitos. 
Luke no teve de preocupar-se com a possibilidade de encontrar veneno em sua comida. Na verdade, tambm no teve de ocupar-se com a disposio da esposa. Eleanor resolveu o problema desaparecendo por completo da cozinha. Melhor assim, Luke decidiu, enquanto ajeitava as fatias de bacon na frigideira. A ltima coisa que queria era lidar com uma mulher tempera-mental a essa hora da manh.
Havia acabado de servir-se da primeira xcara de caf quando Daniel entrou.
 O caf est pronto  disse.
Enquanto o irmo servia-se do lquido fumegante e aromtico, Luke fatiou mais um pedao de bacon.
	Onde est Eleanor?  Daniel perguntou, depois do primeiro gole.
	Dormindo.
Nesse instante os dois ouviram passos no quarto. Luke rangeu os dentes e prosseguiu na tarefa, tomando cuidado para no fatiar o dedo junto com o bacon.
	Ela est bem?
	Sim.
Alguns minutos de silncio no foram suficientes para tranqilizar o mais velho dos irmos. Luke conhecia Daniel o bastante para saber que ele voltaria  carga. Depois de retirar os pedaos de bacon da panela, comeou a quebrar ovos na gordura restante. Daniel encontrou o po que Eleanor assara no dia anterior e cortou algumas fatias. No era to bom quanto os biscoitos que ela preparava todas as manhs, mas serviria para aliment-los.
	Ela ficou aborrecida com o que ouviu ontem  noite? Sobre as palhas, quero dizer?
Sabia que ele faria a pergunta, e por isso respondeu-a sem hesitar.
	Um pouco, mas conversei com ela.  Estava dizendo a verdade. Haviam mesmo conversado.
	Ela no fez uma cena?
	Eleanor ouviu a voz da razo.  Luke apanhou dois pratos e dividiu a poro de ovos com bacon.
Daniel acrescentou as fatias de po aos pratos e os dois sentaram-se para comer.
	Pensei que ela o jogaria para fora de casa. Fiquei esperando que aparecesse no alojamento.
	Sou o dono desta casa  Luke respondeu com dignidade exagerada. Eleanor no o jogara para fora! Havia ido dormir no celeiro por deciso prpria.
	Mas 'estranho  Daniel balanou a cabea enquanto mastigava.
	O que h de to estranho?
	Bem, se Eleanor o houvesse posto para fora, tudo seria muito natural. Mas se ela no o expulsou, sendo voc o senhor desta casa, no entendo de onde veio todo esse feno no seu cabelo.
Eleanor ps as batatas cozidas na mesa e foi buscar a tigela de feijo com bacon e os biscoitos quentes. O prato com fils mal passados esperava no forno, aquecido. O molho que fervia numa panela de ferro estava quase no ponto, e uma terrina j o esperava sobre a pia. Limpando as mos no avental, aproximou-se da porta da cozinha para tocar o sino.
As mos tremiam um pouco quando voltou para despejar o molho na tigela. No falara com Luke depois da discusso da noite anterior, e no sabia como enfrentaria esse reencontro.
Os homens invadiram a cozinha como todos os dias, sujos e suados. Depois de duas semanas, j conseguia ligar os nomes s pessoas e comeava a conhec-los como indivduos separados da massa de msculos que invadia sua cozinha duas vezes por dia.
Eleanor levou a terrina de molho para a mesa. Luke e Daniel ainda no haviam aparecido, e os homens nem pareciam tomar conhecimento de sua existncia. Em silncio, acompanhou o habitual ataque  comida. Ignorando os utenslios de cozinha, todos lanavam-se ao mtodo mais prtico e rpido de agarrar as travessas e despejar generosas pores em seus pratos. Biscoitos voavam sobre a mesa como folhas secas carregadas por um tornado.
Quando Gris e Joe agarraram o mesmo bife, houve um rpido cabo de guerra sobre a mesa, que terminou com a vitria de Gris. Triunfante, ele j se preparava para cravar os dentes no to cobiado prmio, quando emitiu um grito de dor.
Eleanor havia acertado sua mo com a colher de pau. A terrina com batatas cozidas quase foi para o cho, quando Slim recebeu golpe idntico. Prudente, Shorty Danvers largou os biscoitos e escondeu as mos sob a mesa.
Houve um instante de silncio e todos se voltaram para a mulher pequena, porm determinada, que man-tinha-se ereta e firme perto da cabeceira da mesa. Ela segurava a colher de pau como se fosse a espada de um anjo vingador, e seus olhos cintilavam furiosos e severos.
	J vi animais com maneiras mais agradveis  disse.  Todos os dias vocs se sentam nessa mesa e atiram-se sobre minha comida como lobos famintos. Entram aqui sem limpar os ps e espalham sujeira e barro por toda a cozinha.
Todos viraram-se para examinar a evidncia das acusaes e baixaram os olhos com ar culpado.
	Sinto muito, senhora  Slim desculpou-se.  Nunca pensei em nada do que est dizendo.
A explicao desajeitada no foi suficiente para acalm-la. Eleanor apontou a colher em sua direo e Slim colou as costas  cadeira, empalidecendo sob o gesto ameaador.
	Tambm no pensou em lavar o rosto e as mos?
	No, senhora.
	Todos foram criados em celeiros?
	No, senhora  Shorty respondeu.  Eu no fui, e minha me teria ficado furiosa se me visse sentar  mesa sem lavar as mos.
	Ento, por que apresentam-se em minha mesa nessas condies?
Embora olhasse para Shorty, a pergunta era dirigida a todos os homens. Mas nenhum disse nada, deixando para Shorty a difcil tarefa de encontrar uma resposta que a satisfizesse.
	Acho que no h uma razo especfica, senhora. O fato de termos vivido sozinhos por tanto tempo nos fez esquecer a educao que nossas mes nos ensinaram. Todos afirmaram com a cabea, concordando com sua teoria e cravando os olhos temerosos no rosto furioso de Eleanor.
	Acham que sero capazes de lembrar algumas dessas regras de boa educao, se esforarem-se?
Era ridculo, mas de repente tinha a impresso de estar diante de um grupo de meninos desprotegidos, e por isso suavizou a voz.
	Sim, senhora.
Shorty levantou-se e os outros o imitaram, seguin-do-o at a varanda para lavarem as mos e o rosto no tanque dos fundos da casa. Eleanor os acompanhou com os olhos e viu quando o ltimo da fila parou para dar passagem aos dois recm-chegados.
Luke e Daniel.
O brilho divertido nos olhos do cunhado no passou desapercebido, demonstrando que haviam estado ali por tempo suficiente para ouvir pelo menos a ltima parte de seu sermo. A reao de Luke no foi to fcil de distinguir, pelo menos nos dois ou trs segundos que ela dedicou a estud-lo.
	Acho que nunca havia visto ningum gritar com Shorty Danvers  Daniel .comentou, passando pelo irmo para aproximar-se da mesa.  Muitos desses homens reagiriam de maneira agressiva a muito menos do que acabamos de testemunhar, mas os rapazes parecem mansos como cordeiros depois desse sermo, Eleanor.
	No vejo motivo para comerem como animais  ela resmungou, limpando a mesa e usando o trabalho como desculpa para no encarar o marido, que acabara de sentar-se.
	Quer verificar nossas orelhas para ter certeza de que estamos limpos?  ele perguntou, despertando novamente a ira da esposa.
 Talvez no seja m idia. Parece que os pees no foram os nicos a esquecer as regras da boa educao.
O olhar que ela lanou em sua direo fez Luke compreender que uma noite e uma manh a ss no haviam servido para aplac-la. Daniel sorria do outro lado da mesa, certamente recordando sua determinao em encontrar uma noiva dcil e calma. Se soubesse que chegara a mord-lo...
Se no tivesse outras coisas em mente, Eleanor teria se divertido com a demonstrao de boas maneiras  mesa do jantar daquela noite. Cada vez que olhava para Luke, lembrava que no haviam exatamente esclarecido as coisas na noite anterior, e era irritante v-lo comer com o mesmo apetite de sempre, como se nada houvesse acontecido.
Os homens partiram assim que terminaram de comer e, contendo o riso, ela os viu agradecer pela refeio antes de se despedirem com sutis acenos de cabea.
Felizmente Luke e Daniel os seguiram. Quanto mais pudesse adiar o momento do confronto com o marido, melhor. Quanto a Daniel, no estava menos aborrecida com ele. Os dois haviam tirado palhas para decidir quem se casaria, e era humilhante saber que mais algum conhecia as circunstncias de seu casamento.
Luke subiu a escada devagar. Vira o brilho da lamparina no quarto e sabia que Eleanor ainda estava acordada. Nas semanas anteriores ao casamento, muitas vezes imaginara como seria saber que a esposa o esperava sob as cobertas, mantendo a cama quente. Sonhara com o sorriso doce e o brilho ansioso que veria em seus olhos.
Depois da noite anterior, era como se a nica coisa capaz de despertar a ansiedade da mulher com que se casara fosse seu sangue.
Considerando a maneira como tratara os pees do rancho na hora do almoo, no esperava que ela casse de joelhos e se dissesse arrependida pela cena da noite anterior. Na verdade, admitia sentir um certo orgulho relutante pela forma como ela enfrentara aquele bando de selvagens.
Havia sido uma cena inesquecvel, mas ela que no tentasse intimid-lo da mesma maneira. No tinha a menor inteno de permitir que a esposa assumisse o comando da casa e do rancho.
A porta do quarto estava entreaberta e Luke aproximou-se com cautela. Sabia que ela tinha uma pontaria invejvel, e preferia no pensar que tipo de arsenal pudera reunir ao longo do dia. Devagar, empurrou a porta e entrou, pronto para atirar-se ao cho, se fosse necessrio.
Eleanor estava sentada na cadeira de balano, os dedos ocupados com um trabalho de costura. Um olhar foi suficiente para que Luke reconhecesse o velho vestido que havia sido de sua me. Havia meia dzia de bas com roupas femininas no sto, e j havia dito  esposa que podia usar as coisas como bem entendesse.
Apesar de t-lo ouvido entrar, ela no desviou os olhos do trabalho para encar-lo. Era a imagem da tranqilidade domstica, calma e constante como uma chuva de primavera. No fosse pelo tremor das mos, Luke teria pensado que ela era indiferente  sua presena.
Eleanor podia sentir os olhos atentos a seus movimentos, e precisou de enorme concentrao para fingir-se concentrada no tecido espalhado sobre seu colo.
De repente, Luke fechou a porta e ela pulou, como se o estalido metlico da porta fosse um tiro.
Consciente do tremor que sacudia suas mos, deixou a tesoura de lado e cruzou os dedos sobre as pernas. Com esforo, ergueu a cabea e obrigou-se a realmente enxergar o marido pela primeira vez desde a terrvel discusso da noite anterior.
Como culp-lo pelo ressentimento que brilhava em seus olhos? Suspirando, olhou para o ferimento em sua testa e pensou no que fazer. Sabia que devia desculpar-se, dizer que estava arrependida por t-lo ferido com o chinelo, mas no sabia mentir. Apesar de haver superado o pior da raiva, ainda tinha a sensao de que ele merecia cada leso que conseguira provocar. Sim, certamente as merecera, decidiu, ajeitando a almofada que colocara entre a cadeira e as costas.
Ao v-la mover-se com evidente desconforto, Luke sentiu-se culpado. Mas foi uma sensao passageira. Podia estar seriamente ferido depois do confronto da noite anterior, e a dor que a incomodava no podia ser mais intensa que aquela que sentia na testa e na perna, onde ela o mordera.
	No tente trazer um daqueles bas do sto sozinha  ele disse de repente, apontando para o vestido em seu colo.  So pesados demais. Se eu no estiver por perto, pea ajuda a Daniel ou a um dos pees. Depois do que fez com eles hoje, duvido que se recusem a atender um pedido seu, mesmo que seja absurdo.
Eleanor no favoreceu a tentativa de humor com um sorriso, porque no sentia vontade de rir.
	Estava cansada de v-los comer como animais.
	Acho que isso ficou bem claro.  Talvez possamos simplesmente esquecer a noite passada, ele pensou com certo alvio, dando alguns passos na direo do centro do quarto e desabotoando a camisa.
	Prefiro que v dormir em outro lugar.  As palavras saram apressadas, como se temesse no ser capaz de pronunci-las.
Luke parou, os olhos iluminados por um sbito brilho gelado.
Somos casados  ele disse com tom neutro, como se isso explicasse tudo.
Sim, eu sei. E tambm sei que tem todo o direito de dormir nessa cama. E de exigir seus direitos conjugais.
Voc nunca fez qualquer objeo a esses direitos.
Eleanor ficou vermelha, mas prosseguiu como se ele no houvesse falado.
	S estou pedindo um tempo. Sei que nosso casamento no foi um... encontro amoroso, mas foi chocante descobrir que se casou comigo por ter perdido uma aposta.
	No fui obrigado a me casar com voc, droga!
	Eu sei. Mas no  muito agradvel saber que tiraram a sorte nas palhas para saber quem teria de se casar.
	No era voc que estava sendo disputada naquelas palhas.
	Sim, mas no posso deixar de pensar no que teria acontecido se Daniel houvesse tirado a palha mais curta.

	O que isso tem a ver com o que estamos discutindo?
	Se ele houvesse perdido a aposta, teria de encontrar uma esposa. Bem, Daniel poderia ter me escolhido, exatamente como voc fez. A essa altura, eu podia estar casada com seu irmo.
	No!  A rapidez da exploso o assustou. Luke respirou fundo e continuou com tom mais calmo.  Isso no teria acontecido.
	Talvez no. Daniel poderia ter concludo que havia uma mulher melhor para limpar, cozinhar e ter filhos. Mas o resultado final seria o mesmo: voc e eu no estaramos casados.
	Mas estamos casados!
	No estou tentando negar a realidade.
	Algumas pessoas acreditam que dividir uma cama faz parte do casamento  ele comentou com sarcasmo.
	Eu sei, e no estou pedindo para se mudar permanentemente. S quero algum tempo para me adaptar a essa nova idia.
	Quanto tempo?
	Alguns dias, talvez. No  pedir demais, ?
Uma hora seria demais! Doa para t-la em seus
braos desde a noite anterior, mas no foraria suas atenes sobre mulher alguma, mesmo que a mulher em questo fosse sua esposa.
Quem poderia imaginar que uma mulher to pequena e delicada acabaria se mostrando to teimosa? Sentia-se capaz de enfrentar outra crise de nervos, mas como um homem conseguiria demover algum que demonstrava um raciocnio to firme e calmo?
	Est bem, vou lhe dar esse tempo  Luke suspirou.
	Obrigada.  Agora que havia conseguido o que queria, Eleanor brindou-o com um sorriso doce.
	Avise-me quando tiver pensado o suficiente. E no pense que vou esperar para sempre.
Luke saiu sem esperar por uma resposta, e o estalido do trinco da porta marcou o final da discusso.
A meio caminho da escada ele parou, pensando em ir dormir em seu antigo quarto, mas um som no dormitrio de casal o fez seguir em frente. Estaria melhor no celeiro, bem longe da mulher por quem se sentia arder.
Gostaria de jamais ter pensado nessa instituio denominada casamento. Pelo que vira at agora, seu nico propsito era tirar a paz de esprito de um homem e bot-lo para fora de sua prpria casa.
Tempo... Pois bem, Eleanor teria o tempo que havia pedido, mas no esperaria eternamente. Estava ficando velho demais para passar as noites sozinho no celeiro.

CAPTULO XII

	Eles sortearam as palhas?  Letty perguntou com voz chocada.  Tiraram a sorte para decidir qual dos dois se casaria?
	E o que perdesse teria de encontrar uma esposa.  A voz de Eleanor expressava raiva. Tivera uma semana para pensar no assunto, mas ainda no se ajustara  idia.  Como Luke tirou a palha mais curta, ele teve de se casar.
	No acredito que eles tenham tomado uma deciso to importante de maneira to... infantil. Tirar palhas! Parece impossvel.
	Mas no . O prprio Luke admitiu toda a histria.
	 espantoso  Letty balanou a cabea e deixou a xcara de ch sobre a mesa a seu lado.
Estavam sentadas na sala da casa dos McLain. Com as cortinas abertas, a luz do sol incidia sobre as superfcies polidas e brilhantes. Uma brisa suave de incio de vero penetrava pelas janelas abertas. A sala cheirava a limpeza, refletindo todo o cuidado que recebera nas ltimas semanas.
Eleanor sempre quisera um lar, e o conquistara ao casar-se com Luke. Mas, nos ltimos dias, percebera que ter um lugar para chamar de seu havia sido a parte menos importante de seu sonho. Sem algum para amar, algum que a amasse, uma casa era apenas uma casa. Precisava de mais do que quatro paredes e uma lareira para preencher o vazio em seu corao.
	Ele no teve de se casar com voc, teve?  Letty perguntou, buscando um aspecto positivo na situao da amiga.  Se escolheu voc, mesmo sem ter sido obrigado, isso prova alguma coisa.
	Prova que eu sou a mulher mais idiota que ele conseguiu encontrar.
	Isso no  verdade. Sabe muito bem que existem muitas mulheres solteiras em Black Dog, e at algumas casadas, que teriam agarrado com unhas e dentes a chance de se casar com Luke McLain. E a menos que seja cego, surdo e tolo, Luke tambm sabia disso. No esquea que sua prima Anabel praticamente se atirou sobre o pobre coitado. Sendo assim,  evidente que ele teve uma razo para cortej-la.
	 verdade.  Eleanor sentiu-se um pouco mais animada. Letty no estava dizendo nada que j no soubesse, mas ouvir as palavras de outra pessoa conferia uma certa segurana. Mas ainda era terrvel saber que Luke e Daniel haviam tirado a sorte para saber quem ia se casar.
	Luke sabe que descobriu toda essa histria?
	Sabe.
	Espero que tenha demonstrado claramente seus sentimentos com relao ao que fizeram.
	Acho que ele teve uma boa idia.  Atingi-lo na cabea com um chinelo havia sido suficiente para expressar sua opinio.
	Meu Deus! Tirar as palhas, francamente! Fazia uma idia melhor sobre Daniel. E sobre Luke,  claro  ela acrescentou apressada, notando o olhar interessado da amiga.
	 claro.  No era a primeira vez que Letty mencionava o nome de Daniel. Apesar dos ltimos aborrecimentos, aprendera a gostar do cunhado, e se a amiga se interessasse por ele... Seria maravilhoso t-la como cunhada. Eleanor arquivou o pensamento para consideraes futuras. Se pudesse aproxim-los um pouco mais...
A oportunidade surgiu antes do que esperava.
Meia hora mais tarde, as duas estavam despedindo-se na varanda, quando Daniel surgiu no terreiro do rancho. No reconheceu a carroa parada diante da escada, mas ao ver que Eleanor tinha companhia, no foi difcil deduzir a identidade da visitante. Notara Letty Sinclair no casamento do irmo. Que homem no notaria uma mulher com todas aquelas curvas e cabelos negros e sedosos que pareciam suplicar por um afago? Se no estava enganado, ela era viva. E sempre tivera uma queda por vivas. Com um movimento rpido dos ps, acelerou o trote do cavalo e aproximou-se das duas.
Ao parar junto da varanda, tirou o chapu da cabea e sorriu.
	Boa tarde, Eleanor. Sra. Sinclair.
	Boa tarde, Daniel.
Eleanor no se mostrava to simptica desde que descobrira que ele e o irmo haviam tirado a sorte para decidir quem se casaria.
	Sr. McLain.  O cumprimento frio o fez pensar na possibilidade da cunhada ter contado a histria das palhas  amiga, e a idia provocou um certo desconforto.
	Oh, Deus! Esqueci o po no forno!  Eleanor exclamou.  Com licena.
	Estou de partida  Letty avisou.
	Por favor, espere mais alguns minutos. Quero me despedir com calma. Voltarei num instante.
Eleanor saiu apressada, deixando um silncio pesado s suas costas.
	Belo dia  Daniel comentou.
	Sim.
Ele esperou, mas Letty no parecia ter mais nada a dizer. Talvez fosse tmida. Uma viva tmida... No era exatamente o que andava procurando, mas gostava de enfrentar desafios.
	E uma longa viagem at a cidade  tentou.
	No realmente.
	 um caminho longo para uma mulher percorrer sozinha.

	Estou habituada a cuidar de mim mesma. Apesar do tom frio, Daniel decidiu perseverar.
	No  seguro para uma mulher sozinha.
	Uma mulher sozinha est sempre em segurana, sr. McLain. Os riscos comeam quando ela se encontra em companhia de um homem.
Daniel riu. Gostava de mulheres com presena de esprito.
	Talvez seja melhor acompanh-la at em casa, sra. Sinclair. Quero'ter certeza de que chegar na cidade s e salva.
	No  necessrio, obrigada.
	Se no tomar cuidado, vai me dar a impresso de que no quer minha companhia.
	E eu que j estava comeando a pensar que no era to inteligente quanto eu imaginava!
O sorriso era to brilhante que Daniel precisou de alguns instantes para perceber que havia sido insultado.
	Tenho a impresso de que no gosta de mim, sra. Sinclair.
	No o conheo, sr. McLain. E no tenho nenhum desejo de conhecer um homem que tira a sorte para decidir o futuro de uma mulher.
	Estvamos decidindo o nosso futuro  Daniel corrigiu, a voz mais spera do que pretendia. Gostava da cunhada, e a dor que vira em seus olhos recentemente o fazia sentir-se mal com relao ao que ele e o irmo haviam feito. No precisava que mais algum apontasse seus erros.
	Escolheram uma maneira bem estranha de decidir o futuro, sr. McLain. Usaram um jogo infantil para decidir o futuro de trs adultos.
	Vejo que minha presena a incomoda, senhora --- ele falou, irritado. No gostava de ser censurado,
especialmente por uma mulher muito mais jovem e to bela.   melhor partir. Tenha um bom dia.
	Bom dia, sr. McLain  Letty respondeu altiva.
Daniel puxou as rdeas do cavalo e afastou-se.
Mulheres! Quem precisava delas?
Eleanor voltou  varanda a tempo de ver o cunhado partindo.
	Para onde ele vai?
	No sei.

	Vocs discutiram?  ela perguntou, estudando o rosto congestionado e os olhos brilhantes da amiga.
	Certamente no! No conheo o sr. McLain a ponto de discutir com ele. E no pense que no percebi suas intenes, Eleanor. No tente bancar o cupido comigo.
	No sei do que est falando. S fui verificar o po que havia deixado no forno.
	Se eu quisesse agarrar Daniel McLain, e note que eu disse se, trataria do assunto pessoalmente,  minha maneira e quando julgasse conveniente. E no tenho a menor inteno de perder tempo com esse assunto.
	Tem de admitir que  um belo rapaz.
	A beleza no  to importante  Letty devolveu, descendo os degraus para ir acomodar-se na pequena carroa.  J tem preocupaes demais sem tentar encontrar um marido para mim, Ellie.
Ao despedir-se da amiga, Eleanor foi obrigada a admitir que ela havia dito uma grande verdade. Tinha preocupaes mais que suficientes. Suspirando, acenou pela ltima vez e voltou para dentro da casa. Quase duas semanas haviam se passado desde a discusso com Luke, desde que pedira algum tempo para ajustar-se aos verdadeiros motivos de seu casamento. Ele havia concordado, e agora comeava a perguntar-se se a solicitao no fora um engano.
Eleanor foi at a sala e comeou a recolher as xcaras do ch sobre a bandeja. O que a aborrecia era o fato da cama parecer vazia sem Luke, e at agora ele no demonstrara a menor ansiedade para voltar a ocupar seu lugar nela. Desde a noite em que sara do quarto batendo a porta, tratava-a com uma frieza que parecia congelar seus ossos! Era como se fosse apenas uma governanta.
Teria sido um erro mand-lo dormir em outro lugar? O que esperava conseguir? Eram casados, e nada mudaria essa realidade. Como nada mudaria as circunstncias em que esse casamento comeara.
Eleanor suspirou ao levar a bandeja para a cozinha. Talvez houvesse se deixado levar pelo temperamento. E se tudo que conseguisse fosse faz-lo lembrar como era fcil viver sem ela? No tinha a beleza da prima Anabel, e no era uma dessas mulheres que faziam um homem arder de desejo. Talvez houvesse dado ao marido a chance de perceber que preferia dormir sozinho.
Deixando a bandeja sobre a mesa da cozinha, Eleanor comeou a guardar os utenslios, usando o trabalho como uma maneira de ocupar a cabea. Reformara dois vestidos da me de Luke, e as cores vibrantes a favoreciam mais que tudo que j usara. Sabia, sem falsa modstia, que ficava quase bonita neles. Jamais seria linda como a prima, mas tambm no era nenhum castigo para os olhos.
Alisando a saia de um tom profundo de rosa, imaginou se Luke teria notado sua aparncia.
Luke havia notado.
Notara o brilho corado de sua pele, a escurido lus-trosa dos cabelos, a maneira como os olhos castanhos cintilavam quando sorria... no que houvesse sorrido para ele ultimamente. Notava as curvas suaves de seu corpo, os movimentos femininos dos lbios... Havia pouco em Eleanor que no notasse.
Luke jogou o chapu para trs e deixou a brisa da tarde refresc-lo. Passara a maior parte do dia retirando as rochas que haviam deslizado de uma encosta, bloqueando a nica nascente de onde tirariam gua durante todo o vero. E se as ltimas semanas serviam como indicao, seria um vero quente.
Quente... A palavra o fez pensar em Eleanor, como fazia durante quase todo o tempo nos ltimos dias. A atitude de sua esposa era to fria quanto o tempo era quente. Acreditara que o casamento tornaria a vida mais simples, mas agora percebia que havia cometido um engano. Quando uma mulher tornara alguma coisa mais simples?
Bastava pensar em como ela criara um escndalo por algo que nem lhe dizia respeito. Se nem a conhecia quando havia tirado a sorte nas palhas! Que diferena fazia como haviam se casado? Estavam casados, e isso era o que contava. Eleanor estava apenas sendo teimosa e... encarando toda a situao do ponto de vista feminino.
Luke acendeu um cigarro e franziu a testa, ao ver a casa surgir  sua frente. No devia ter deixado Daniel convenc-lo a se casar. Viviam muito bem sem a presena de uma mulher nessa casa. Comida saborosa e limpeza no eram suficientes para compensar os problemas que elas criavam. E no momento, esses eram os nicos benefcios que obtinha com o casamento.
Pensar nos benefcios que deixava de obter o fez franzir a testa. Estava cansado de dormir no celeiro. Mas preferia o desconforto a mudar-se para o alojamento e deixar os pees saberem que fora expulso da prpria cama. Pela maneira como tratavam Eleanor ultimamente, todos acabariam deduzindo que fizera por merecer o tratamento. Ela conseguira transformar seus empregados num bando de colegiais ansiosos para agradar a professora idolatrada.
Luke rangeu os dentes. Ela podia ter domado os pees, mas era feito de matria mais dura, e no se deixaria dominar por uma mulher. Se pensava que ia pedir de joelhos para voltar para a cama, estava enganada. Um homem no pedia para partilhar do leito da esposa; esse era seu direito aos olhos de Deus e da lei. A nica razo pela qual ainda no fizera valer esse direito era que estava se tornando generoso, dando  esposa o direito de superar uma crise. Em breve fincaria os ps no cho e a faria compreender que o jogo chegara ao fim. Talvez tomasse uma atitude ainda esta noite, depois do jantar.
A idia de passar a noite entre lenis limpos, em vez de dormir sobre o feno, foi suficiente para mudar seu estado de nimo. Pensando bem, no foram os lenis que o fizeram sorrir. Sentia falta do conforto de uma cama, mas se fosse s isso poderia ir dormir em outro quarto. O que queria realmente era Eleanor a seu lado na cama. Havia mais num casamento que boa comida e uma casa limpa, maldio! Havia sido mais paciente que qualquer outro homem teria sido, mais do que tinha motivos para ser.
Essa noite faria valer a lei.
Ao aproximar-se da casa, Luke notou um movimento no terreiro. Os lenis em que acabara de pensar estavam estendidos no varal, secando ao sol de final de tarde. Tentou recordar a ltima vez em que havia visto lenis brancos pendurados no varal, mas a memria recusou-se a cooperar. Talvez no houvesse voltado a v-los desde a morte da me.
Entre uma governanta e outra, ele e Daniel haviam lavado as roupas to raramente quanto possvel, e as estendiam para secar sobre um arbusto qualquer, mas precisara de pouco tempo para habituar-se novamente aos prazeres de vestir roupas limpas e costuradas.
Com relao  comida e  limpeza, Eleanor era tudo que um homem podia querer. Conseguira transformar a casa num lar e restaurar a atmosfera civilizada que sua me sempre fizera questo de manter. Ela teria gostado de Eleanor, Luke pensou, vendo os lenis se agitarem ao vento. Lucinda teria admirado a coragem de Eleanor, e provavelmente teria concludo que ele merecia o castigo de dormir no celeiro, ele admitiu relutante.
A porta da cozinha se abriu e ela apareceu na varanda. Luke puxou as rdeas e parou, vendo-a aproximar-se do varal, admirando o balanar dos quadris sob o vestido e os reflexos avermelhados que o sol criava em seus cabelos. Sentiu o desejo invadi-lo, uma fome que ia alm do aspecto puramente fsico.
Sentia falta dela, droga! No s da presena de um corpo quente em sua cama, mas do sorriso doce e do som alegre e melodioso de sua gargalhada. Se soubesse que o casamento seria uma coisa to complicada, teria surrado Daniel e empurrado o irmo para ao altar.
Eleanor comeou a tirar as roupas do varal. Luke ficou onde estava. O vento da plancie era excelente para secar os lenis, mas tinha outros efeitos mais prosaicos, como moldar as pernas bem torneadas sob a saia do vestido e colar o tecido fino do corpete aos seios fartos, provocantes. De repente a cala jeans tornou-se apertada, incmoda.
Preparou-se para pr o cavalo em movimento, mas parou ao ver algum sair correndo do alojamento. Gris Balkin atravessou o rancho numa velocidade que o fez arregalar os olhos. H trs dias Gris pisara num buraco de marmota e torcera o tornozelo. O inchao havia sido to imediato e impressionante, que foram forados a cortar sua bota. Eleanor os ajudara com a atadura e Luke o mandara ficar fora de circulao at que estivesse melhor. Gris no gostara muito de ficar confinado aos limites do terreiro, mas passara o tempo trabalhando em alguns reparos necessrios e na limpeza das ferramentas.
E ajudando sua esposa, Luke pensou desconfiado, vendo-o correr em direo ao varal. Eleanor virou-se e sorriu para o peo, e Luke apertou os lbios num gesto aborrecido. Se no sorria para ele, no devia sorrir para nenhum outro homem. Ignorando a voz interior que o alertava para o fato de estar extravasando sua contrariedade em Gris, cravou os calcanhares nos flancos do animal e aproximou-se da dupla parada perto do varal. Eleanor era sua esposa. Algumas pessoas pareciam ter esquecido disso.
Deixe-me ajud-la com isso, sra. McLain.
Eleanor virou-se e franziu a testa ao ver Gris aproximar-se mancando.
	Devia estar descansando e pousando o tornozelo  disse, censurando-o com tom doce.
	Se continuar muito tempo no mesmo lugar, vou acabar criando razes.
	Duvido. Pelo que ouvi dizer, est para nascer o caubi capaz de criar razes.
Gris abaixou-se para apanhar a cesta de roupas e carreg-la ao longo do varal, seguindo-a de maneira solcita e atenciosa.
	Acho que tem razo, senhora. Nunca pensei muito em me estabelecer definitivamente. Meus pais estavam sempre se mudando, sempre buscando o que havia alm da prxima colina, e nunca passei muito tempo num mesmo lugar. Sempre achei que minha vida seria assim, mas ultimamente tenho pensado muito em ter um lugar s para mim, talvez uma mulher, tambm. 
Isto , se puder encontrar uma que me queira.
	Est interessado em algum em particular?  Eleanor perguntou, sem desviar os olhos das roupas que ia recolhendo.
	Bem... sim. Eu a conheci na ltima vez em que estive em Denver. Ela tem cabelos dourados e grandes olhos castanhos.
	Parece ser muito bonita.
	 a coisa mais linda que j vi  Gris respondeu com entusiasmo.  Mas seu pai possui um armazm, e duvido que algum dia ela me d ateno.
	No saber at tentar. Acho que uma mulher seria muito feliz a seu lado  disse, dobrando uma camisa de Luke e deixando-a na cesta, o rosto subitamente pensativo. O sonho de Gris no era muito diferente do dela: uma casa e algum para amar.
	No sei se tenho muito a oferecer  ele observou com honestidade dolorosa.  As mulheres se interessam por detalhes...
	As mulheres no querem s beleza, Gris. Querem algum que as ame e respeite, algum que as faa sentir que so realmente importantes. Alm do mais, acho que voc  muito bonito -^ concluiu, sabendo que mentia para tranqiliz-lo. Gris no era exatamente 0 tipo de homem capaz de fazer derreter coraes femininos, mas havia um certo encanto no sorriso cheio de falhas e na natural simpatia de seu olhar.
Gris encarou-a como se de repente houvesse cria-do asas, os olhos castanhos pensativos e cheios de admirao.
	Est falando srio, sra. McLain?
	Sobre o qu?  a voz inesperada os fez pular.
Luke surgiu por entre dois lenis para confront-los, sem saber por que usara tticas mais apropriadas para combater os ndios quando s desejava aproximar-se da esposa e de um empregado. No esperava surpreend-los trocando segredos picantes. Mas ao ver Eleanor sorrindo para Gris, sentira algo indefinvel que o fizera sentir vontade de esmurrar o peo e carregar a mulher para dentro de casa pelos cabelos,  maneira dos selvagens.  E ento, sobre o que conversavam?
Eleanor respirou fundo, tentando conter as batidas rpidas do corao. Queria acreditar que a reao fsica era provocada apenas pela surpresa, mas sabia que a verdade era outra. Sentia-se atordoada sempre que o marido estava por perto, e o fato de estar furiosa com ele no mudava nada.
	Estava apenas oferecendo alguns conselhos a Gris  disse.
	Oh?
O olhar que o patro lanou em sua direo o fez engolir em seco. Gris moveu-se devagar, tentando livrar o tornozelo ferido do peso do corpo.
	Ia carregar o cesto para a sra. McLain  ele explicou.
	Posso cuidar disso sozinha, Gris. Mas obrigada por oferecer.
Gris despediu-se e, de cabea baixa, afastou-se mancando.
	Ele  um bom rapaz  Eleanor comentou, nervosa por estarem sozinhos.
	Rapaz? Ele  pelo menos seis anos mais velho que voc.
. Pois para mim parece muito jovem  ela respondeu com um encolher de ombros, virando-se para retomar a tarefa de recolher as roupas.
	Que tipo de conselhos estava dando a ele?
	Tolices.
	Que tipo de tolices?
Ento a ignorava por duas semanas e de repente a submetia a um interrogatrio? Furiosa, jogou o ltimo lenol na cesta e virou-se para encar-lo, as mos na cintura numa atitude desafiante.
	Se quer mesmo saber, Gris estava preocupado com a possibilidade de no ser belo o bastante para atrair uma mulher.
Luke ergueu uma sobrancelha e deixou escapar uma gargalhada.
	Aquele moleque magrela?
	Como voc mesmo acabou de apontar, ele  bem mais velho que eu. Tem idade suficiente para estar pensando em constituir uma famlia.
	Ah...  De repente perdia o interesse pelos planos de Gris. Queria agarr-la pelos cabelos e beij-la at arrancar suspiros de sua adorvel garganta, e depois...
	Acho que Gris ser um marido romntico  Eleanor comentou, interrompendo as fantasias de Luke.  Talvez leve flores para a esposa, ou leia poemas...
A idia do peo lendo um poema o fez rir.
	Acho que no. A ltima vez em que ouvi Gris recitando versos foi depois de ter secado uma garrafa de usque barato. E o poema no era exatamente adequado aos ouvidos de uma dama.  melhor que se contente com as flores.
	Ele pode aprender um poema adequado aos ou. vidos de uma dama  Eleanor provocou.
	Talvez, mas  pouco provvel.
	Talvez ele possa disputar o jogo das palhas com a namorada. Como acha que funcionaria? Se tirar a palha mais curta, Gris ter de se casar com a jovem. Se no...
	Isso no teve nada a ver com voc.
	J ouvi esse argumento  ela respondeu, abaixando-se para apanhar o cesto de roupas.  Deixei um po no forno  e passou por ele de cabea erguida.
Luke a viu afastar-se. Ela continuava atirando a histria das palhas em seu rosto, como se pudesse fazer alguma coisa para mud-la. Queria ficar furioso com essa mulher teimosa e decidida, mas de repente lembrou o que ela estava dizendo a Gris quando se aproximou. As mulheres no querem s beleza. Querem algum que as ame e respeite, algum que as faa sentir que so realmente importantes. E quando mencionara a possibilidade do peo levar flores ou ler poesia para a mulher amada, ouvira uma nota de desprezo em sua voz que o fizera sentir-se o mais baixo dos homens.
Nunca a cortejara. Havia visto Eleanor, decidira que ela era perfeita para suas necessidades e fizera sua proposta. Sentira-se aliviado quando ela no insistira em toda aquela tolice que normalmente acompanha um casamento. Havia feito, agora percebia com desconforto, exatamente o que Sean Mulligan dissera que no devia fazer. Escolhera uma mulher como se fosse um cavalo. Procurara boa aparncia, disposio, e fora arrogante o bastante para pensar que isso era tudo.
A porta da cozinha se fechou atrs de Eleanor e Luke virou-se. De testa franzida, voltou para o lugar onde deixara o cavalo. O casamento no era to simples quanto imaginara, mas estava disposto a fazer algumas adaptaes. Havia mais de uma maneira de pegar moscas... ou conquistar uma esposa.

CAPTULO XIII

Quando Eleanor abriu os olhos, a primeira coisa que viu foram as flores sobre o travesseiro a seu lado.
Luke.
Surpresa, sentou-se e olhou em volta, mas estava sozinha. Ele entrara quando ainda dormia e deixara o delicado buqu para que o encontrasse ao acordar. Saber que ele estivera no quarto fez seu corao bater mais depressa. Teria sentido vontade de acord-la, talvez at com um beijo?
Eleanor apanhou o buqu e levou-o ao nariz, deliciando-se com o aroma do campo. Sorrindo, deixou que as lgrimas de alegria cassem de seus olhos.
Luke havia trazido flores.
Luke viu as flores assim que entrou para tomar caf. Eleanor as deixara no vaso que havia sido de sua me, perto da janela, e a viso do buqu mirrado, quase pattico, o fez encolher-se. Talvez no houvesse sido uma boa idia, afinal.
Mas quando ela virou-se do fogo e o viu, o rosto iluminado por um sorriso doce e os olhos brilhando como poucas vezes havia visto, Luke congratulou-se pela idia. Eleanor abriu a boca para dizer alguma coisa, mas a entrada de Daniel a impediu de manifestar-se.
	O caf est pronto  ela anunciou, virando-se de costas para servir os pratos.
Luke sentou-se  mesa e apreciou as curvas suaves do corpo da esposa. Ela usava um vestido discreto, nada sedutor. Mas de repente Luke se lembrou da imagem que encontrara ao entrar no quarto naquela manh e foi tomado de assalto pelo desejo. O rosto corado contrastando com a fronha branca, a trana que prendia seus cabelos encaracolados, o brao descansando sobre o lenol... Por pouco no cedera ao mpeto de deitar-se ao lado dela e despert-la com um beijo. Queria encerrar essa guerra entre eles, mas de maneira digna e leal, e por isso havia sado sem toc-la.
O caf da manh era sempre uma refeio quieta, e essa manh no foi diferente das outras. Os caubis preparavam o prprio caf no refeitrio, o que deixava a cozinha apenas para a famlia. Desde a noite em que Eleanor descobrira sobre o jogo das palhas, o momento tornara-se gelado, apesar da comida quente. Luke sabia que no imaginava a atmosfera quente, um calor que no tinha nada a ver com o forno que fazia subir a temperatura do aposento.
Vrias vezes surpreendeu a esposa lanando olhares furtivos em sua direo, olhares que no tinham mais a hostilidade dos ltimos dias. Se soubesse que algumas flores surtiriam esse efeito, teria colhido um jardim inteiro. Luke terminou de comer os ovos com bacon como se fossem mais saborosos que todos os outros que j provara. As coisas estavam melhorando.
	Posso falar com voc um minuto?  Eleanor falou ao v-lo dirigir-se  porta.
Daniel olhou do irmo para a cunhada com expresso curiosa. Era a primeira vez em duas semanas que Eleanor dirigia-se ao marido, e a mudana sbita despertou seu interesse. Mas Luke o encarava com um olhar que prometia severa e dolorosa punio, caso dissesse alguma coisa, e por isso ele engoliu o comentrio.
	O caf estava timo, Eleanor  Daniel elogiou antes de sair.
Sua partida deixou uma esteira de silncio. A cozinha cheirava a bacon e biscoitos, e o forno exalava um calor reconfortante nas horas frias do amanhecer. Cortinas brancas protegiam as janelas que, abertas, permitiam a entrada da lua plida e dourada do sol nascente.
Luke surpreendeu-se mais uma vez com todas as mudanas que haviam ocorrido desde que se casara com Eleanor. H algumas semanas esse lugar mais aprecia um chiqueiro, e agora... Ela trabalhara duro para transformar a casa num lar de verdade. Se um pouco de romantismo era tudo de que precisava para sentir-se satisfeita, talvez fosse sensato agrad-la.
	Queria agradecer pelas flores. So lindas.
Apesar do sorriso amplo, havia uma certa insegurana em sua voz, como se esperasse ouvi-lo pedir alguma retribuio pelo presente. Um convite para voltar  sua cama, talvez. O fato de ter pensado nisso o fez sentir-se culpado.
	No foi nada.
	So maravilhosas! Ningum jamais me deu flores antes. Muito obrigada, Luke.
	Por nada.  Ficaram encarando-se em silncio por um momento, cheios de coisas a serem ditas. Luke foi o primeiro a falar.  At mais tarde.  Sorrindo, abriu a porta e saiu.
O sorriso o acompanhou at muito mais tarde. Um pouco de romantismo era um preo baixo a ser pago para ter de volta aquele sorriso que vira nos lbios de Eleanor. Se jogasse as cartas com maestria, em pouco tempo a faria esquecer a tal disputa de palhas que tantos problemas causara. Mais alguns dias, e estaria voltando para o seu lugar: sua prpria cama, com uma Eleanor quente e carinhosa deitada a seu lado.
	No acredito que teve coragem de pagar dois dlares quele garoto por esse punhado de plo sarnento.  Daniel torceu o nariz para a pequena cesta que o irmo havia prendido  sela. Os miados agoniados que brotavam do cesto deixavam claro que o pequeno ocupante no estava satisfeito com a situao.
	 para Eleanor  Luke explicou.  As mulheres gostam de gatos.

	Pois que os tenham. Bichos nojentos, chores, sarnentos e de garras afiadas.
	O pobrezinho no  maior que uma faca de cozinha, Daniel! No pode estar com medo dele!
	Espere para ver. Ele vai crescer, e ento voltaremos a conversar.
	Parece estar falando por experincia.
	Costumava visitar uma viva que tinha um punhado de gatos. Um deles, um grande bicho gordo e branco, com longas garras e um miado apavorante, simplesmente me odiava. Ele costumava ficar deitado, apenas me observando, e quando eu me descuidava ele saltava sobre mim e cravava aquelas malditas unhas onde pudesse alcanar. Tinha pesadelos com aquele bicho.
A gargalhada de Luke ecoou pela plancie e mereceu um olhar azedo do irmo.
	Pode rir, mas ainda tenho as cicatrizes deixadas por aquela besta. Desde ento no suporto gatos.
	Notei que a viva Sinclair comprou um gatinho  Luke comentou com um olhar malicioso.  Talvez as vivas tenham uma simpatia especial pelos animais. 
Daniel resmungou alguma coisa e desviou os olhos.
	Pena no terem a mesma simpatia por voc. Sinclair no parece muito interessada por seus encantos.
	Tudo por causa daquelas malditas palhas  Daniel praguejou.  Sua esposa contou tudo  amiga, e agora as duas esto furiosas. E a histria no tem nada a ver com elas!
	As mulheres tm um jeito diferente de ver as cosias.  Luke olhou para o cesto. O gato era o ltimo passo no plano de apaziguar Eleanor. As flores haviam feito tanto sucesso que ficara sem saber o que oferecer em seguida. Embora a atmosfera houvesse mudado bastante entre eles nos ltimos dois dias, ela ainda no se mostrara inclinada a convid-lo a voltar  sua cama. Era evidente que precisava de alguma coisa para completar o plano. O gato parecera a escolha perfeita. Que mulher resistira a um gatinho?
	Nunca pensei que o veria subornar sua esposa para voltar a dormir dentro de casa.
	No estou subornando ningum.  Mas, no fundo, sabia que havia um fundo de verdade na acusao do irmo. Afinal, que diferena fazia se oferecia presentes ou subornos, desde que conquistasse seu objetivo e a fizesse esquecer as malditas palhas?
	Para mim parece suborno  Daniel insistiu.
	Pois eu acho que devia aprender um pouco com seu irmo mais velho. A menos que queira ser o alvo dos olhares furiosos da viva Sinclair...
	No me importo com ela  Daniel respondeu, com falsa indiferena.  Existem outros peixes no mar.
	Nunca o vi olhando para outro peixe com o mesmo interesse.
	S porque ela  uma mulher bonita.
	Ouvi dizer que Andrew Webb pensa a mesma coisa.
	Aquele esquisito? Ela nem notaria o pobre coitado. 
	Talvez no, mas eu no apostaria nisso. Webb tem um negcio slido, e um vivo com quatro filhos  tudo de que uma mulher precisa para pr em ao seu instinto maternal. No imagina o que elas so capazes de fazer quando acreditam poder ajudar uma criana.
	Ela nunca o aceitaria, com ou sem filhos.
	Talvez no. Mas aquelas crianas so uma arma poderosa.
Luke olhou para o irmo e teve de esforar-se para no rir. Conforme havia imaginado, Daniel estava muito interessado pela tal viva, e a julgar pela maneira como ela o tratara pouco antes na cidade, as chances de progresso eram praticamente nulas.
	Ela jamais se interessar por Webb  Daniel insistiu sem convico.
	 claro que no.  Pelo que sabia, Letty mal conhecia Andrew Webb. Mas o argumento fora proveitoso. Daniel merecia sofrer por tornar sua vida to complicada. E se Daniel passasse a nutrir uma profunda antipatia pelo comerciante, ento estaria matando dois coelhos com uma nica paulada. Andrew Webb tambm merecia um bom castigo por ter se atrevido a tentar qualquer coisa com Eleanor antes de se casarem. Sem mencionar aquele chapu horroroso. Ainda no encontrara uma forma de livrar-se daquela coisa.
Mas pensaria nisso mais tarde. No momento, tinha de encontrar uma forma de persuadir a esposa a esquecer o tal jogo de palhas, e o gato era o prximo passo da campanha.
	Um gatinho! Oh, Luke, obrigada!  Eleanor sorriu, tomando a pequena bola de pelos entre as mos.
	E uma gata. Pensei que ela seria boa companhia.
	Ela  adorvel! E o presente mais lindo que algum j me deu.
Num impulso, ergueu-se nas pontas dos ps e depositou um beijo nos lbios de Luke. Pretendia apenas um beijo rpido e inocente, mas ele moveu-se de repente e segurou-a pela cintura, aproveitando-se de sua indeciso e do fato de estar com as mos ocupadas. No poderia empurr-lo, mesmo que quisesse, e a sbita fraqueza nos joelhos tornou qualquer tentativa de resistncia impossvel.
Luke sentiu sua rendio e aprofundou o beijo. Podia possui-la agora, e estaria encerrando as noites no celeiro. Nunca mais teria de percorrer a plancie em busca de flores ou adornos para o pescoo de uma gata estpida e chorona. Eleanor o desejava. Podia sentir a fome em cada curva de seu corpo, senti-la no sabor adocicado de seus lbios. Se a levasse para o quarto agora, ela no ofereceria resistncia.
Mas o odiaria por isso.
Incapaz de conter-se, abraou-a com mais fora para faz-la sentir o quanto a desejava, mas o miado da gata ps fim ao momento de paixo. Aborrecida com o estado de confinamento, o animal contorceu-se e cravou as unhas na primeira superfcie disponvel que encontrou, ou seja, no peito de Luke.
	Ai!  Assustado, retrocedeu depressa e, com o movimento, praticamente arrancou o filhote das mos de Eleanor. Em conseqncia, ela cravou as unhas afiadas ainda mais fundo em sua pele, tentando manter-se segura.
	No a machuque!  Eleanor pediu, adiantando-se um passo para salvar o pobre animal.
	No machuc-la? Est dizendo que eu vou machuc-la? Mas se foi ela quem tentou me matar!
	No exagere, Luke! A pobrezinha ficou assustada, s isso.
	Ela  uma sanguinria  Luke acusou, olhando para o gato que pendia de sua mo pela pele flcida do pescoo. Ela o encarava como se prometesse retribuio. Lembrando-se dos avisos insistentes do irmo, imaginou se talvez no teria feito melhor trazendo apenas mais um buqu de flores. Pelo menos no tinham garras.
	Daniel amarrou o cavalo ao poste na frente da loja. Luke reclamara quando anunciara que iria  cidade pela segunda vez na mesma semana, mas estava disposto a comprar alguma coisa, e essa coisa no tinha nada a ver com Letty Sinclair. Mas, ao v-la entrar na loja de Andrew Webb, lembrara que poderia obter qualquer coisa na variada loja do magricela atrevido.
Daniel entrou, pensando no que poderia haver de to interessante nessa mulher que de repente no conseguia pensar em mais nada. Era bonita, mas havia conhecido outras mulheres encantadoras. Entretanto, havia algo na maneira como ela o fitava, uma espcie de desafio, que no conseguia ignorar.
Daniel parou ao passar pela porta e esperou os olhos se ajustarem  luz. A princpio, a loja pareceu vazia, e j estava acreditando que imaginara sua figura es-belta e altiva, quando ouviu um suave riso feminino mesclado a outro, mais profundo e grave. O som fez o sangue ferver em suas veias.
Daniel dirigiu-se ao fundo do estabelecimento com passos longos e firmes. Ento Luke no mentira ao dizer que Webb estava interessado na viva. O cara de pastel tinha o atrevimento de acreditar que poderia atrair a ateno de uma mulher como Letty! Pois trataria de alert-lo para o absurdo desse pensamento.
Contornando uma vitrina de chapus, quase tropeou em Letty, que se dirigia  parte da frente da loja. Para evitar que casse, segurou-a pelos ombros.
	Sr. McLain!  ela exclamou surpresa.
	Sra. Sinclair.  Relutante, soltou-a para tocar a aba do chapu num gesto de cavalheirismo.  Minhas desculpas, senhora. Espero no t-la machucado.
	Oh, no.  Letty levou a mo ao peito para estabilizar a respirao ofegante. Havia sido apenas o susto, repetia para si mesma. A pulsao acelerada no tinha nada a ver com aqueles olhos acinzentados, ou com os cabelos negros que caam sobre sua testa numa onda suave, fazendo-a sentir vontade de cometer o atrevimento de afag-los.
Melhor agarrar-se ao mpeto de esbofete-lo, censurou-se. Se no por Eleanor, por ela mesma. No passara trs anos sozinha sem aprender a distinguir um homem com noes imprprias de comportamento. E o fato de ter uma ou duas noes tambm imprprias a respeito de Daniel s fortalecia sua determinao de manter-se afastada.
	Se me der licena, sr. McLain.
	Certamente, sra. Sinclair  ele afastou-se um passo para deix-la passar.
A resposta foi a personificao da cortesia, mas havia algo em seus olhos que parecia zombar da formalidade cuidadosa. Letty ergueu os ombros, a boca carnuda apertada em sinal de aborrecimento. Andrew Webb a seguiu ansioso.
Rindo, Daniel decidiu segui-los at a frente da loja. Inclinando um pouco a cabea, podia desviar os olhos da viso irritante das costas de Webb e apreciar o oscilar dos quadris femininos. A julgar pelas costas eretas, podia deduzir que estava aborrecida e contrariada, mas isso no a tornava menos atraente.
Esperou que ela pagasse pelas compras e nem se deu ao trabalho de fingir-se interessado em alguma mercadoria. Ao v-la dirigir-se  porta, tratou de adiantar-se para chegar l antes dela.
	Permita-me  disse,  inclinando-se  enquanto abria a porta.
	Obrigada.  A voz era to gelada que ele sentiu um arrepio.
Daniel a seguiu. No sabia por que desejava atorment-la, mas tratava-se de um desejo to incontro-
vel que nem tentou cont-lo. Mais dois passos e estava ao lado dela na calada.
	Permita-me, sra. Sinclair  disse, estendendo a mo para o pacote que ela carregava.
	No precisa se preocupar, sr. McLain. Sou perfeitamente capaz de carregar minhas compras.
	Nem pense nisso  ele insistiu, tomando o embrulho das mos dela e sorrindo com falsa inocncia.
	Realmente, sr. McLain, nada disso  necessrio.

	Bobagem, sra. Sinclair. Uma mulher nunca deve carregar as prprias compras quando h um cavalheiro por perto.
	Quando h um cavalheiro por perto, sr. McLain. Isso  muito importante  ela disparou aborrecida.
Daniel riu. Letty tentou no notar quanto se tornava atraente quando mostrava os dentes perfeitos, mas no era fcil.
	Se fosse um homem inseguro, acreditaria que acabou de me insultar.
	Por favor, devolva-me o pacote e me deixe seguir em paz  ela pediu, notando que atraam olhares curiosos.  Estamos comeando a chamar a ateno de todos.
	Ningum olharia duas vezes se me deixasse levar o pacote e acompanh-la at seu destino.
Irritada com a insistncia de Daniel, Letty apressou o passo e tratou de sair o mais depressa possvel da rua movimentada. Ele a seguia de perto, rpido e atento. Seguiram em silncio por alguns instantes, e ela decidiu que no diria uma nica palavra ao sujeito durante todo o trajeto, nem que fossem a p at Denver.
	Acho que devo me desculpar  Daniel ofereceu depois de um momento.  Simplesmente no consigo resistir ao desejo de provoc-la. Mas  que voc  to...  e parou, temendo que ela o agredisse fisicamente, tal a brutalidade do olhar que lanava em sua direo.
	Sr. McLain, se disser que fico linda quando estou furiosa, esquecerei que sou uma dama e o atacarei com violncia.
	Oh, eu no queria...
	Sim, queria  ela cortou.  Creia-me, sr. McLain, no h uma nica linha do seu discurso que eu j no tenha ouvido. Nos trs anos que se seguiram  morte de meu marido, fui alvo das atenes e dos sentimentos de muitos cavalheiros, todos eles interessados em demonstrar que compreendiam minha solido e estavam disponveis para alivi-la. No preciso desse tipo de assistncia, e nem a desejo. No entendo por que os homens presumem que uma mulher perde a moral ao perder o marido. Afirmo que esse no  meu caso, e garanto que est perdendo seu tempo nessa perseguio intil. Deixe-me em paz, sr. McLain. At logo.	
Aproveitando o momento de surpresa, ela apoderou-se do pacote e partiu, os saltos ecoando contra o pavimento com um som oco, tanto quanto o vazio que invadia seu peito.
Daniel a viu afastar-se. Era arisca e ferina como um cctus, mas tinha de admitir o elemento de verdade que havia em suas acusaes. Realmente pensara que, sendo viva, talvez ela estivesse aberta a um relacionamento mais... liberal. Sentia-se culpado porque, sob a aparncia altiva e agressiva, vira uma ponta de dor em seus olhos brilhantes. E jamais quisera mago-la. Droga, gostava dela!
Decidido, disparou atrs dela e alcanou-a em seguida.
	J disse que carregarei seu pacote  afirmou com determinao, tomando o embrulho das mos dela.
	Sua gentileza excessiva e inconveniente torna qualquer expresso de gratido impossvel, sr. McLain.
	Algum j lhe disse que tem o temperamento de um urso com um espinho na pata?
	No. Entretanto, vindo de voc, o comentrio soa como um elogio.
	No era essa minha inteno.
Pararam no meio da rua e trocaram um olhar carregado de tenso, sem perceber que vrios transeuntes curiosos viravam-se para acompanhar o episdio.
	Afinal, qual  o problema com voc?  Daniel explodiu frustrado.  No importa o que eu diga, acaba sempre me atacando como se eu houvesse insultado sua me. Ainda est aborrecida com aquela histria das palhas? Por que, se no tem nada a ver com isso?
	Um homem capaz de tirar as palhas para decidir o futuro de uma dama no merece muita confiana.
	Estvamos decidindo o nosso futuro. Luke s escolheu Eleanor depois disso.
	Isso no vem ao caso.
	Pois para esse parece ser justamente o caso!  ele irritou-se.  Como no conhecamos Eleanor, no podamos estar decidindo seu futuro.
	Mas, se no houvessem feito aquele ridculo jogo das palhas, Luke no teria decidido se casar com Eleanor. E o que o fez escolher minha amiga, afinal?
	Ele a considerou dominvel.
	Dominvel?  Letty repetiu com um sorriso, apesar do aborrecimento.
	Foi o que ele disse na poca da escolha.  Daniel lembrou da cunhada parada ao lado da mesa como um anjo vingador, a colher de pau fazendo as vezes de espada, e no pde conter o riso.  Parece que ele teve uma surpresa e tanto.
	Posso imaginar. Dominvel no  a primeira palavra que me vem  mente quando penso em Eleanor.
	Acho que meu irmo j percebeu seu erro de julgamento.
Daniel riu e Letty acompanhou-o, a raiva desaparecendo como que por encanto.
	Talvez estejamos testemunhando um desses casos de justia natural  ela comentou.
	Talvez.  Daniel surpreendeu-se imaginando se a pele da encantadora viva seria to suave quanto parecia. No queria mais falar sobre o casamento de seu irmo.  Se eu pedir com toda a educao, permitiria que eu carregasse seu pacote, sra. Sinclair?
Vendo o brilho em seus olhos, Letty sentiu um rubor tingindo seu rosto. Estava mesmo diante de um homem muito atraente! S tivesse um mnimo de bom senso recusaria a oferta, resgataria sua compra e iria embora sem olhar para trs. Daniel McLain sugeriu problemas, principalmente quando sorria.
	Sim, sr. McLain  ela cedeu, certa de que um problema nunca parecera to tentador.

CAPTULO XIV

O sol de vero flutuava baixo no horizonte, sua luz mais suave do que havia sido algumas horas antes, seu brilho drenado pela aproximao da escurido. Eleanor pressionou o p contra o piso da varanda, pondo a cadeira de balano em movimento. A casa do rancho costumava reter o calor acumulado ao longo do dia, mas  medida que a plancie mergulhava na noite, o interior tambm tornava-se mais fresco. A essa hora do dia, no havia lugar mais agradvel para estar do que a varanda.
A seu lado, uma cesta de vime continha retalhos de todas as cores e tamanhos e uma revista feminina que Letty trouxera em sua ltima visita. Nela havia a foto de uma colcha que os editores chamavam de inovadora, artesanal e extica, e Eleanor decidira tentar copiar o trabalho. Agora, depois de reunir diversos retalhos coloridos sobre a fundao de algodo branco, tinha de admitir que o resultado era surpreendente.
A seus ps, a gata brincava com um pedao de veludo que escapara da cesta. A batalha era rpida e feroz, os combatentes rolando em todas as direes numa luta titnica pela supremacia. Eleanor observava imparcial, e s decidiu interferir quando o tecido comeou a ganhar terreno. Ento ajudou o animal a livrar-se do veludo que o envolvia, prendeu uma das pontas do retalho no p da cadeira de balano e sorriu, ao ver que Rascal investia com fria contra o inimigo implacvel.
	Faz uma bela figura  Daniel comentou, aproximando-se do irmo na porta do celeiro.
	 verdade  Luke concordou, os olhos fixos na varanda. Eleanor segurava a gata diante do rosto e falava com ela de maneira carinhosa. No podia ouvir as palavras, mas tudo nela expressava afeto e doura.
	Ela parece gostar do bicho  Daniel indicou.  Mas no o suficiente para deix-lo voltar para casa. Por que no experimenta um suborno mais pesado? Um cavalo, talvez.
	V para o diabo  Luke respondeu sem entusiasmo.
	 claro que ser estranho manter um cavalo dentro de casa, principalmente se ela quiser manter o animal de estimao aos ps da cama, mas nas atuais circunstncias, isso no faria nenhuma diferena para voc. A menos,  claro, que tenha esperana de poder dormir aos ps da cama.
	No tem nada para fazer?  Era sbado, e normalmente os caubis iam  cidade.

	Bem, pensei em sair com o resto dos rapazes, mas se quiser posso ficar aqui para fazer companhia.
	No, obrigado.
	Odeio pensar em meu pobre irmo passando mais uma longa noite fria e solitria. Podemos jogar pquer. Em vez de apostar dinheiro, podemos jogar por fichas, talvez palhas...
	A viva Sinclair no ia gostar de saber que andou s voltas com palhas novamente. Na primeira vez ela ficou bastante aborrecida.

	O que fao no  da conta dela  Daniel respondeu, com falsa indiferena.
	Pensei que a levaria  comemorao do Quatro de Julho na semana que vem.
	Isso no significa que ela ps uma coleira em meu pescoo.
	No sei se devia estar to preocupado com o pescoo. O perigo maior est em seu dedo. No anelar da mo esquerda, para ser mais exato.
	No precisa se preocupar com isso. No tenho planos de me casar com Letty Sinclair. Nem com qualquer outra, se quer saber.
	No estou preocupado. Pelo que vi da sra. Sinclair, ela tem bom senso suficiente para no se casar com um caubi intil como voc. Quando chegar o momento de escolher um segundo marido, ela certamente estar olhando em outras direes. Para aquele tal de Webb, por exemplo.
	Ela no olharia duas vezes para Webb  Daniel irritou-se.
	Talvez no  Luke sorriu, o humor melhorando  medida que a irritao do irmo crescia.  Mas ela me parece ser uma mulher prtica, e o sujeito  um comerciante com uma bela casa na cidade, conforto, dinheiro... sem falar nas crianas.
	Vive falando nessas crianas, mas no entendo por que diabos uma mulher ia querer se casar para tornar-se madrasta de um bando de pirralhos que nem conhece.
	As mulheres tm sempre um jeito diferente de avaliar as coisas. E quando se trata de crianas... Como disse antes, elas podem ser uma arma poderosa.
Houve um momento de silncio. Atrs deles, os pees conversavam enquanto preparavam os cavalos para ir  cidade. H algumas semanas, antes do casamento com Eleanor, Luke estaria pronto para acompanh-los, e agora examinava seu interior em busca de algum sinal de arrependimento. Mas no havia nada. Gostava das coisas como estavam. Bem, no exatamente como estavam, corrigiu-se, olhando na direo da esposa, que continuava sentada na varanda, brincando com a gata. A situao solicitava alguns ajustes, mas pretendia cuidar disso.
	Um sujeito como Andrew Webb jamais atrairia o interesse de uma mulher como Letty Sinclair  Daniel balanou a cabea, interrompendo a reflexo do irmo.
	Deve estar certo  ele respondeu distrado, perdendo o interesse no jogo de provocao.
	No que eu me importe. No estou interessado em me enforcar, e se ela quer se casar com Webb, o problema no  meu.
	Nem eu disse que era. Se no quer se casar, por que haveria de preocupar-se com as escolhas de Letty Sinclair?
	Isso mesmo.
	Convidar uma mulher para ir a um piquenique no  exatamente uma proposta de compromisso.
	No, no . A cidade inteira estar l. Acabaramos nos encontrando de qualquer maneira.
	Provavelmente.  Luke sentiu um certo alvio ao ouvir um dos pees chamar seu irmo com tom impaciente. Normalmente teria apreciado a oportunidade de provocar Daniel com a histria de seu interesse pela viva Sinclair, mas tinha planos para essa noite, e quanto antes os rapazes partissem, mais cedo poderia come-los.
De uma coisa tinha certeza: passara sua ltima noite naquele maldito celeiro. 
Luke entrou em casa com uma cuidadoso plano de seduo em mente. Daniel e os pees estavam a caminho da cidade. Ele e Eleanor tinham toda a privacidade do mundo, e estava disposto a pr um ponto final nos problemas conjugais que enfrentavam. Pensara na abordagem mais adequada, uma poderosa combinao de razo e seduo, e o pacote em sua mo ajudaria a ado-la um pouco.
Esperava encontrar a esposa costurando ou lendo, mas o som do piano, silencioso desde a morte de sua me, o atraiu  sala de visitas. O sol desaparecera atrs das Rochosas, e o brilho dourado da luz de um lampio lanava sombras mgicas pelo ambiente. A gata dormia sobre uma almofada colorida ao lado da lareira vazia, deliciando-se com o som melodioso que os dedos delicados de Eleanor arrancavam das teclas. Ela cantarolava enquanto tocava, e sua voz era como um encantamento.
Havia algo de pacfico na cena, algo que falava de lar e terra, de amor e conforto, de razes e pertinncia. Luke experimentou um aperto no peito, uma pontada que era como uma dor. Essa era a verdadeira razo pela qual tomara uma esposa. Um filho para herdar o rancho era apenas uma pequena parte do projeto. Queria algo mais em sua vida, algo alm do gado, da poeira e da preocupao com a neve no inverno e a seca no vero.
Queria um lar.
E Eleanor havia realizado esse sonho. Recebera uma casa suja e vazia e a transformara novamente num lar. No era a primeira vez que tinha esse pensamento, mas agora percebia que a casa no havia sido a nica a sofrer mudanas com sua presena. Ele tambm havia mudado, e a prova disso era o fato de estar no rancho, em vez de seguir para a cidade com os rapazes.
As ltimas notas da cano ecoaram no ar quente da sala.
	Lindo!
O som da voz de Luke assustou-a e os dedos saltaram sobre o teclado, criando uma estranha coleo de notas. Ela virou-se e o viu parado na porta da sala.
	No ouvi voc entrar  disse.
	No queria assust-la.  Luke deu alguns passos em sua direo e ela sentiu o corao disparar. Certamente chegaria um tempo em que a simples viso do marido no a faria comportar-se como uma garota diante da primeira boneca.  Foi realmente uma bela cano. No sabia que tocava piano.
	No tenho tocado muito nos ltimos anos. Receio estar um pouco destreinada.
	No pelo que acabei de ouvir.  Ele carregava um pacote que deixou no cho, ao lado do sof.  Tambm estudou com aquela professora de Boston?
	A srta. Brown? No. Anabel tomou lies com ela.
	Sua tia comentou, mas a julgar pelo que ouvi, a srta. Brown no  uma boa professora. Ou sua prima  surda.
Eleanor virou-se para o piano a fim de esconder um sorriso divertido.
	A srta. Brown fez o que pde  disse, evitando a crtica direta.
	Afinal, por que no tem tocado muito? Havia um piano na casa de seus tios.
	Sim, mas eu estava sempre ocupada ajudando tia Dorinda. No sobrava muito tempo para o piano.
	Ela a tratava como uma empregada, no?
A pergunta pegou-a de surpresa.
	No,  claro que no. Mas depois de tudo que fizeram por mim, sentia-me no dever de fazer tudo que pudesse para compens-los pela generosidade.
Repetira a explicao tantas vezes para si mesma, que chegava quase a acreditar nela. Havia sido mais fcil aceitar as interminveis tarefas depois de convencer-se de que as cumpria por livre escolha.
	Aposto que sua tia no perdia uma oportunidade de refrescar sua memria com relao  dvida de gratido que tinha para com eles.
Sabia que devia negar, mas no encontrou argumentos para tanto. Por isso baixou a cabea e fingiu estudar as teclas do piano.
	No era necessrio  disse.
	Imagino que no. Mas se no foi a srta. Brown, quem a ensinou a tocar piano?
	Meu pai. Depois da morte de mame, nunca vivemos num lugar por tempo suficiente para termos um piano. No que papai tivesse dinheiro para esse tipo de luxo,  claro. Mas havia sempre algum em todas as cidades generoso o bastante para me deixar usar o instrumento.
	Viajavam muito?  Luke perguntou, apoiando o cotovelo sobre o piano para encar-la.
	Bastante. Depois da morte de minha me, papai tornou-se incapaz de criar razes.
	Seu tio disse que ele era um jogador.
	E verdade  ela respondeu com o queixo erguido, como se o desafiasse a fazer alguma crtica.
	No conheo muitos jogadores que tenham arrastado uma criana em sua esteira de apostas. Deve ter sido uma vida difcil.
	Eu no me importava  mentiu.  claro que teria preferido ter uma casa, e em pouco tempo aprendera que todas as amizades que fizesse teriam de ser deixadas para trs. Logo desistira de fazer amigos,
preferindo a solido  dor da despedida. Sonhara com um lar onde pudesse criar razes, mas todas as fundaes que Nathan Williams possura haviam sido ceifadas pela morte de sua adorada esposa. As vezes,
pensara que ele vivia fugindo da dor, certo de que, se parasse em algum lugar, acabaria tendo de encarar a extenso da perda. E por mais que odiasse aquela eterna peregrinao, teria odiado ainda mais ser deixada para trs.
	Papai sempre transformou tudo numa grande aventura  disse com um sorriso triste.  Quando penso nele, sempre me lembro de sua risada.
	E difcil imaginar que Zeb Williams teve um irmo assim  Luke comentou pensativo.  Apostaria o rancho como Zeb s consegue rir quando consegue tirar vantagem de algum ou de alguma coisa.
	Tio Zeb no  exatamente um homem alegre  Eleanor admitiu, com uma risada divertida.
Luke pensou na jovem de quatorze anos entrando na casa do tio e encontrando apenas o silncio, a tristeza e a humilhao. Embora anos houvessem se passado e nem a conhecesse nessa poca, uma raiva surda o tomou de surpresa.
	Sabe tocar?  ela perguntou de repente, apontando para o piano.
	Oh, no! Minha me tentou ensinar-me uma ou duas vezes, mas sou incapaz de diferenciar um d de um f. No sei tocar piano, e quando canto, todos os coiotes uivam em desespero.
	No pode ser to ruim.
	 pior. Mame me fez prometer que nunca mais tentaria tocar, pois temia que minhas experincias musicais acabassem estragando o piano.
	Ento ela era a nica a usar o instrumento?
	Daniel sabe tocar uma ou duas melodias. Ou sabia. Nunca mais voltou a sentar-se nesse banco depois que mame morreu, e cuidar de um rancho no deixa muito tempo para amenidades.
	Deve sentir muita falta de sua me  Eleanor apontou com voz suave.  Eu s tinha seis anos quando perdi a minha, e mal me lembro dela. Mas me recordo de que ela sempre cheirava a jasmim. Havia um lindo p de jasmim no quintal de nossa casa em St. Louis, e ela costumava cortar as flores para adornar a sala. O perfume parecia perdurar nas roupas e nos cabelos de minha me durante todo o ano.
	Rosas  Luke comentou com ar pensativo.  Antes da guerra, minha me plantava roseiras. No vero meu pai costumava reclamar de que a casa cheirava como uma floricultura, por causa de todas as flores que ela levava para dentro. Quando viemos para o oeste, ela tentou transportar algumas mudas, mas foi intil. O clima  muito quente e seco no vero, e o frio do inverno pode matar qualquer tipo de flor. Acho que deixar o jardim foi mais difcil que deixar a prpria casa.
	Onde viviam?
	Virgnia. Meu pai e o irmo plantavam tabaco.
	Nunca estive l, mas ouvi dizer que  um lugar adorvel.
	 verdade. No vero, costumava pensar que at o ar tinha o cheiro do verde.
	Deve ser realmente lindo.
	E muito bonito. Oakwood pertencia  famlia desde antes da Guerra da Independncia. Meu bisav construiu a casa.
	Por que saram de l?
	Depois da guerra no havia muita razo para se permanecer na Virgnia.

	Eu ainda era pequena quando Lee rendeu-se, mas papai costumava comentar sobre os prejuzos provocados pela guerra, imaginando quanto tempo o pas levaria para curar-se.
	Algumas feridas jamais cicatrizam completamente. Meu pai era contra a escravido, mas acreditava dos direitos do estado. Por isso foi para o sul, a fim de. lutar pela Confederao. Meu tio acreditava em preservar a unio a qualquer preo. Ele foi para o norte. Quando voltaram para casa, juraram que jamais mencionariam a guerra, nem as batalhas que ganharam ou perderam. O passado estava enterrado. Haviam lutado, sobreviveram, e isso era tudo que importava.
	Devem ter sido homens muito sensatos.
	Apenas homens.  Luke lembrou as discusses que escutara, batalhas verbais que jamais haviam sido resolvidas, pois no havia soluo possvel. A tenso entre os adultos logo estendera-se para ele, Daniel e os primos. As discusses que os pais haviam prometido evitar logo explodiram entre as crianas. As brigas tornaram-se eventos semanais e, posteriormente, dirios, at que sua me apontara a verdade que ningum queria enxergar. Era impossvel voltar a viver como antes da guerra. As mudanas haviam sido fundamentais, grandes demais para serem ignoradas.
	No levou muito tempo para se tornar bvio que tudo havia mudado. Meu tio juntou o dinheiro suficiente para comprar a parte de meu pai na terra e ns nos mudamos para o oeste.
	Deve ter sido um tempo terrvel para sua famlia.
	Estvamos melhor que a maioria. Papai voltou para casa so e salvo, e isso era tudo que espervamos. E mais do que muitos obtiveram.
As notas de uma marcha militar muito tocada na poca da guerra encheram a sala, despertando lembranas que Luke considerava enterradas. O estranho taciturno que havia retornado no corpo de seu pai, as lgrimas de sua me, o vazio da terra, o silncio da casa rompido apenas pelas discusses surdas, contidas, piores que uma briga franca e aberta.
	Foi h muito tempo  ele disse, quando a cano terminou, afastando-se do piano e empurrando as recordaes para o fundo da memria. Se havia algo que aprendera com a guerra era que no havia nenhuma utilidade em olhar para trs.
	Nunca pensa em voltar para casa?  Eleanor perguntou, os olhos cheios de piedade pelo que a guerra havia custado  sua famlia.
	Minha casa  aqui. A Virgnia  s um lugar onde eu vivi um dia. Muito sangue e suor foi investido nesse lugar. Se Deus permitir, nossos filhos daro continuidade ao que deixarmos para trs.
Eleanor ruborizou ao ouvi-lo falar sobre filhos, e de repente Luke percebeu que havia esquecido o propsito de voltar para casa essa noite. O som do piano e a companhia agradvel de eleanor baniram qualquer pensamento de seduo de sua mente. Livrando-se dos ltimos fantasmas do passado, concentrou-se no presente.
E o presente estava ligado  mulher sentada  sua frente.
	Muitas pessoas vieram ao oeste em busca de recomeos  Eleanor falou meio que para si mesma, evitando encarar o marido.
Quando ele aparecera em sua vida, acreditara que a providncia decidira dar um empurro em seu destino. Lutava com a prpria vontade por quase uma semana, desde que ele lhe dera a gatinha. Queria dizer a ele que havia pensado muito em tudo que acontecera e que acreditara ser hora de seguirem em frente com suas vidas.
No havia sido uma deciso fcil. Tivera de abrir mo dos sonhos de menina sobre amor e romance e aceitar a realidade. Luke no a amava. Seria tolice acreditar no contrrio. Mas devia gostar dela, pelo menos um pouco. Caso contrrio, como explicar as flores e a gatinha, e a pacincia com que havia encarado uma atitude que muitos considerariam insensata? Certamente, ele estaria em seu direito se insistisse em partilhar de sua cama. O fato de no ter insistido podia significar indiferena, em vez de compreenso, mas sabia que ele a desejava, tanto quanto ela o queria. No, ele havia concordado com o pedido de tempo porque se importava o suficiente para tentar agrad-la. E se esse no era o amor apaixonado com que sonhara, j era mais do que poderia ter tido.
Mas, e agora, como dizer a ele que era hora de voltar para sua cama?
	Tenho um presente para voc  Luke anunciou.
	Um presente? Para mim? Por qu? No  meu aniversrio.  No que houvesse recebido muitos presentes de aniversrio nos ltimos anos.
	 algo que pretendia lhe dar h muito tempo, mas esqueci.
Eleanor o viu apanhar o pacote que havia deixado no cho quando entrara.
	Para mim?  perguntou novamente ao receb-lo.
	Bem, certamente no  para a gata.
Temendo o que os olhos estavam prestes a contemplar e tentando ignorar a euforia que um simples sorriso de Luke a fazia sentir, Eleanor abriu o pacote.
	Oh, meu Deus!  ela exclamou, encantada com o corte de granadina azul. Olhou para o tecido durante algum tempo antes de deslizar os dedos sobre ele, como se quisesse confirmar sua realidade.
	 o tecido que estava admirando na loja de Webb  ele comentou, perturbado com seu silncio prolongado.  Voc parecia gostar...
	Lembrou disso e voltou  loja... por minha causa?
	Na verdade, comprei o tecido naquele mesmo dia.
	No mesmo dia? Por mim?
	Sim.
	Por que comprou algo to caro para mim, se nem me conhecia?
Luke encolheu os ombros. Tambm havia pensado nisso uma ou duas vezes, mas ofereceu a nica resposta que conseguiu formular.
	Achei que combinaria com voc.
	Se costuma comprar tecidos para mulheres desconhecidas s porque acha que combinam com elas, no sei como ainda tem algum dinheiro. Sem falar que  um comportamento muito imprprio.
	No acredito que isso possa me arruinar, e nunca perdi tempo pensando no que  prprio ou imprprio. Gostou do tecido?
	Se gostei? Ningum jamais me deu algo to lindo!
Vendo o brilho das lgrimas em seus olhos, Luke sentiu-se culpado pelos motivos ulteriores que o levaram a oferecer o presente justamente agora, mas no o bastante para mudar de idia. Estava farto de dormir no celeiro. J era hora de acabar de uma vez por todas com esse drama das palhas e seguir em frente. Eleanor queria a mesma coisa. Simplesmente, era teimosa demais para admitir.
	Obrigada, Luke.  Eleanor deixou o tecido sobre o banco do piano ao levantar-se.  E um presente maravilhoso.
Ela aproximou-se e ergueu-se nas pontas dos ps para beij-lo no rosto. Quando tentou afastar-se, ele a segurou pelo pulso.
	E s isso que mereo? Se no me engano, recebi mais que um beijo no rosto quando trouxe a gatinha. No vai querer me convencer de que gostou mais daquele animal do que do tecido, vai?
	Adoro Rascal  ela respondeu, lembrando o beijo que haviam trocado naquela ocasio. Sabia que o beijo teria se tornado algo mais ntimo, no fosse a reao agressiva da gata.  Mas o tecido  realmente lindo.
	O bastante para merecer um beijo de verdade?  Luke tentou, puxando-a para mais perto.
	Suponho que sim.  Os olhos encontraram-se e, por um momento, Luke teve a impresso de estarem trocando uma mensagem silenciosa. Essa noite poriam um fim na distncia que os separava e acabariam de uma vez por todas com o jogo tolo que haviam comeado.

CAPTULO XV

O beijo foi longo e apaixonado. Luke j comeava a acarici-la de maneira mais ntima, contando com a ajuda da natureza para resolver a situao de uma vez por todas, quando Eleanor o empurrou com firmeza.
Ento o repelia mais uma vez? Por um momento, pensou em ignorar seus protestos e tomar o que era seu por direito, mas ficou to chocado com o rumo dos prprios pensamentos que soltou-a com certa violncia, quase empurrando-a contra o piano.
	Luke, eu...
Olhar para ela nesse momento s fazia crescer a frustrao. Gostaria que Daniel houvesse tirado a palha mais curta naquela noite. Gostaria de ter queimado a maldita vassoura antes de ter aceito a idia do irmo. Gostaria que o cavalo houvesse pisado num buraco de marmota quando dirigia-se  igreja no dia em que a conhecera. Um pescoo quebrado no teria trazido metade dos problemas ocasionados pelo casamento. Acima de tudo, gostaria de jamais ter ouvido falar nessa instituio chamada casamento.
	Afinal, que diabos espera de mim?  ele explodiu.
	Luke! Era a primeira vez que o ouvia praguejar.
	No sei mais o que pensar. J no dei o tempo que me pediu?
	Sim, e eu...
	No conheo muitos homens capazes de tal generosidade.
	Sim, eu sei e...
	Tenho sido paciente.
	Sim, e eu...
	Esperei que ouvisse a voz da razo, em vez de tentar enfi-la na sua cabea aos trancos, no foi?
Eleanor ficou quieta. Essa histria de ouvir a voz da razo no soava muito bem, mas tinha de engolir a contrariedade. No queria discutir com o marido, e sim aproximar-se dele. Decidira que era hora de impor alguma normalidade ao casamento, e ganhar a granadina s servira para confirmar sua deciso.
Queria ser sua esposa outra vez, e s interrompera o beijo para poder respirar, no para afast-lo. E diria isso a ele assim que teve chance.
	Eu sei que...
	Ningum em s conscincia teria suportado tudo que engoli at agora  Luke continuou.  Dormi no celeiro, permiti que meu irmo me atormentasse at no suportar mais... No sei como os pees ainda no se demitiram. Se no sou capaz de administrar minha prpria esposa, como serei capaz de cuidar de um rancho?
	Administrar sua esposa?  ela repetiu irritada.
	Trouxe flores e uma gata  ele prosseguiu, sem perceber a mudana no tom de voz de Eleanor.  Finalmente trouxe esse maldito pedao de pano azul, e voc continua agindo como uma virgem na noite de npcias! Que diabos quer de mim?
Dessa vez Eleanor no se importou com o vocabulrio imprprio. Considerando a intensidade com que o sangue latejava em seus ouvidos, era surpreendente que ainda pudesse escut-lo. O tecido fora um suborno? Acreditava poder comprar a passagem de volta  sua cama? Esperava que se vendesse como uma garota de saloon, e por alguns metros de pano?
Furiosa, virou-se e agarrou o pacote sobre o banco do piano, jogando-o nas mos de Luke.
	No estou  venda!
	A venda? Do que est falando?
	Veio aqui certo de que poderia me comprar com isso  e apontou para o pacote.
	No!  A culpa tornou a negao mais veemente. Talvez houvesse pensado em amolec-la com o presente, mas compr-la? Alm do mais, no precisava comprar coisa alguma! Furioso, jogou o pacote no cho e chutou-o para longe, dando alguns passos em sua direo.
	No preciso compr-la para t-la novamente em minha cama.  A ameaa suave em sua voz era mais efetiva que um grito.  Voc  minha esposa.
Eleanor sentiu os dedos em torno de seu pulso como uma garra de ferro. Pensou em fugir, mas estava encurralada contra o piano, e recusava-se a afastar-se para o lado como um caranguejo apavorado.
	Solte-me  exigiu, tentando mostrar-se firme. 
Luke ignorou a exigncia e ergueu a mo dela at coloc-la entre eles.
	Quando pus essa aliana em seu dedo, comprei todos os direitos sobre voc.
Eleanor encarou-o boquiaberta, tomada por um misto de espanto, raiva e medo. Luke estava certo. A aliana em seu dedo a tornava propriedade do marido, e como se no bastasse o apoio da lei e as bnos de Deus, ele ainda contava com a fora fsica. Engolindo em seco, ergueu o queixo disposta a no demonstrar o temor.
	Vai ter de me forar  prometeu em voz baixa. 
Luke encarou-a e notou o brilho de medo em seus olhos. Devia estar feliz. No havia sido essa sua inteno? Que maravilha, McLain! Assustar uma mulher! Seu pai ficaria orgulhoso! A vergonha deixou um gosto amargo em sua boca. Os dedos afastaram-se do pulso de Eleanor como se queimassem.
	Estou farto disso tudo  disse, virando-se para sair.
	Aonde vai?
	Desfrute da privacidade de uma cama solitria, mas no espere que eu passe o resto da vida me comportando como um monge.
A porta se fechou antes que ela pudesse dizer alguma coisa. Eleanor ficou onde estava, sozinha, olhando para o papel e o tecido a seus ps, pensando se no acabara de cometer um terrvel engano.
Duas horas mais tarde, Eleanor ainda estava acordada. Cochilara um pouco na cadeira de balano do quarto, e embora a colcha permanecesse sobre seus joelhos, ainda no conseguira unir dois retalhos. Ouvira Luke galopar para fora do rancho minutos depois da discusso e tentara convencer-se de que no estava interessada em seu destino, desde que ele desaparecesse de sua vista. Mas as ltimas palavras que ouvira continuavam ecoando em sua mente. E se ele houvesse ido procurar companhia feminina?
Impossvel no pensar nas mulheres do Golden Lady, o saloon mais famoso da cidade. Havia tido oportunidade de ver algumas delas na rua, ou na loja de Andrew Webb, e sabia que podiam ser muito atraentes.
Alm da esposa, quem poderia acus-lo se fosse procurar uma delas?
Pensando bem, nem ela mesma poderia culp-lo. Recusara-se a cumprir com seus deveres conjugais, e ainda o acusara de tentar comprar seus favores. E tudo que Luke fizera havia sido trazer um presente. Um lindo presente...
Eleanor cochilou novamente e acordou, assustada, julgando ter ouvido um barulho. Em p, ainda estava decidindo por onde comearia a inspeo, quando o som repetiu-se. Agora o identificava com clareza. A porta do celeiro!
Luke! Podia ser Daniel ou qualquer um dos rapazes, mas sabia que era ele. Eleanor aproximou-se da janela a tempo de v-lo atravessando o terreiro.
Luke estava de volta. E no s havia voltado, como ia entrar!
Ainda estava tentando absorver a idia, quando ouviu a porta da cozinha se abrir. Em seguida, as botas ecoaram na escada de madeira. Meu Deus, ele estava subindo! Podia at estar se dirigindo ao quarto que ocupava. E depois da maneira como haviam se despedido, a possibilidade no era nada reconfortante.
Trancaria a porta antes que ele entrasse. Deu um passo naquela direo e parou. Talvez fosse melhor meter-se na cama e fingir estar dormindo, como se a discusso no a houvesse perturbado. Sem saber o que fazer, ficou parada no meio do quarto, dividida entre as duas possibilidades, at que ouviu os passos do marido no corredor. Se trancasse a porta agora ele ouviria, e ento tudo ficaria ainda pior. Uma porta trancada o deixaria ainda mais furioso, e mais cedo ou mais tarde teria de pagar por isso.
Sem sequer perceber que tomava uma deciso, apagou a lamparina sobre a mesa de cabeceira e mergulhou sob as cobertas, puxando-as at a cabea no exato instante em que ele parou diante da porta. Fechando os olhos, tentou controlar a respirao. Quando ele batesse na porta, queria oferecer uma resposta sono-lenta, no um grito apavorado de uma criana pega em flagrante.
Tomaria uma atitude digna, como prometera a si mesma. No se mostraria muito ansiosa para perdoar, mas tambm no dificultaria as coisas. Dignidade e perdo generoso... depois de um intervalo apropriado,  claro.
Eleanor esperou de olhos fechados.
Mas Luke jamais bateu na porta.
O som da maaneta a fez sentar-se na cama e arregalar os olhos, demonstrando incredulidade ao v-lo entrar no quarto. Abriu a boca para exigir uma explicao sobre sua presena, mas tentou lembrar-se da promessa sobre manter-se digna e engoliu as palavras aborrecidas. Um silncio expressivo seria sua melhor resposta.
Mas, expressivo ou no, seu silncio no pareceu afet-lo. Sem sequer olhar em sua direo, ele levou a lanterna que carregava para o outro lado do quarto e deixou-a sobre a cmoda. Em seguida comeou a esvaziar os bolsos, deixando os objetos pessoais ao lado da lanterna.
Eleanor engoliu em seco. No parecia um homem disposto a desculpar-se, mas algum preparando-se para ir para a cama. O desconforto transformou-se em apreenso, quando ele abriu o colarinho e soltou a camisa, puxando-a para fora da cala.
	O que pensa estar fazendo?
Luke virou-se com calma aparente e comeou a desabotoar a camisa.
	Vou dormir  disse.
	Aqui?
	Exatamente. Em minha casa, no meu quarto, com minha esposa  e tirou a camisa, jogando-a sobre a cadeira de balano enquanto se aproximava da cama.
A viso do peito nu despertou uma estranha sensao no estmago de Eleanor, uma emoo que preferia no reconhecer. Ainda estava zangada com ele. Como se atrevia a simplesmente voltar para o quarto e... e fazer o que quer que pensasse estar fazendo?
	Muito bem  disse, jogando as cobertas longe.  Voc fica aqui. Eu vou dormir em outro lugar.
	No, no vai.  Luke ajoelhou-se sobre a cama e segurou-a pelo brao, impedindo-a de fugir.  Vai ficar exatamente aqui.
	No vou!
	Vai ficar aqui nessa cama, comigo.
Sabia que atingira o limite de sua pacincia. O jogo chegara ao fim.
	Vai ter de me forar  disse, apesar do alvio provocado pela certeza de que no teria mais de dormir sozinha.
	Acho que no  Luke devolveu com voz rouca, acariciando seu brao de forma provocante.  Sei que sentiu minha falta nessas noites que passou sozinha, como tambm sei que no quer mais dormir sem sentir meu corpo a seu lado.
	No senti sua falta  ela mentiu, tentando no notar a maneira como o peito musculoso arfava diante de seus olhos.  Gosto de dormir sozinha.
	Eu no gosto  e segurou-a pelos ombros, trazendo-a para mais perto.  No vou mais dormir no celeiro, Eleanor.
	Eu nunca disse que devia ir dormir no celeiro. Podia ter dormido em outro quarto da casa.
	No, no podia  Luke respondeu, enquanto soltava seus cabelos. A maneira como a fitava fazia sentir-se derreter. Agora j no a mantinha cativa, e nem precisava. O desejo em seus olhos era mais eficiente que qualquer corrente.  No conseguiria estar na mesma casa que voc sem toc-la.
Havia algo de sedutor em saber que era o alvo de tanto desejo. De repente, a determinao de resistir s suas investidas desaparecia.
	No vai tentar me comprar com outro corte de tecido, talvez com um par de sapatos?  perguntou, embora no conseguisse mais sentir-se ultrajada como antes.
	Chega de presentes. Chega de discusses. E basta de camas separadas. Somos casados, e de agora em diante agiremos como tal.
	No vou...
	Sim, voc vai  e beijou-a, silenciando qualquer tentativa de protesto.
Eleanor desistiu de argumentar. Estava farta de lutar contra o desejo que a queimava, contra a nsia de estar nos braos do marido.
Erguendo a cabea, encarou-o em busca de respostas para as perguntas que no conseguia transformar em palavras. Queria saber se gostava dela, se a considerava mais que uma me para os filhos que herdariam seu rancho, se lamentava ter tirado a palha mais curta.
	Onde esteve?  foi a nica coisa que conseguiu dizer.
	Fui at a cidade e estive no Golden Lady  ele admitiu sem hesitar.  Pensei em me embriagar.
	Mas parece completamente sbrio.
	E estou. Tambm pensei em buscar um pouco de companhia feminina.
Eleanor encolheu-se como se houvesse sido atingida por uma bofetada, o corpo subitamente rgido. A dor a invadiu com a fora e a intensidade de um raio. No era justamente isso que temia? Havia contado com isso, mas pensar na possibilidade no a preparara para o sofrimento de deparar-se com a realidade. Tentou afastar-se, mas Luke previu sua reao e abraou-a, puxando-a at pressionar o peito contra seus seios.
	Eu disse que pensei nisso. Depois do primeiro usque, percebi que a nica mulher que queria era a minha. A mulher com quem me casei.
Toda a rigidez desapareceu, quando Eleanor registrou o que ele dizia. Luke a queria. No era o mesmo que am-la, mas j era alguma coisa. Desejo podia transformar-se em amor, no?
	Luke?
Era a rendio, e ambos sabiam disso.
	Ellie.  O apelido foi como uma carcia.
Eleanor derreteu entre os braos do marido, rendendo-se ao desejo e  necessidade que era como uma dor fsica.
Sentia-se como se, de certa forma, essa fosse sua verdadeira noite de npcias. A primeira vez em que se encontravam sem segredos ou reservas. A menos que interpretasse como segredo o fato de estar profundamente apaixonada por esse homem. Seu marido...

CAPITULO XVI

O Quatro de Julho era celebrado em Black Dog com o mesmo entusiasmo do restante do pas. Havia msica, dana, paradas e,  claro, muita comida. As mulheres da cidade haviam passado os dias anteriores cozinhando para o evento.
Se patriotismo pudesse ser medido pelo fervor com que se celebrava esse feriado em particular, ento os cidados de Black Dog no perdiam para ningum.
	Parece que metade do pas decidiu vir me ver vencendo a corrida  Daniel comentou com o irmo, envolyendo-o num olhar desafiante.
	E mais provvel que estejam esperando uma repetio do fracasso do ano passado, quando o cavalo o jogou dentro do bebedouro na frente do armazm. Isso, sim,  um grande espetculo.
	No foi nada interessante.
	No tive oportunidade de presenciar a cena, mas ouvi uma ou duas pessoas dizendo que foi o ponto alto da corrida  Luke devolveu.
	Tambm no estava aqui, mas lembro que tio Zeb comentou alguma coisa  Eleanor comentou.
	Aquele cavalo era estpido como um poste  Daniel defendeu-se.
	Talvez no gostasse de voc  Luke sugeriu com um misto de solidariedade e malcia.
	Ouvi dizer que os cavalos podem ter reaes quase humanas aos seus cavaleiros  Eleanor colaborou.
	Tambm j ouvi algo parecido  Letty opinou pela primeira vez.
	J pensaram que posso ter mergulhado naquele tanque de propsito, s para divertir a platia?
	No  os trs responderam ao mesmo tempo.
Daniel mostrou-se indignado.- Antes que pudesse dizer alguma coisa, Eleanor e Letty desmancharam-se em gargalhadas, e Luke deu um tapa amistoso nas costas do irmo.
	Encare a realidade, meu irmo. No tem a menor chance de vencer essa corrida. Eu vencerei novamente, como no ano passado. A nica disputa que poder ganhar ser a de comedores de tortas. E, mesmo assim, ouvi dizer que o caula de Harvey Rutherford passou o ano inteiro praticando. Talvez tenha um adversrio  altura.
	Veremos quem vai rir quando eu vencer a corrida.
	No ano passado seu cavalo riu por ltimo.
O comentrio arrancou mais gargalhadas das duas mulheres e at um sorriso contrariado de Daniel.
	Veremos  ele disse.
	Sim, veremos.
	Por que no mudamos de assunto?  Letty sugeriu, notando que Daniel lanava um olhar agradecido em sua direo.
Os quatro dirigiram-se  churrasqueira, e Daniel aproveitou a oportunidade para oferecer o brao a Letty, que aceitou-o com um rubor satisfeito. Eleanor notou que, mesmo constrangida, ela no tentava interromper o contato.
O gesto adicionou mais uma nota de alegria ao dia perfeito. Seria maravilhoso se Letty e Daniel se casassem. A atrao entre eles era evidente, e o fato da amiga ter aceito o convite de seu cunhado para ir ao piquenique era bastante significativo. Desde que se mudara para Black Dog, ela havia recusado todas as atenes dos homens que tentaram aproximar-se. Como viva, tinha uma reputao muito frgil a zelar. Entretanto, ali estava ela, em plena luz do dia, no meio de uma comemorao, de braos dados com Daniel.
Se Letty se casasse com ele, a vida seria quase perfeita. A perfeio completa s seria possvel se Luke a amasse. Como se pudesse ler seus pensamentos, ele a encarou e sorriu, fazendo seu corao derreter.
A ltima semana havia servido para fortalecer o amor que sentia por ele. Estavam mais prximos, como se houvesse uma nova compreenso entre os dois. No voltaram a discutir. A granadina fora dobrada e guardada em sua caixa de costura. Era quente demais para o vero mas, quando o outono chegasse, ela a transformaria no mais belo vestido que j sonhara ter.
Aprendera uma lio com a vida: a verdadeira felicidade estava em aceitar o que estava ao alcance das mos, em vez de sonhar com a lua. Se Luke no a amava, ao menos importava-se com ela. Tinha de contentar-se com isso.
Luke havia chegado  concluso de que Eleanor era realmente a esposa ideal. Estava longe de ser a mulher dcil e obediente que imaginara a princpio. Eleanor era espirituosa, determinada e forte, e se o pacote vinha completo com algum temperamento, que fosse. Pelo menos a vida jamais seria aborrecida.
	O que houve?  ela perguntou, notando que era estudada com interesse.
	Estava apenas reparando que parece mais bonita  ele respondeu.
	Ora, obrigada.  Eleanor ergueu o brao para ajeitar o chapu, chamando a ateno do marido para a nica nota destoante em sua aparncia perfeita.
Estava usando aquela coisa horrorosa novamente! Se no conseguisse pensar numa maneira de livrar-se daquele suplcio at o fim do dia, faria com que seu cavalo o pisoteasse.
Acha que Daniel ser jogado no bebedouro no vamente?  Letty perguntou, preocupada.
Estavam paradas na frente da loja de Webb, aguardando o incio da corrida.
	Isso s o animal poder decidir. Voc e ele parecem estar se entendendo bem  Eleanor comentou.
	Daniel  um homem bastante interessante, depois que se consegue conhec-lo melhor.

	Ele  capaz de conquistar qualquer uma com aquele charme.
	Tem razo  Letty sorriu embaraada.  S gostaria de ter certeza de que existe algo mais substancial por baixo de tanto charme.
	Acho que ele est fascinado por voc. No pediu para levar seu leno na corrida?
	Duvido que seja a primeira mulher a merecer essa gentileza. Pelo que sei, ele pede o mesmo favor a meia dzia de garotas todos os anos.
	Isso encheria seus bolsos, no acha?  Eleanor brincou.  Admita de uma vez, Letty. Daniel a est cortejando, goste voc ou no.
	O que mais me preocupa  que gosto disso.
Antes que Eleanor pudesse responder, uma terceira voz as interrompeu.
	Ora, que prazer encontr-la, minha prima.
Anabel. No voltara a v-la desde o dia de seu casamento/mas a sorte parecia ter chegado ao fim. Forando um sorriso agradvel, virou-se para encar-la.
	Ol, Anabel.
	H quanto tempo no nos vemos. Estava comeando a suspeitar de que Luke a mantinha acorrentada  cozinha, o que no seria nenhuma surpresa, j que ele s se casou com voc para ter uma cozinheira.
Letty emitiu um suspiro exasperado.
	Quero dizer, deve haver mais alguma razo...  Anabel prosseguiu, com tom de provocao.
H algumas semanas Eleanor teria ficado aborrecida, mas depois do casamento ganhara uma nova confiana. A nica coisa que sentia pela garota arrogante e pretensiosa  sua frente era pena, pois sabia que, sob a aparncia vaidosa e antiptica, havia uma pessoa muito infeliz.
	Sabe de uma coisa, Anabel? Se aprendesse a falar sobre alguma coisa alm de si mesma e das falhas de outras pessoas, talvez fosse mais feliz.
Anabel encarou-a com um misto de espanto e fria. Um vermelho intenso tingiu seu rosto e ela abriu a boca para responder, mas um tiro ecoou no incio da rua, assinalando o incio da corrida, e todas viraram-se.
Excitada, Eleanor deu um passo  frente para verificar se o marido j tomara a dianteira, e teve a impresso de t-lo reconhecido na ponta, quando algum a empurrou para a frente.
Um grito... Um tropel... Uma nuvem de poeira... E Eleanor soube que estava prestes a morrer.
Luke tentava tirar o mximo da montaria, quando viu Eleanor destacar-se da multido reunida na calada e cair de joelhos no meio da rua. Ningum conseguiria parar a tempo, nem havia espao para que os cavalos fossem desviados. A rua era estreita, o nmero de cavaleiros, elevado... O desfecho parecia inevitvel e aterrorizante.
Eleanor ia morrer!
Ento ela virou-se e ele pde ver o medo em seu rosto delicado. Sem ela, preferia morrer tambm!
S havia uma chance. Movido pelo desespero, segurou as rdeas com fora, inclinou-se sobre a sela e cravou as esporas nos flancos do cavalo que, assustado, lanou-se  frente num galope alucinante. Poderia determinar o exato instante em que ela percebeu sua inteno, e sentiu-se invadido por uma onda de segurana, ao constatar que no havia medo, mas apenas confiana em sua expresso.
Firme, soltou uma das mos ao aproximar-se e notou que ela erguia um brao, colaborando com o resgate.
No instante seguinte Eleanor sentiu os dedos se fecharem em torno de seu brao e puxarem seu corpo com preciso e fora impressionantes. O pesadelo chegara ao fim. Estava salva!
Quando Luke conseguiu deter o animal assustado, a corrida j havia terminado. A multido aplaudia enfurecida, mas no saberia dizer se o entusiasmo era dirigido ao vencedor ou ao heri que salvara sua amada da morte certa.
Amada?
No havia como contestar. Tivera de correr o risco de perd-la, para descobrir que a amava, e agora esse amor o tomava por completo, mesclando-se  alegria de t-la em seus braos, viva e inteira.
	Meu Deus! Pensei que ia perd-la  sussurrou, abraando-a com fora.
	Confesso que pensei a mesma coisa  Eleanor respondeu, refazendo-se do choque.  Mas quando o vi, tive certeza de que no me deixaria morrer.
	Nunca. No posso viver sem voc, Ellie.
	O que aconteceu, Luke?
A pergunta preocupada de Daniel interrompeu o in-terldio amoroso.
	No sei. S tive tempo de v-la caindo e... Afinal, o que aconteceu, meu bem?
	Eu...
	Eu sei o que aconteceu  Letty anunciou, destacando-se do pequeno grupo que cercava os McLain. Todos viraram-se para acompanhar a cena inusitada. Ela arrastava uma jovem loira e bela pelos cabelos, ignorando seus protestos desesperados e furiosos.  Essa cretina a empurrou. Foi isso que aconteceu.
	Eu no fiz nada disso!  O protesto de Anabel terminou num grito de dor quando Letty puxou seus cabelos.  Vai me escalpelar!
	 menos do que merece!
	Concordo, mas acho melhor solt-la, pelo menos por enquanto  Daniel sugeriu.  Quer explicar o que houve, srta. Williams?
	Anabel olhou em volta como se buscasse um rosto amigo, mas no havia uma nica alma na cidade que a apreciasse.
	Ei, deixem-nos passar  Zeb Williams exigiu.  O que est acontecendo aqui? Est ferida, minha sobrinha?
	No, tio Zeb.
	O que aconteceu?  Dorinda quis saber, notando a presena da filha.  O que fez com seu cabelo, Anabel?
Sentindo que dessa vez estava realmente encrencada, Anabel reagiu da nica maneira que parecia capaz de salv-la. Rompeu num pranto desesperado.
	Sua filha empurrou minha esposa na frente dos cavalos  Luke resumiu.  E quase a matou.
	Isso  ridculo  Dorinda protestou, chocada.  Diga a eles que no fez nada disso, minha filha.
	Eu vi quando ela a empurrou  Letty afirmou.
	S queria assust-la  Anabel defendeu-se chorando.
Zebediah olhou para a filha. Era um banqueiro. Dependia da prpria reputao para garantir sua sobrevivncia e a da famlia, e a atitude tola e irresponsvel de Anabel podia pr tudo a perder. S havia uma possibilidade de salvar a situao.
	Venha comigo, Anabel. Acho que chegou a hora de aprender uma lio e conhecer o peso de minha mo.
	Papai!
Zeb agarrou-a pelo brao e arrastou-a atravs da multido, demonstrando que era capaz de ser justo quando a situao exigia. Dorinda os seguiu como se no pudesse acreditar no que via.
Assim que o trio afastou-se, todos procuraram certificar-se de que Eleanor estava bem, e logo o grupo comeou a dispersar-se.
	Sra. McLain,  bom saber que no sofreu um s arranho  Shorty comentou, aproximando-se da patroa com um sorriso franco.  S lamento que tenha perdido o chapu.
	Meu chapu?
S ento ela notou o estranho adorno que o peo trazia entre as mos. Nem com muito esforo teria sido capaz de reconhecer seu antigo chapu naquela massa de flores amassadas e de tecido sujo.
	Os cavalos o pisotearam, senhora. Tentei salv-lo, mas foi impossvel.
Eleanor sentiu o peito de Luke sacudir e virou-se, surpreendendo-se ao ver que ele se esforava para conter o riso.
	Luke! O que h de to engraado nisso?
	Jogue isso fora, Shorty  ele ordenou, incapaz de reter as gargalhadas.  Pensei que a sorte estivesse a meu lado quando consegui salv-la, meu amor, mas no imaginava que pudesse contar com tanta ajuda num s dia.
J estavam no rancho, quando Eleanor reuniu a coragem necessria para voltar ao assunto que martelava em sua mente. Luke explicara-se sobre o chapu, mas ainda no mencionara o fato de t-la chamado de meu amor.
	Luke...
Antes que pudesse terminar de falar ele a beijou, carregando-a at o quarto.
	Luke, por favor...
	Shhh! No quero ouvir mais nada. J conversamos demais desde que nos conhecemos, e agora  hora de fazermos amor. Pela primeira vez...
	Amor?
	Sim, minha querida Ellie. Hoje tive a sorte de salv-la da morte e descobrir que a amo. E como se no bastasse tanta sorte, ainda consegui me livrar daquele maldito chapu. O que pode me acontecer de melhor?
	Leve-me para a cama e prometo que vai descobrir...

FIM


DALLAS SCHULZE ama os livros, os filmes antigos, o marido e o gato, no necessariamente nessa ordem. Sempre em busca de finais felizes, ela acredita que o ofcio de escritora  uma maneira de dar vazo  prpria imaginao. Dallas espera que os leitores divirtam-se com seus livros tanto quanto ela! Seus hobbies so tantos que no temos espao para relacion-los, mas atualmente ela trabalha numa coleo de bonecas. Dallas gosta muito de saber a opinio de seus leitores, e voc pode escrever para P.O. Box 241, Verdugo City, CA 91046, USA.
